Santa Catarina: Centenária defende independência da mulher e respeito mútuo para um bom entendimento social (c/áudio)

13-03-2024 1:45

Assomada, 13 Mar (Inforpress) – Joana Mendes Semedo, uma centenária de São Salvador do Mundo, residente hoje em Assomada, Santa Catarina, defende que a mulher tem de ser sempre independente, mas que é preciso o respeito mútuo para uma sociedade sã.

“Nha Benvida”, como é conhecida por todos, completou 100 anos no passado mês de Novembro, mas mantém-se lúcida, não esqueceu ainda factos passados na sua juventude ligados à costura e nem dos bons modos de convivência da época.

Mulher de um século, mas que diz sempre a trabalhar, pois conforme contou à Inforpress, neste mês que é dedicado à mulher, embora Nha Benvinda acredite que a mulher não tem um mês nem um dia, mas sim ela é um ser “especial” 365 (6) dias, desde que souber “impor” com respeito os limites, mas também fazer com que estes limites e respeito sejam respeitados.

Esta sábia mulher relembrou que na sua época teve a sorte de frequentar a escola até a quarta classe, algo que ressalta com orgulho, sublinhando que o que ela sabe e aprendeu nesta altura não se compara aos ensinamentos de hoje, porque na época o conhecimento e o aprendizado eram de “outro nível”.

Cheia de peripécias, contou que quando o seu pai lhe impediu de continuar os estudos, coisa comum na altura, procurou alguma coisa para fazer e como desde sempre teve jeito para a costura, decidiu cair de cabeça e aprimorar os seus conhecimentos, contando que a sua primeira blusa, feita por si mesma, foi cortada com uma pedra.

“Fui atrás da nossa casa, fiz molde em uma pedra, tracei onde deveria ser cortado, nesta mesma pedra coloquei o tecido após o tracejar esboçando a blusa que queria, peguei de uma outra pedra de ponta fina e fui cortando, depois dei os últimos toques com a agulha e linha que também levei escondidas”, contou.

E graças a essa inteligência de fazer este corte, disse que o pai, que trabalhava em Santa Cruz e só regressava à casa aos sábados, foi informado do sucedido pela mãe, tendo recebido do progenitor uma tesoura.

Com o tempo foi aprendendo cada vez mais, trabalhou numa alfaiataria e chegou o dia em que recebeu do seu pai a sua própria máquina.

“Quando coloquei as mãos na máquina a minha vida se transformou. Consegui moldes de calças e camisas e fiquei a costurar para todos os interessados”, recorda entre risos, acrescentando que graças a este dom teve uma vida diferente das colegas da época.

Diferença notada logo na habitual faina agrícola que ocupava as mulheres do campo, destacando que ela não trabalhava a azágua, mas sim costurava roupas e não recebia em dinheiro, ou era paga com mão-de-obra nos campos agrícolas ou então recebia em troca os próprios produtos agrícolas.

Depois, Nha Benvinda se casou aos 21 anos, foi residir agora em outro município do interior de Santiago, São Lourenço dos Órgãos, teve quatro filhos, mas não deixou de ser independente, continuou com as suas lidas, mudando agora de profissão.

“De costureira passei a confeccionar produtos da pastelaria, como o cuscuz, pastel, também fazia e vendia tabaco”, contou orgulhosa, defendendo que a mulher deve saber fazer um pouco de tudo e sempre demonstrar a quem quer que seja que ela é capaz e independente, contando com orgulho que foi com o seu dinheiro conseguido na pastelaria e venda de tabaco que compraram um terreno para construir uma casa em João Teves.

E, para reforçar a importância de a mulher ser independente e de sempre fazer algo, conta com orgulho que ainda, com os seus 100 anos, costura aventais, bolsas de pães, saias, que são vendidas pela sua própria filha, e com o dinheiro compra a sua matéria-prima e ainda resta dinheiro para algumas despesas.

Mas lamenta todos os acontecimentos que têm ocorrido ao longo desses anos, principalmente a nível conjugal, e Nha Benvinda aconselha aos jovens a se respeitarem mutuamente, a terem paciência uns com os outros, relembrando que ninguém é completo ou perfeito, pois todos erram.

“Os dentes por vezes pisam a língua. Isso é sinal de que há coisas que devem ser relevadas e resolvidas com base no amor, no perdão e no respeito, pois só assim é possível acabar com essas diferenças entre o homem e a mulher que foram impostas por eles mesmos”, disse esta centenária.  

E falando de mudanças, aproveitou para pedir aos pais que sejam “mais firmes” na educação dos filhos, porque a sociedade de hoje e o de amanhã está e vai depender daquilo que for passado de geração em geração. A educação é vista por Nha Benvinda como sendo o “calcanhar de Aquiles” das sociedades modernas, justificando que os pais e a própria sociedade estão a errar muito neste quesito.

Para finalizar, voltou a bater na tecla da necessidade da mulher se capacitar, seja em qualquer área, mas que seja algo útil e que lhe garanta o seu sustento, mas também pressionou a tecla do respeito, da paciência, do perdão e do reforço dos valores na educação.

MC/JMV
Inforpress/Fim

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