**** Por Keila Antunes, da Agência Inforpress ***
São Filipe, 28 Abr (Inforpress) – A tradição do “Pilon”, integrada nas comemorações do Dia do Município e da Bandeira de São Filipe, voltou hoje a mobilizar munícipes e emigrantes na ilha do Fogo, num ritual ancestral que conjuga gastronomia, música e identidade comunitária.
Mais do que o simples acto de pilar milho, o pilão afirma-se como um dos símbolos maiores da vivência cultural foguense.
Entre o compasso ritmado dos tambores, cânticos tradicionais e momentos de improviso, a prática transforma-se numa manifestação colectiva onde trabalho, fé e celebração se entrelaçam.
Com 30 anos de dedicação às festividades, Gabriela Vieira, chefe de cozinha da Casa da Bandeira, garantiu à Inforpress que o dia 01 de Maio representa “um dia grande”, marcado pelo reencontro entre familiares, amigos e conhecidos que regressam à terra natal para celebrar.
“Servimos guisados de cabra, vaca, porco, cabrito, bacalhau e peixe, com diferentes tipos de pratos. É um trabalho cansativo até chegar às refeições, mas quando é feito com amor e boa vontade, tudo corre bem”, afirmou, sublinhando que as portas estão abertas a todos os munícipes da ilha do Fogo que queiram participar na festa.
Ao contrário de outras celebrações concentradas apenas no chamado “dia grande”, as bandeiras do Fogo distinguem-se por uma preparação prolongada, com especial enfoque na confecção do xerém, prato tradicional à base de milho pilado, cuja preparação se estende por vários dias.
O processo culmina no ritual do pilão, prática ancestral que alia esforço físico à expressão cultural, musical e comunitária, constituindo um dos momentos mais emblemáticos das festividades.
Figura incontornável destas celebrações é Valdimir Dias, de 89 anos, tamboreiro principal da festa da Bandeira de São Filipe.
Em declarações à Inforpress, recordou que iniciou o seu percurso aos 19 anos, incentivado por Alexandre Andrade, conhecido por “Tchitchite”, primeiro tamboreiro do grupo “Sete Estrelas”.
Em 1956, foi apresentado como sucessor ao então presidente da Câmara Municipal, João Brito, assumindo desde então a responsabilidade de preservar e transmitir a tradição.
Ao longo das décadas, formou diversos jovens e transformou a própria residência numa autêntica casa de cultura, dedicada ao ensino dos tambores e ao acolhimento de visitantes e turistas.
Levou ainda a cultura da ilha do Fogo a vários países, entre os quais Holanda, Alemanha, Bélgica, Suíça, Áustria e Portugal, incluindo Coimbra.
Em 2026, completará 70 anos como tamboreiro à frente da bandeirona de Campanas Baixo, liderando as bandeiras da ilha.
“O programa de São Filipe não muda. É o mesmo desde 1917, quando o grupo Estrela do Fogo desenterrou a bandeira. Esse programa mantém-se todos os anos”, frisou, acrescentando que domina 15 letras tradicionais, cada uma com toque próprio para os diferentes momentos da celebração.
Valdimir Dias vincou ainda a forte presença de emigrantes nas festividades, considerando ser “uma grande honra” receber os filhos da terra que regressam para manter viva a tradição.
As comemorações do Dia do Município e da Bandeira continuam a decorrer em São Filipe, reafirmando o “Pilon” como um dos pilares identitários mais expressivos da ilha do Fogo, onde tradição, memória e comunidade se encontram e se renovam.
Ao pôr do sol, o céu enche-se do estrondo dos foguetes que rasgam o silêncio e anunciam a força de um ritual perpetuado ao longo de décadas, reunindo, ano após ano, munícipes e emigrantes que preservam e honram esta herança cultural.
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