Nairobi, 21 Set (Inforpress) - O Governo norte-americano deportou mais de 25 mil pessoas para países terceiros ao abrigo de acordos secretos com 35 nações para acolher indivíduos sem qualquer ligação a esses locais, revela uma investigação jornalística global hoje publicada.
Desde que o Presidente dos EUA, Donald Trump, regressou à Casa Branca, em janeiro de 2025, Washington assinou acordos com países da América Latina, África e Pacífico para enviar estrangeiros que não podem regressar legalmente aos seus países de origem.
Esta investigação, conduzida por 72 jornalistas de 23 órgãos de comunicação social de 15 países e publicada pelo consórcio Forbidden Stories, mostra que o Governo dos EUA atribuiu pelo menos 410 milhões de dólares (cerca de 360 milhões de euros) a países anfitriões ou a agências da ONU que facilitam os retornos.
Até 31 de agosto deste ano, pelo menos 25.447 pessoas já tinham sido transferidas para 28 países — das quais cerca de 20 mil só para o México — ao abrigo destes acordos, de acordo com dados compilados pelo Forbidden Stories.
Os termos dos acordos variam, principalmente em relação às nacionalidades que podem ser aceites e aos indivíduos com antecedentes criminais.
Segundo a Forbidden Stories, 49 países africanos foram abordados para aceitar deportados que fossem cidadãos de países terceiros.
Uma investigação da agência de notícias francesa AFP realizada no início deste ano alertou para a pressão exercida por Washington sobre os países africanos, como ameaças de imposição de taxas aduaneiras (tarifas), suspensões de vistos ou cortes nas ajudas, para os obrigar a aceitar os deportados.
Especialistas jurídicos disseram à AFP que, uma vez ali, estes deportados caíam “num limbo jurídico”, ficando detidos sem acusação num país desconhecido e, muitas vezes, privados dos seus direitos.
Um departamento pouco conhecido do Departamento de Estado, chamado Gabinete de Remigração, criado em maio de 2025, conduziu a maior parte das negociações e pagamentos, de acordo com a Forbidden Stories.
Esse departamento é dirigido por um diplomata de 41 anos chamado Christian Jové Ehrhardt, que trabalhou como adido de segurança em várias embaixadas.
A Forbidden Stories revela, em particular, as suas visitas aos Camarões, país com o qual os Estados Unidos assinaram, em dezembro, um memorando de entendimento para a reinstalação de deportados.
Uma semana depois, Washington concluiu com esse país um programa para ajuda médica a cinco anos no valor aproximado de 350 milhões de euros.
Em janeiro, o Departamento de Estado norte-americano libertou mais 25 milhões de euros para a agência da ONU para os Refugiados (ACNUR) nos Camarões sob pretexto de querer “facilitar o regresso voluntário de refugiados e combater a imigração ilegal”.
A 14 de janeiro, o primeiro avião que transportava deportados aterrou nos Camarões.
Outros acordos resultaram em pagamentos diretos a governos.
Foi o caso de Palau, um arquipélago do Pacífico com menos de 18 mil habitantes, que assinou, em dezembro, um acordo para aceitar 75 cidadãos de países terceiros por 6,5 milhões de euros.
No entanto, até à data, apenas três pessoas foram enviadas para lá.
Um outro acordo no valor de 4,3 milhões de euros previa a deportação para Essuatíni (antiga Suazilândia), de 160 pessoas a partir de julho de 2025, sendo que, até agora, foram enviadas 32.
Este país da África Austral aceitou receber deportados com antecedentes criminais, de acordo com esta investigação.
Dos quase 360 milhões de euros atribuídos a estes acordos, os documentos internos do Departamento de Estado mostram que 70 milhões foram atribuídos aos governos signatários, e o restante a organizações internacionais, incluindo 155 milhões de euros para a Organização Internacional para as Migrações (OIM) e 107 milhões de euros para o Alto Comissariado da ONU para os Refugiados (ACNUR).
Estas duas agências da ONU, encarregadas de defender os direitos humanos, têm sido alvo de críticas sobre esta questão, embora o ACNUR tenha declarado ao Forbidden Stories que não fazia parte dos acordos e que estava a utilizar os fundos dos EUA de acordo com o seu mandato de “reforçar os sistemas de asilo”.
Um porta-voz da OIM afirmou que a organização tinha conhecimento de que Washington estava a utilizar a sua ajuda financeira para promover as “suas próprias prioridades”, mas aceitou o dinheiro dos EUA para poder “melhorar a vida dos migrantes afetados”, garantindo que isso não constituía “uma aprovação” das deportações.
Inforpress/Lusa
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