
*** Por Sandra Custódio, da Agência Inforpress ***
Cidade da Praia, 14 Mar (Inforpress) – O empresário que domina as hortaliças do Sal e o artista que transforma coladeiras e mornas em hinos de alma despe, nesta entrevista, a farda e o figurino para revelar o homem por trás da melodia.
Entre memórias de infância e a busca incessante pela essência da morna, a Inforpress quis conhecer o coração de um dos maiores embaixadores da alma cabo-verdiana, numa entrevista intimista e descontraída, entre muitas gargalhadas, nos seus aposentos em Palha Verde, onde as suas raízes se aprofundaram.
Ao fim de mais de uma hora de conversa, nesta viagem sem filtros à essência de Emílio Rito de Sousa Lobo, ou Mirri Lobo, percebe-se que ele não vive de personagens. Seja a tratar da hidroponia sob o sol forte do Sal ou a fechar os olhos para interpretar uma morna num palco iluminado, a essência é a mesma: a de um homem que aprendeu a colher o que semeia.
A história de Mirri começa com um imprevisto em Pedra de Lume, a 22 de Maio de 1960. Entre risos, contou ter nascido por acaso, explicando que a mãe estava apenas de visita a uma amiga quando ele decidiu vir ao mundo, num domingo à tarde.
Às seis da manhã, quando o sol começa a castigar as terras do Sal, Mirri — que para os vizinhos e colaboradores é o empresário resiliente que venceu pragas e crises e, para o mundo, a voz que transforma mornas e coladeiras em hinos de alma — já está de pé, entre as bancadas de hidroponia da sua empresa, a Milota.
Entre o pragmatismo de quem gere toneladas de hortaliças e a entrega emocional de quem canta como se a música fosse sua, longe das luzes do palco e das palmas, Mirri revela nesta conversa que também é mestre em omeletes e esparguete de atum.
O nome “Mirri” não nasceu de estratégias de marketing artístico, mas no calor de casa, como uma junção carinhosa de Emílio e Rito.
Foi em Palha Verde que as suas raízes se aprofundaram. Sendo o mais novo de cinco irmãos — com uma diferença de dez anos para o anterior, Patone Lobo —, Mirri descreve-se como a “raspa do tacho”, uma criança que cresceu num universo muito particular.
Enquanto os irmãos já trilhavam caminhos de adultos, Mirri habituou-se a uma solitude criativa. Brincava mais sozinho, como recorda com um sorriso de quem encontrava companhia nas ribeiras e nos trilhos do Sal.
Conta que o Natal era o ponto alto dessa infância solitária, graças a uma irmã que o inundava de brinquedos, transformando-o no “único” destinatário de todos os mimos da casa.
Essa fase, no entanto, não foi isenta de sombras, uma vez que a marca da Guerra Colonial atravessou a família com a perda de um irmão na Guiné. Um episódio que Mirri recorda com a sobriedade de quem era apenas uma criança na altura, mas que compreende o peso da história na sua árvore genealógica.
Da escola primária feita em casa, através de exames, até à transição para o externato, a sua juventude foi uma linha recta de “casa e escola”, até que a música e o trabalho o chamaram precocemente.
Foi essa infância de brincadeiras solitárias e liberdade nas ribeiras que forjou o homem que hoje prefere o sossego do escritório e o calor do seio familiar a qualquer grande agitação social.
Uma das passagens mais curiosas da sua juventude remonta ao serviço militar. Após iniciar a vida laboral como DJ na discoteca do Hotel Morabeza, aos 16 anos, Mirri apresentou-se para a tropa aos 18, apesar de ter pedido isenção, pedido esse que tinha sido deferido.
Conta que não devia ter ido. Um ano depois, ao mexer numa pasta no quartel, encontrou o seu requerimento deferido com isenção.
“Mas foi uma experiência fantástica para a minha formação pessoal”, realçou.
Falar da juventude de Mirri Lobo é também tocar inevitavelmente no campo do afecto.
Com a frontalidade que o caracteriza, o cantor não foge à pergunta sobre o seu passado de “conquistador”, mas responde com a elegância de quem sabe guardar segredos.
“Tive algumas namoradas, claro que tive. E lembro-me de todas”, confessa, deixando no ar o mistério. Apesar de admitir que, na juventude, o estilo de vida era de “muita paródia” e convívio no Sal, Mirri recusa o rótulo de bon vivant.
O homem que hoje vemos é um “caseiro” convicto, dedicado à família e aos seus projectos.
Casado há mais de 43 anos, o artista não hesita em atribuir o sucesso da relação à capacidade de cedência e adaptação.
“Tem de haver cedência, adaptação e, sobretudo, amor”, observou, revelando com um sorriso um detalhe que moldou a dinâmica do casal: a sua esposa é mais velha do que ele e é ela quem mantém o “leme” da organização doméstica.
“Ela não me deixa ser desarrumado”, confessa o artista, admitindo que, embora tente ser organizado, conta com o olhar atento da mulher para não deixar nada para trás.
Esta cumplicidade, temperada pela maturidade dela, parece ser o ingrediente secreto que permitiu ao casal criar uma família sólida, com dois filhos já na casa dos 40 anos, que hoje trabalham lado a lado com o pai na empresa Milota.
Para Mirri, que teve o seu primeiro filho aos 17 anos — um “acidente de percurso” que hoje descreve como uma joia de 48 anos —, o casamento não é um sacrifício, mas uma construção diária.
Num mundo de relações efémeras, o cantor de “Caldeira Preta” prova que, no amor como na agricultura, é preciso paciência e a parceria certa para colher os melhores frutos.
Sobre loucuras por amor ou paixões proibidas, Mirri prefere o silêncio estratégico, mas deixa uma lição de maturidade. Aos 65 anos, a caminho dos 66, diz que a vida lhe ensinou a filtrar.
“Aprendi a escolher as pessoas com quem me relacionar e a pôr de parte as que não trazem mais-valia”, afirmou.
Embora muitos o rotulem de “arrogante” ou “antipático”, Mirri desmistifica essa imagem com tranquilidade.
“Sou apenas distraído, um bocadinho aéreo. Quem me conhece diz: afinal, és um gajo porreiro”, conta.
Se no palco ele é emoção, na vida real Mirri é pragmatismo.
Há 25 anos, fundou com a irmã a Milota, uma empresa agrícola que é hoje referência em Cabo Verde.
O que começou com a produção massiva de tomate, chegando às 300 toneladas por ano, evoluiu para um catálogo diversificado de 13 produtos, da rúcula ao morango, abastecendo hotéis e o mercado local.
A resiliência de Mirri foi testada em 2009, quando uma praga quase dizimou a empresa.
“Tive de mandar metade dos funcionários para casa. Foi complicado, mas demos a volta.”
Voltando à música, surpreendentemente Mirri Lobo, para quem cantar é uma forma de libertação, não encara a música como ganha-pão, mas como um “hobby de luxo”. Para gravar ou cantar uma música, precisa de haver “amor à primeira audição”.
“Cantar ‘Caldeira Preta’ é como se a música fosse minha”, explicou, sublinhando que, para ele, o palco não é lugar de representação, mas de transmissão de estado de espírito.
Diz o que pensa “olhando nos olhos”, detesta o cinismo e aprendeu a dizer “não”.
Com a serenidade de quem já pesou 96 quilos e hoje se sente bem com 83, Mirri Lobo continua a caminhar — ou melhor, a fazer ginástica — focado no futuro da sua empresa e na verdade das suas canções.
Entretanto, se pensa que a única coisa que Mirri Lobo tempera é a voz para cantar uma morna, desengane-se. O homem que gere toneladas de produção agrícola na Milota assume, com honestidade refrescante, que as suas competências culinárias são… selectivas.
“Eu não sei cozinhar”, confessa entre risos. Mas logo lança o desafio: “Faço uma omelete de fazer inveja a qualquer chef. Estou a falar a sério”.
A confiança é tanta que garante ter sido ele o instrutor da própria esposa na arte de bater os ovos e acertar o ponto da frigideira.
No seu “repertório” gastronómico, o menu é curto, mas infalível: omelete, ovos estrelados e um esparguete de atum que descreve como “uma coisa louca”.
É o kit de sobrevivência de um homem que, embora lide diariamente com ingredientes frescos da terra, prefere a simplicidade no prato.
A relação com a comida, porém, sofreu um “acidente de percurso” recente. O homem que confessa ser apaixonado por doces viu-se obrigado a travar o passo devido à diabetes tipo 2.
“Eu pesava 96 quilos e desci até aos 83”, conta, revelando que a disciplina que aplica na empresa teve de passar também para o garfo.
Hoje, entre caminhadas, que troca de bom grado pela ginástica e o controlo da medicação, Mirri mantém o equilíbrio, sem nunca perder o gosto pelas coisas boas da vida.
Longe dos holofotes e perto da terra, Mirri Lobo prova que o seu maior sucesso não é um disco de ouro, mas a liberdade de ser, aos 65 anos, exactamente o mesmo homem que começou como DJ no Sal — apenas mais sofisticado.
SC/JMV
Inforpress/Fim
Partilhar