REPORTAGEM/Diáspora: Comunidade cabo-verdiana em São Tomé e Príncipe pede maior inclusão e ligação ao país

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REPORTAGEM/Diáspora: Comunidade cabo-verdiana em São Tomé e Príncipe pede maior inclusão e ligação ao país
14/05/26 - 02:30 am

*** Por: José Maria Varela, da Inforpress ***

Santo António, Região Autónoma do Príncipe, 14 Mai (Inforpress) – A comunidade cabo-verdiana residente em São Tomé e Príncipe defende uma maior inclusão no processo político nacional e o reforço dos mecanismos de ligação ao país, no âmbito das eleições legislativas de 17 de Maio.

Em declarações à Inforpress, representantes da diáspora afirmaram que, apesar do interesse em participar activamente na vida política de Cabo Verde, persistem constrangimentos relacionados com o acesso à informação, o recenseamento eleitoral e a mobilidade para comparecer às mesas de voto no dia das eleições.

Entre as vozes ouvidas está Natália Neves Semedo Pereira Lopes, de 71 anos, conhecida por Nhazinha, que chegou a São Tomé em 1970 e trabalhou nas roças de cacau, tendo exercido várias funções na Roça Infante e na Nova Cuba, até se reformar por motivo de doença.

Actualmente reformada, mantém-se activa como revendedora de pão no centro de Santo António, auferindo cerca de 1.400 dobras (cerca de 50 euros), valor que complementa a pensão social de 400 mil dobras (63 euros) atribuída pelo Estado cabo-verdiano.

“É o que me ajuda no dia a dia. Louvado seja o Governo cabo-verdiano”, afirmou, sublinhando que pretende votar nas próximas legislativas. 

“Agradeço muito a Cabo Verde por este gesto solidário. É o que me ajuda no dia a dia. Louvado seja o Governo cabo-verdiano”, disse.

Sobre o processo eleitoral em curso, afirmou encará-lo com grande expectativa.

“Já estou pronta para exercer o meu direito de voto, dever cívico que cumpro religiosamente em todas as eleições em que a diáspora pode participar”, referiu.

Ouvida também pela Inforpress, a cabo-verdiana Lourença Sanches, de 60 anos, residente há vários anos na ilha do Príncipe, afirmou acompanhar com expectativa as eleições legislativas de 17 de Maio em Cabo Verde, esperando que o futuro Governo adopte medidas para melhorar as condições de vida da população.

Natural de Cabo Verde, mais concretamente da localidade de Principal, no município de São Miguel, interior da ilha de Santiago, de onde partiu em 1970, com quatro anos, Lourença Sanches fixou residência primeiramente na Roça Agostinho Neto, antiga Roça Rio do Ouro, antes de se mudar para a ilha do Príncipe, integrando uma significativa comunidade cabo-verdiana residente naquela ilha.

Em declarações à Inforpress, disse esperar que o executivo resultante das eleições legislativas de 17 de Maio aposte, sobretudo, no emprego, na melhoria do sistema de saúde e no apoio às famílias mais vulneráveis.

“Esperamos que o novo Governo continue a trabalhar para que os jovens tenham emprego e para melhorar as condições das famílias. Quem está fora também acompanha com atenção aquilo que acontece em Cabo Verde”, afirmou.

Segundo a emigrante, a diáspora cabo-verdiana mantém uma ligação permanente ao país de origem, acompanhando os principais acontecimentos políticos e sociais.

Lourença Sanches considerou ainda que as eleições representam “um momento importante” para o futuro do país, defendendo maior atenção às dificuldades enfrentadas pela população, sobretudo ao nível do custo de vida.

Em São Tomé e Príncipe, estima-se que cerca de três mil cabo-verdianos e seus descendentes residam, actualmente, no arquipélago, embora o número possa ser superior, segundo as associações, devido à miscigenação e à integração ao longo de várias gerações.

Os cabo-verdianos ouvidos pela Inforpress disseram que a ligação aérea directa entre São Tomé e Príncipe e Cabo Verde teria um impacto significativo para a comunidade residente no arquipélago são-tomense, considerada uma das mais antigas e numerosas diásporas cabo-verdianas em África.

“O principal efeito seria a aproximação entre famílias e comunidades. Actualmente, viajar entre os dois países implica escalas longas, frequentemente via Lisboa ou Luanda, aumentando custos e tempo de deslocação”, considerou o presidente da Associação Djunta Mó.

Lembrou que os próprios Presidentes dos dois países reconheceram, recentemente, que a ausência de voos directos constitui “o maior constrangimento” nas relações bilaterais.

Para os cabo-verdianos residentes em São Tomé e Príncipe, essa rota facilitaria visitas familiares mais frequentes, deslocações para tratamento médico, estudos ou negócios.

“A ligação permitiria a participação em eventos culturais e religiosos, transporte de mercadorias e pequenas encomendas e maior mobilidade para estudantes e trabalhadores”, acrescentou.

A ligação directa, prosseguiu, teria, igualmente, impacto económico.

“Muitos membros da comunidade cabo-verdiana desenvolvem actividades no comércio, agricultura, serviços e turismo. Uma rota regular poderia estimular trocas comerciais, circulação de investimentos e o turismo entre os dois arquipélagos”, reforçou.

Em conclusão, o dirigente associativo salientou que a existência de voos directos poderia, ainda, incentivar iniciativas já em preparação, como a criação de um centro cultural cabo-verdiano e de projectos educativos dirigidos à diáspora em São Tomé e Príncipe.

JMV/HF

Inforpress/Fim

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