Cidade da Praia, 20 Jul (Inforpress) – O músico, produtor musical e sonoplasta Paulo Renato Mariano de Figueiredo, conhecido artisticamente por Paló, considera que o Finaçon foi uma escola de música e de cidadania, decisiva no seu percurso profissional.
Criado em 1985, dez anos após a independência nacional, o Finaçon nasceu num período em que Cabo Verde procurava afirmar a identidade cultural através da valorização da música tradicional conciliando a preservação das raízes com novas abordagens musicais.
Ao integrar a formação, Paló passou a fazer parte de um projecto que rapidamente conquistou reconhecimento dentro e fora do país.
Os concertos sucediam-se e o grupo afirmava-se como uma referência da música cabo-verdiana, contribuindo para aproximar novos públicos de um património musical até então associado, sobretudo, às comunidades e aos espaços tradicionais.
Em entrevista à Inforpress, o artista considerou, contudo, que a maior riqueza do Finaçon não residia apenas nos espectáculos ou na projecção pública. O verdadeiro legado, vincou, encontrava-se no método de trabalho que caracterizava o grupo.
Os ensaios eram exigentes e prolongavam-se durante horas. Cada elemento era chamado a aperfeiçoar continuamente a sua execução, num ambiente onde a disciplina, o rigor e o respeito pelo trabalho colectivo constituíam princípios fundamentais. A qualidade artística não era encarada como um objectivo ocasional, mas como uma exigência permanente.
Paló considerou que essa experiência teve um papel determinante na sua formação. A convivência com músicos experientes permitiu-lhe compreender que a construção de um espectáculo depende da capacidade de cada elemento ouvir os outros, respeitar os espaços individuais e contribuir para um resultado comum.
Mais do que um grupo musical, o Finaçon funcionava como um espaço de partilha de conhecimentos. Os músicos mais experientes transmitiam saberes aos mais jovens, num processo de aprendizagem contínua que ultrapassava a simples execução instrumental. Falava-se de arranjos, de interpretação, de composição, da história da música cabo-verdiana e da responsabilidade de preservar um património cultural que constitui um dos maiores símbolos da identidade nacional.
Na perspectiva de Paló, esse espírito colectivo explica, em grande medida, a importância que o Finaçon continua a ocupar na história da música cabo-verdiana.
Muitos dos músicos que passaram pelo grupo seguiram percursos próprios, mas levaram consigo uma forma de trabalhar assente na disciplina, na preparação e no respeito pela criação artística.
O músico considerou que o contexto actual é muito diferente daquele que existia nas décadas de 1980 e 1990. A evolução tecnológica facilitou o acesso à produção musical e abriu novas possibilidades de divulgação, mas também reduziu alguns dos espaços de aprendizagem colectiva que marcaram a formação da sua geração.
Apesar dessas mudanças, acredita que os princípios que orientavam o Finaçon continuam plenamente actuais. O talento permanece essencial, mas só produz resultados duradouros quando é acompanhado por estudo, dedicação e capacidade de trabalhar em equipa.
Quase quatro décadas depois da sua criação, o Finaçon mantém um lugar de referência na história da música cabo-verdiana.
Para Paló, integrar o grupo significou participar num dos projectos culturais mais marcantes do período pós-independência, experiência que marcou de forma decisiva o seu percurso como músico, produtor musical e sonoplasta.
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