Portugal: Investigador fala em desafios na preservação do crioulo como língua materna em Cabo Verde (c/áudio)

21-02-2024 12:49

Lisboa, 21 Fev (Inforpress) – O linguista e investigador alemão Hans-Peter Heilmair apontou os desafios enfrentados na preservação do crioulo como língua materna em Cabo Verde e indicou as iniciativas necessárias para promover seu reconhecimento e desenvolvimento contínuo.

Em declarações à Inforpress, em Lisboa, no âmbito do Dia Internacional da Língua Materna, hoje assinalado, Peter destacou a importância de integrar o crioulo no sistema educacional do país desde as etapas iniciais da escolarização.

O investigador enfatizou a necessidade, não apenas de ensinar a disciplina Crioulo, mas também de permitir que o ensino seja conduzido na própria língua crioula, uma abordagem que, segundo ele, reduziria os constrangimentos enfrentados por alunos e professores ao lidar exclusivamente com o português.

“Foi introduzido a disciplina Crioulo no 10º ano, agora está no 11º ano, mas não é só isso. Onde se deve a atacar é logo no início da escolarização, ensinado matérias em crioulo, mas também ensinar em crioulo para tirar todo esse constrangimento que existe junto dos alunos, e até dos professores, quando tudo tem que ser em português”, explicou.

Neste sentido, o linguista partilhou os objectivos do projecto bilíngue liderado por sua colega Ana Josefa, que demonstrou os benefícios de permitir que os alunos se expressem em crioulo, “aumentando sua autoestima e facilitando o aprendizado”, mas lamentou a falta de continuidade desse projecto devido à escassez de recursos financeiros.

“Isto é um trabalho que implica a criação de materiais didácticos e dinheiro, ou seja, um investimento que depois vale a pena, porque terá retorno, não nos primeiros dias, é claro, até porque o crioulo faz parte da identidade cultural e da coesão social das pessoas (…). Por isso que acho que dizer que temos que impedir que haja mais descriolização é mesmo defender a identidade cabo-verdiana e a coesão social”, defendeu.

Em relação à oficialização do crioulo, Peter argumentou que isso abriria novas oportunidades de desenvolvimento socioeconómico e cultural para Cabo Verde, tendo enfatizado que a oficialização não implicaria a exclusão do português, mas sim na garantia de que ambas as línguas fossem valorizadas e ensinadas de forma sistemática.

“Isso é muito complicado porque nós temos que primeiro chegar à conclusão qual vai ser o crioulo padrão, por causa das variantes. É uma questão que tem que ser atacada. Houve uma primeira tentativa, pouco depois da independência, durante o Colóquio do Mindelo, em 1979, em que se decidiu que o crioulo padrão seria a variedade de Santiago, o que causou celeuma (…). Temos que passar por um período em que haja pelo menos duas variedades principais, para satisfazermos o barlavento e o sotavento e todas as contingências culturais”, considerou.

Para o investigador, neste momento as pessoas deslocam-se, por exemplo, de São Vicente e outras ilhas, para a ilha de Santiago, devido à necessidade, resultando, lentamente, em um “intercâmbio linguístico entre as variedades, sem menosprezar a identidade muito forte, dessas variedades”.

Hans Peter, que há dois anos lançou o livro “Crioulo e Português em Cabo Verde – Um repto entre diluição e afirmação”, comparou a situação de Cabo Verde ao processo de uniformização, de forma rápida, da língua tétum, falada e escrita, em Timor-Leste.

Por isso, destacou a necessidade de se avançar com medidas concretas para promover o crioulo sem desconsiderar a importância do português como língua de comunicação internacional.

O Dia Internacional da Língua Materna é uma comemoração mundial anual realizada a 21 de Fevereiro, para promover a conscientização sobre a diversidade linguística e cultural e para promover o multilinguismo.

DR/ZS

Inforpress/Fim

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