São Tomé, 26 Set (Inforpress) – A irmã Lúcia sente-se recompensada com os milhares que ajuda no norte de São Tomé e Príncipe. Mas tem um lamento e uma certeza sobre o êxodo migratório: se fogem os melhores, há que ajudar os que ficam.
A freira portuguesa chegou no final do século passado a São Tomé e Príncipe. Quando muitas das crianças ainda ficavam junto à costa ou no mato, entregues a si próprias, longe da escola da qual as meninas eram tradicionalmente afastadas – porque se entendia que não precisavam de estudos - e num tempo em que boa parte dos mais pequenos comia a única refeição ao final do dia.
Ainda hoje há crianças que só têm garantida uma refeição, precisamente a que é providenciada pelo Projecto de Desenvolvimento Integrado de Lembá, liderado pela missionária, natural de Leiria, que ajuda diretamente mais de três mil pessoas da comunidade.
“Alguns só comem mesmo a refeição que comem ao almoço aqui. E depois vão para casa. Os bebés, esses, tentamos dar-lhes seis refeições. Eles, quando vão daqui, já vão com o banho tomado, já vão com quase o jantar tomado, vão todos com a fraldinha posta”, sublinha.
Hoje ainda é o tempo do abandono dos idosos, que, “se morrerem não há problema porque a vida deles já foi vivida”, lastima.
Mas há sinais encorajadores. “Começou-se a ver também que as mães já procuram, mesmo no mato, dar a refeição aos filhos, já se preocupam com o lanche dos filhos”, acrescenta, salientando que os pais que vivem nas zonas costeiras são já também os primeiros a matricular os filhos nas diferentes escolas que acolhem os menores entre os 6 meses e os 13 anos.
Os alunos da irmã Lúcia, com o passar dos anos, tornaram-se professores, rejuvenescendo e reforçando o projeto, que alberga refeitórios, sala de costura, consultório médico e dentista, que estão ao serviço também da comunidade, num espaço que acolhe ainda um polo da universidade e providencia formação profissional, com cada vez mais procura.
“Agora estão a procurar carpintaria e marcenaria porque eles querem ir para Portugal e os empresários estão a exigir um curso, um diploma”, um certificado que lhes permita emigrar, engrossando a vaga recorde de fuga de jovens do país nos últimos cinco anos.
O êxodo “é um problema grave, (…) mas não há outra solução”, num país “em que 75% são jovens”, em que os professores que “ganham 100 euros por mês e gastam 200 na alimentação”, ilustra, lamentando a encruzilhada são-tomense: “Nós vemos na nossa escola, os melhores que nós temos é que emigraram. Aqueles que nós esperávamos, tínhamos muita esperança (…) fossem desenvolver mesmo o projecto, são os que emigraram”.
Sustém a respiração, mas não perde o pragmatismo. “Acho que o país, porque ainda tem aqui juventude suficiente, tem de lutar pela juventude que tem cá”, ou seja, “não olhar para a emigração, mas para os que estão cá neste momento”, sendo que, sustenta, tudo começa nas escolas.
É urgente “formar bem, para os que cá estão também não desanimem e que se sintam bem”, acrescenta, dando o exemplo de sucesso de vários jovens que lhe passaram pelas mãos, agora licenciados, emigrados ou com lugar de destaque em instituições são-tomenses.
A missionária, de 65 anos, natural da freguesia da Caranguejeira, condecorada pelo Estado português com o grau de Grande-Oficial da Ordem do Mérito, em 2015, diz que está bem em São Tomé. “Mas se me disserem que eu vou amanhã para outro lado, eu vou, (…). Onde vejo que sou precisa, onde houver necessidades, eu vou”, enfatiza.
Afinal, diz, confia no trabalho que os leigos desenvolvem atualmente no projeto. E, acrescenta, na providência divina.
Em ezembro de 2024, a ONU retirou oficialmente São Tomé e Príncipe da categoria de Países Menos Desenvolvidos, reconhecendo progressos sustentados, mas cerca de 13% da população vive abaixo da linha de pobreza extrema e mais de dois terços sofre de vulnerabilidades socioeconómicas.
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