
Cidade da Praia, 03 Fev (Inforpress) – O pastor da Igreja do Nazareno, David Araújo, hoje, aos 63 anos, olha para trás com a serenidade de quem venceu desertos, da solidão em São Nicolau à depressão, para se tornar um dos pilares espirituais de Cabo Verde.
O homem que preferiu os bastidores às luzes do palco, mas cujo chamado o colocou na linha da frente da fé em Cabo Verde, abre as portas da sala de reunião na igreja no Platô para uma conversa íntima sobre as noites escuras da alma, a paixão pela justiça social e a convicção de que nenhum ser humano é irrecuperável.
Lá dentro, David Araújo, recebe a equipa da Inforpress com uma serenidade que desarma, mas por trás desta simplicidade, esconde-se uma jornada de resiliência, das noites solitárias em São Nicolau aos diagnósticos médicos que a sua fé desafiou.
Nascido em São Nicolau em 1962, na zona de Tchanzinha, naquelas casas do Estado, Emanuel David Simas Araújo, seu nome completo, oriundo de uma família muito pobre, revela-se, nesta entrevista, um ser generoso com uma história de vida que daria um livro.
Moldado pela disciplina de um pai enfermeiro e pela fé inabalável de uma mãe dedicada, despimo-lo do cargo para encontrar o homem que relaxa ao cuidar de seus peixes no aquário, valoriza a amizade dos tempos de liceu e acredita que o seu maior legado é a recuperação do ser humano.
A transição de um jovem introvertido em Lém-Ferreira para o líder da Igreja do Nazareno do Platô mostra que ele também teve momentos de dúvida e “pecados” engraçados, como não saber fritar um ovo.
A vocação foi uma semente plantada pela mãe, que orava individualmente por cada filho atrás de portas fechadas.
“Ela consagrou-me a Deus”, conta David Araújo, indicando que apesar de um breve desejo juvenil de seguir os primos para a Holanda em busca de uma vida melhor, o “chamado” falou mais alto, tendo pedido orientação divina através da oração do que devia ser a sua vida futura, uma vez que tinha planos pessoais.
“Chegou uma altura em que senti uma forte convicção em que eu devia fazer a vontade de Deus. Eu pedia a Deus que a sua vontade fosse feita na minha vida”, recordou, admitindo que foi a melhor coisa que lhe aconteceu.
Lembra-se que quando criança, reunia as irmãs e a vizinhança, colocava um pequeno banco à frente e punha-se a dirigir corinhos evangélicos, abria a bíblia e pregava, como se numa igreja estivessem.
“Deus me deu algo muito maior, muito melhor do que aquilo que eu tinha planejado para a minha própria vida”, manifestou.
Aos 18 anos, enquanto os jovens de São Vicente, onde foi estudar teologia, estranhavam aquele rapaz reservado na Praça Nova, David já sabia que o seu destino era o seminário. “Padre? Que desperdício!”, ouviu de uma jovem na altura, mas o tempo provou, conforme observou, que não houve desperdício, mas propósito.
Não teve muitas namoradas porque é um pouco reservado, mas acredita que as mulheres têm alguma atracção por esse tipo de pessoa.
“Mesmo ficando longe, algumas pessoas se aproximavam de mim, iam à minha casa e também na igreja. Apareceram muitas mulheres bonitas, mas tinha sempre algum receio de envolvimento. Lembro que vários jovens da minha idade tiveram relacionamentos até que resultaram em filhos, mas a minha postura evitou um bocado. Tive algumas paixões e aproximações… não direi muitas namoradas”, confessou.
De jovem introvertido que preferia o refúgio de casa, sintonizado na Voz da América ou na Rádio Nacional, sempre acompanhado por um livro, enquanto os colegas corriam na Praia Negra, David desabafa entre sorrisos, que não consegue dormir se os sapatos não estiverem alinhados, que a cozinha é um território onde ainda se sente um aprendiz, até um simples caldo de ovos lhe saiu mal, e admite também que não sabe dançar embora aprecie uma boa morna e funaná.
A sua juventude foi também diferente comparado com outros jovens da época, passando grande parte da sua vida dedicado à igreja.
“Era casa, igreja, escola. Eu era muito dentro da casa, os meus amigos iam ter comigo lá em casa que estava sempre cheia de pessoas”, conta o menino introvertido, que não era de muitos contactos fora da sua zona de conforto e que hoje se tornou homem de Deus.
Pela soma das ilhas por onde passou, define-se um homem de Cabo Verde, com a convicção de quem carrega a poeira de São Nicolau, as memórias do Fogo e a vivência de São Vicente e Santiago.
“Eu sou de Cabo Verde”, afirmou.
Embalado nas suas memórias, conta que aos 21 anos, recém-casado com Eunice, a única dona do seu coração e parceira de 40 anos de jornada David foi enviado como pastor para São Nicolau, e foi ali, na sua ilha natal, mas desconhecida, que viveu o seu “deserto”.
Sozinho durante meses, sem saber cozinhar, sobrevivendo a bolachas e sumo de pacote, dias difíceis, rejeição por parte de algumas congregações, muitas lutas para fazer a sua afirmação em são Nicolau, David chegou a colocar o papel na máquina de escrever para renunciar o ministério, mas nunca conseguiu escrever uma palavra.
Confessa que o que o segurou foi a voz de mentores como Roy Rang e o carinho de homens simples como Lourenço Soares, que lhe levava mandioca e profetizava o seu futuro.
Mas o teste mais difícil foi o da paternidade. Após diagnósticos médicos de que Eunice, a esposa, não poderia conceber, David travou uma batalha espiritual, deixando crescer a barba.
“Depois do casamento passamos cinco anos sem filhos. Então, sem solução humana, procuramos ajuda divina. E passei muito tempo em oração. Oração e jejum. Disse que só tiraria a barba quando Deus respondesse às minhas orações”, relatou.
E passaram vários meses e a resposta conforme conta, veio num momento de paz íntima, onde escutou: “tira a barba”, para pouco depois, a notícia impossível confirmar-se, numa clínica em Brockton, nos Estados Unidos da América, da doutora Odete Pinheiro, médica e teóloga, onde submeteram a algumas consultas.
“Recebi a informação na sala de espera. E foi com imensa alegria que recebemos a notícia”, revelou.
Hoje, as filhas Sharnian, a primogénita, e Samira são os testemunhos vivos de que ele serve ao “Deus do impossível”.
“E podíamos até ter mais filhos”, disse.
A vida lhe ensinou tantas coisas que não foge dos temas difíceis, falando também abertamente sobre a depressão que enfrentou, descrevendo o peso das cortinas fechadas e a perda do prazer de viver, mas Deus deu-lhe “ferramentas através da experiência”, para vencer noites escuras.
Entretanto, a tranquilidade do homem sério no púlpito que também já foi superintendente, desaparece perante a injustiça.
“É a única coisa que me tira do sério”, diz com firmeza.
Para ele, o desenvolvimento de Cabo Verde só será pleno quando houver uma repartição justa dos recursos e uma ligação real entre as ilhas, especialmente as mais isoladas como a sua São Nicolau.
Criado num lar onde homem não entrava na cozinha deixou marcas, e hoje, brinca que só cozinha para gatos ou cachorros, lembrando que a tentativa de fazer um caldo de ovos para a esposa que se encontrava doente resultou numa única colher provada e um sorriso de desculpas.
Na cozinha não sabe fazer rigorosamente nada, mas é um confesso apaixonado por bacalhau e cachupa rica.
Aos 63 anos, David Araújo não guarda mágoas, diz ter uma “memória selectiva” que apaga o negativo para dar lugar à esperança.
O seu legado não é feito de pedra, mas de pessoas, acredita na recuperação do ser humano e sonha com um Cabo Verde com menos desigualdade entre as ilhas.
Ao fim da conversa, o homem que prefere os bastidores às luzes do palco deixa uma lição clara, comentando que a vida é um aprendizado constante, onde até a depressão e a perda podem ser ferramentas para ajudar o próximo.
SC/HF
Inforpress/Fim
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