Nações Unidas, 19 Abr (Inforpress) - A presidente da Assembleia-Geral da ONU, Annalena Baerbock, afirmou à Lusa que a selecção do próximo secretário-geral será "uma questão de credibilidade" para a organização, uma vez que em 80 anos de história nunca teve uma mulher na liderança.
Em entrevista à agência Lusa, em Nova Iorque, Annalena Baerbock garantiu que, entre os 193 Estados-membros das Nações Unidas (ONU), há o entendimento de que, passados 80 anos, chegou o "momento certo" da organização multilateral ser chefiada no feminino.
"Estamos num ano histórico porque, após 10 anos, estamos a seleccionar o próximo secretário-geral para o século XXI, e a escolha enviará uma mensagem poderosa sobre quem somos enquanto comunidade internacional e se as Nações Unidas estão a servir todos os seus cidadãos em todo o mundo, dos quais, como todos sabemos, metade são mulheres e raparigas", observou.
"Uma organização que serve todas as pessoas em todo o mundo (...) e que une todos os países como nenhuma outra, precisa de se questionar se realmente serve toda a humanidade se, em 80 anos, nunca houve uma secretária-geral mulher", acrescentou.
Nesse sentido, a ex-ministra dos Negócios Estrangeiros alemã considera que a "questão de quem será seleccionado é também uma questão de credibilidade para as Nações Unidas".
Duas mulheres e dois homens mantêm-se na disputa pelo cargo e serão ouvidos terça e quarta-feira pelos Estados-membros, dando início a um processo que poderá ter um resultado histórico.
Ao longo dos últimos meses, registaram-se fortes apelos para a nomeação de candidatas mulheres à sucessão do português António Guterres, que deixará o cargo no final do ano, após dois mandatos consecutivos.
Contudo, a ex-presidente chilena Michelle Bachelet e a ex-vice-presidente da Costa Rica Rebeca Grynspan são as únicas duas mulheres em competição, que se juntam ao director-geral da Agência Internacional de Energia Atómica (AIEA), o argentino Rafael Mariano Grossi, e ao ex-presidente senegalês Macky Sall.
A diplomata argentina e ex-representante especial da ONU para Crianças e Conflitos Armados Virginia Gamba chegou a entrar na corrida através da nomeação das Maldivas. A nação insular acabou por retirar o apoio à candidatura de Gamba, eliminando-a assim do processo eleitoral.
Annalena Baerbock tem a ser cargo o processo de selecção do próximo líder da ONU e garantiu que os Estados-membros deixaram bem claro que "é necessária uma liderança forte nestes tempos fragmentados e desafiantes".
"Estamos no meio de uma grande reforma das Nações Unidas, pelo que ter actuado anteriormente num Governo nacional e ter experiência no sistema da ONU são também critérios" que os Estados-membros definiram como essenciais e querem ver no próximo secretário-geral, disse.
O diálogo interativo com os quatros candidatos ao cargo de secretário-geral da ONU arranca na terça-feira.
Cada candidato terá três horas para apresentar a sua declaração de visão para a organização, responder às perguntas dos Estados-membros e interagir com entidades da sociedade civil.
"Damos a todos os Estados-membros a oportunidade de entrevistar os candidatos durante três horas. Eu própria já participei neste processo como candidata à presidência da Assembleia-Geral. Portanto, é uma entrevista realmente difícil com 193 Estados-membros", explicou à Lusa.
"E, como consta na Carta, ao serviço dos povos do mundo, a sociedade civil tem também a oportunidade de colocar questões aos diferentes candidatos no que diz respeito às suas capacidades de liderança, à sua visão para as Nações Unidas, às suas ideias de reforma, mas também como fortalecer os três pilares das Nações Unidas: a paz e a segurança, o desenvolvimento sustentável e os direitos humanos", acrescentou.
No entanto, são os 15 membros do Conselho de Segurança da ONU que realmente têm a decisão nas mãos.
É apenas por recomendação do Conselho de Segurança que a Assembleia-Geral da ONU pode eleger o secretário-geral para um período de cinco anos, renovável por mais um mandato.
"Posso garantir que serão diálogos realmente interativos, o que significa que todos os temas serão debatidos, pois este é provavelmente o cargo mais difícil do mundo para o qual os candidatos concorrem, numa altura em que vemos não só a unanimidade sob pressão, mas também a Carta das Nações Unidas sob ataque directo", frisou.
"Mas, no final, a decisão está nas mãos dos Estados-membros, do Conselho de Segurança e, mais tarde, da Assembleia-Geral", recordou ainda Annalena Baerbock.
Inforpress/Lusa
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