Lisboa, 20 Set (Inforpress) – As eleições presidenciais brasileiras vão colocar frente a frente dois projetos de política externa, com Lula da Silva virado para a China e Sul Global e Flávio Bolsonaro inclinado para uma aproximação aos Estados Unidos de Donald Trump.
À Lusa, o cientista político, sócio fundador da Consultoria de Análise de Risco Político Dharma, Creomar de Souza detalhou que, caso haja uma vitória do atual Presidente brasileiro nas eleições de outubro, o Brasil tende a seguir investindo na maior aproximação com a China, com a Índia, com a Rússia, com os BRICS, “tentando criar momentos de cooperação com o Sul Global.”
Por outro lado, caso a vitória recaia para o senador e filho mais velho do ex-presidente brasileiro Jair Bolsonaro, haverá “uma maior aproximação àquilo que o restante do continente tem feito em direção aos Estados Unidos”, conforme se tem visto na Argentina, disse.
Também ouvido pela Lusa, o diplomata de carreira aposentado e professor universitário Paulo Roberto de Almeida considerou que Flávio Bolsonaro deverá reproduzir, embora de forma menos ostensiva, o alinhamento que o pai teve durante o seu mandato (2019-2022), quando coincidiu com o primeiro Governo de Donald Trump.
“Você pode esperar que o ‘I love you Trump’ do Bolsonaro possa ser repetido pelo Flávio Bolsonaro, talvez não com essa ênfase”, apostou o antigo ministro-conselheiro na Embaixada em Washington (1999-2003) e assessor Especial no Núcleo de Assuntos Estratégicos da Presidência da República (2003-2007).
Em sentido oposto, Paulo Roberto de Almeida argumentou que Lula da Silva mantém, desde o início do seu primeiro mandato (01 de janeiro de 2003), uma orientação ideológica favorável a Pequim e Moscovo.
“O Lula é um antiocidental, um antiamericano, que acha que Rússia e China vão criar essa tal de nova ordem global multipolar”, sublinhou.
Na passada quarta-feira, em plena campanha eleitoral, o assessor especial de Lula da Silva, Celso Amorim, deslocou-se a Pequim para manter um encontro com o principal diplomata da China, Wang Yi.
Citado pelo Diário do Povo, o jornal oficial do Comité Central do Partido Comunista da China, Wang Yi sublinhou que “a China e o Brasil devem continuar a aprofundar a cooperação e a fortalecer a coordenação estratégica em importantes questões internacionais e regionais”.
A China é o maior parceiro comercial do Brasil desde 2009 e as trocas comerciais bilaterais atingiram, em 2025, um recorde de 171 mil milhões de dólares (cerca de 149 mil milhões de euros).
O Brasil foi ainda o principal destino do investimento chinês em 2025, com 6,1 mil milhões de dólares (cerca de 5,3 mil milhões de euros).
Por outro lado, os Estados Unidos, que até 2025 eram o segundo maior parceiro comercial do Brasil, perderam esse lugar para a União Europeia, considerada em bloco, num contexto de forte deterioração das relações entre Brasília e Washington, depois de Donald Trump ter imposto tarifas aos produtos brasileiros, associando inicialmente as medidas ao processo judicial contra Jair Bolsonaro, que classificou como uma “caça às bruxas”, e de ter colocado sanções a juízes do Supremo brasileiro.
Os filhos de Bolsonaro, em particular Eduardo Bolsonaro, mantiveram contactos frequentes com aliados de Trump, pedindo publicamente medidas contra Lula e os seus aliados.
Entretanto Washington voltou a impor tarifas sobre grande parte dos produtos brasileiros.
Na opinião de Paulo Roberto de Almeida, um eventual alinhamento estreito de Flávio Bolsonaro com Washington prejudicaria a posição internacional do Brasil: “Essa perspetiva de uma aliança Brasil-Estados Unidos no Governo Bolsonaro seria extremamente danosa para a nossa credibilidade diplomática internacional”.
Além disso, uma vitória de Flávio Bolsonaro aproximaria o Brasil do denominado Escudo das Américas, uma iniciativa de cooperação entre Washington e governos conservadores da região.
“Esse aspeto do Escudo das Américas pode ser aceite pelo Flávio Bolsonaro, se ele ganhar, assim como o pai dele seguiu totalmente a política externa americana”, frisou.
Sobre as tarifas, o analista Creomar de Souza advertiu, contudo, que uma vitória de Flávio Bolsonaro não garantiria o levantamento das mesmas, “porque, efetivamente, as tarifas não têm a ver com o facto de ser um Governo Lula ou um Governo Bolsonaro”.
“Se fosse assim, a Argentina não sofreria com tarifas, e tem sofrido”, afirmou.
O cientista político alertou ainda que a expectativa do campo ‘bolsonarista’ de construir uma relação privilegiada com Washington poderá confrontar-se com a defesa dos interesses norte-americanos pela administração Trump.
A primeira volta das eleições decorre em 04 de outubro, com as sondagens a mostrarem uma luta acirrada entre o atual Presidente brasileiro, Lula da Silva, e o o senador Flávio Bolsonaro.
Caso nenhum candidato consiga alcançar pelo menos 50% dos votos, os eleitores serão chamados novamente às urnas para uma segunda volta agendada para 25 de outubro.
Inforpress/Lusa
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