Entrevista: Investigadores auxiliam Governo de Boston no uso da língua cabo-verdiana para comunicar com a população

05-03-2024 1:14

Mindelo, 04  Mar(Inforpress) - O Cabo Verdean Center for Applied Research, organização voltada para a pesquisa da língua cabo-verdiana, tem auxiliado o Governo da cidade de Boston, nos Estados Unidos da América, no uso do crioulo  para comunicar com a população.

Esta informação foi avançadaà Inforpress pelo presidente do Cabo Verdean Center for Applied Research (Centro cabo-verdiano de pesquisa aplicada) , Abel Djassi Amado, um dos cinco membros dessa rede de académicos e investigadores descendentes de cabo-verdianos e interessados no estudo da língua cabo-verdiana em Boston, Massachusetts.

“Temos trabalhado com eles, com o gabinete de relações públicas e com a comunidade. Eles estão a tentar, pelo menos, colocar as informações mais importantes em várias línguas que são usadas na cidade, inclusive a língua cabo-verdiana. E estamos a trabalhar com eles no sentido de termos uma tradução a sério e que faz sentido sobre as mensagens que a cidade quer transmitir à população, em particular para a comunidade cabo-verdiana”, afirmou.

Segundo o professor, esse grupo de investigadores trabalha no estudo e promoção da língua cabo-verdiana no estado de Massachusetts, em particular na cidade de Boston, e o uso da língua pelo governo local tem trazido um conjunto de vantagens para a própria língua cabo-verdiana, principalmente porque permite uma “visibilidade sociopolítica da comunidade”.

“Quando vemos a língua cabo-verdiana a ser usada pela cidade isso traz uma autoestima à nossa comunidade. Mas, não só traz autoestima como permite à nossa própria comunidade ficar a saber o que é que está a passar na cidade. Uma informação na tua língua tem muito mais alcance do que uma informação em outra língua”, clarificou.

Conforme lembrou, na cidade de Boston existem muitos cabo-verdianos que não têm o domínio completo do inglês e quando recebem as informações na própria língua é mais fácil para eles processarem e agirem em relação à mesma.

“Isso acontece aqui ao contrário do que se passa em Cabo Verde onde, infelizmente, não temos grande uso da língua cabo-verdiana para transmitir informações básicas para a população. Raras vezes usam a língua cabo-verdiana. Aqui, estamos a apostar que cada vez mais cidades cabo-verdianas, e estamos a começar com Boston, passem a usar a nossa língua como uma forma de diminuir o abismo entre o governo local e as comunidades”, argumentou, referindo que a Cabo Verdean Center for Applied Research dá uma assistência para que a tradução da mensagem do inglês para o crioulo seja fiel.

“Por várias vezes, tanto a cidade como o sistema de educação pública de Boston nos enviam documentos para certificarmos que a tradução é fiel e que respeita as regras do alfabeto cabo-verdiano. Seguimos essas regras porque vemos que é mais coeso, mais coerente e mais lógico. E então fazemos questão de ter um sistema estandardizado de comunicação para a população. Às vezes somos nós que traduzimos e outras vezes eles enviam as publicações traduzidas por outras pessoas para conferirmos se a tradução está fiel”, adiantou.

Abel Djassi Amado explicou que, particularmente, durante a pandemia da covid-19 usou-se muito a língua cabo-verdiana, de entre outras línguas, tendo em conta que o momento era crítico e “era importante passar informações de uma forma completa, e ir directo ao assunto, para as pessoas entenderem o que é a pandemia, como preveni-la e evitá-la”.

Paralelamente a esse trabalho com o Governo de Boston, avançou, os membros dessa organização têm colaborado com o sistema de educação no desenvolvimento de um currículo bilingue, na língua cabo-verdiana e no inglês, para ser usado com estudantes de origem cabo-verdiana, desde o pré-primário ao liceu.

Também, acrescentou, têm trabalhado com um conjunto de outros académicos no sentido de dar a conhecer “de uma forma científica e objectiva” o que tem sido a língua cabo-verdiana nos Estados Unidos da América.

“Enquanto organização, já participamos num conjunto de publicações incluindo recentemente em que foi publicado um livro para a prestigiada Oxford University Press no qual temos um capítulo em que discutimos, de uma forma objectiva e científica, o ensino bilingue da língua cabo-verdiana no estado de Massachussets. Temos outras duas publicações que deverão sair em breve, uma das quais editada por um prestigiado professor e pesquisador do ensino bilingue, um pesquisador   que ficou a saber do nosso trabalho e o convidamos para partilhar a nossa pesquisa”, informou.
Uma terceira dimensão dessa rede é o desenvolvimento de um conjunto de actividades para promover a língua e a cultura cabo-verdiana, com palestras, ciclos de conferências, e minicongressos, em parceria com outras organizações, onde diferentes aspectos da língua e da cultura cabo-verdiana têm sido abordados.

Segundo o presidente da  Cabo Verdean Center for Applied Research, um dos objectivos desta rede de pesquisa é o estudo objectivo , claro e científico da língua cabo-verdiana, porque permite eliminar um conjunto de mitos ligados à essa língua.

“Trabalhamos exactamente para eliminar os mitos do tipo que a língua cabo-verdiana não tem valor e nós mostramos ao contrário. Mostramos um conjunto de vantagens que traz, sobretudo um conhecimento profundo.

Um outro mito muito comum é que muitas pessoas perguntam para quê precisamos estudar a língua cabo-verdiana se toda a gente fala o crioulo. Para mim é uma pergunta que não tem cabimento porque as grandes línguas, com maior número de falantes, têm sempre estudos profundos sobre elas”, arrematou, lembrando que apesar de o inglês ser a primeira língua, qualquer universidade que tenha o ensino do inglês tem um departamento cujo objectivo é aprofundar estudo científico dessa língua.

CD/JMV
Inforpress/Fim 

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