
***Por Sandra Custódio, da Agência Inforpress***
Cidade da Praia, 10 Jun (Inforpress) – Por detrás do antropólogo e intelectual público, que polemiza nos jornais, há um homem moldado por uma avó lavadeira, que assume as rédeas do lar e corre contra o tempo, com medo da penumbra e da solidão.
Falamos de Manuel da Cruz Brito Semedo, seu nome completo, o miúdo de Chã de Cemitério, São Vicente, nascido a 01 de Maio de 1952, que não sabia jogar futebol, mas teve o destino moldado por uma bola.
O menino cresceu e, de jovem protestante “esticadinho” com a Bíblia debaixo do braço, transformou-se em pastor revolucionário no interior de Santiago, largou tudo por uma paixão em Moçambique e, finalmente, consagrou-se como o intelectual de topo doutorado aos 51 anos.
Em São Vicente, na infância passada em Chã de Cemitério, era o Lalela ou o Manel Piknin, para distinguir do Manel Grande, que já habitava a casa.
Mais tarde, para a malta da Praia, virou Manecas e, hoje, confessa com um sorriso bem-humorado que o apelido composto, Brito Semedo - nome de capa e de escritor -, soa “chique”.
Nascido em 1952, numa casa sem tecto masculino, cresceu entre duas mulheres, sendo a avó e a mãe, e um tio, em que a vida era uma costura de dificuldades, mas sem a consciência da pobreza.
A avó lavava e engomava para fora, a mãe era criada, enquanto o pequeno Lalela tomava conta da irmã mais nova e vendia ‘sucrinha’, um doce confeccionado pela avó.
O homem, hoje formado em Antropologia, que assume nunca ter tido jeito para o futebol, teve o destino completamente virado por causa de uma bola.
Conta que, em 1962, o Boa Vista da Praia foi a São Vicente jogar a final do campeonato nacional, na comitiva vinha um antigo polícia, um “badio da Praia”.
Era o pai que Lalela nunca conhecera. Desse encontro inesperado nasceu a mudança, tendo o miúdo viajado para a Praia para passar férias e fica contrariado, durante dois anos.
Um belo dia, o Mindelense vai jogar à Praia, o tio vai na equipa e visita o sobrinho, tendo o jovem Lalela, entende-se Brito Semedo, desatado a chorar “como um bezerro desmamado”, com saudades do Mindelo, jurando regressar para nunca mais voltar.
Voltou, mas a semente da mudança já tinha germinado.
Foi no exílio forçado da Praia que se aproximou da Igreja Adventista, a única que o aceitou sem documentos na hora da matrícula escolar.
De regresso a São Vicente, aos 13 anos, abraçou a Igreja do Nazareno, onde rompeu com as brincadeiras de rua, passou a ser o rapaz que caminhava “todo esticadinho”, com a Bíblia debaixo do braço, pelas ruas de Chã de Cemitério.
O meio olhava-o de soslaio, por ser protestante, na época, rotulado como “burro e besta”, mas admirava-lhe o aprumo.
Segundo Brito Semedo, a igreja foi o seu passaporte para o conhecimento, uma vez que, foi lá que encontrou o estímulo para a leitura e os mentores que lhe pagaram as explicações e emprestaram os livros.
Aos 17 anos, com apenas a 4.ª classe concluída, teve de pedir um documento de emancipação para se tornar trabalhador-estudante.
Entretanto, seduzido pela oratória do pastor Jorge de Barros, decidiu que também queria ser pastor.
Casou-se cedo, aos 22 anos, ainda no seminário, cumprindo a regra rigorosa da igreja contra o “jugo desigual” (casar com alguém de fora da fé), tendo sido pai aos 23, em Santa Catarina, onde foi colocado como pastor.
Durante cinco anos, viveu no interior de Santiago os anos quentes e complexos do pós-independência de 1975, num ambiente de forte turbulência política, conforme lembra-se, onde um colega lhe vaticinou “ou sais herói ou sais canela quebrada”.
Embalado na sua narrativa, prossegue, que para ocupar o tempo e saciar a ambição, retomou os estudos à revelia da liderança da igreja, que exigia dedicação exclusiva de 24 horas ao púlpito.
Comprava livros na Praia, estudava sozinho em Santa Catarina e vinha fazer exames como voluntário, sentando-se ao lado de jovens de 17 anos quando ele já era pai de família.
Falava bem e dominava o português, e quando a professora Edeltrudes Pires Neves partiu para o Brasil, o Estado não tinha quem a substituísse no ciclo preparatório, alguém sugeriu o pastor, isto é, Brito Semedo.
Foi o início do fim da sua rota eclesiástica e o começo da sua vida na docência e nos gabinetes do Estado, onde chegou a trabalhar com Pedro Pires e com o amigo de juventude, Renato Cardoso.
Quem vê o Brito Semedo nas tertúlias de sábado, a assinar crónicas quinzenais no Expresso das Ilhas, a comandar o programa cultural “Nos Terra, Nos Gente” na televisão ou a polemizar no seu blogue pessoal, não imagina a muralha que ele ergueu à volta de si mesmo.
“Eu acho que tudo isto que eu faço… muito barulho, muito espalhafato, é para me esconder. Só na intimidade é que me revelo. Eu não falo de mim. Aprendi a defender-me”, exteriorizou, deixando visível que essa armadura foi forjada por outro ensinamento pragmático da avó, Ma Liza.
“Quando tiveres problemas ou dificuldades, não digas nada a ninguém. A outra pessoa não te vai ajudar e é apenas mais uma pessoa que fica a saber das tuas fraquezas”, conta, lembrando a sabedoria da Ma Liza.
Por isso, Brito Semedo é um homem que não pede ajuda nem leva desaforo para casa, e essa independência feroz fez dele um “livre-pensador”, rótulo que, segundo o próprio, justifica o facto, provavelmente, de nunca ter sido convidado para cargos de gestão activa no Estado.
“As pessoas não saberiam como eu iria agir”, supõe Brito Semedo que chegou a ser candidato pelo partido Livre em Portugal, numa afirmação da sua própria soltura intelectual.
Defende a crioulidade como um processo atlântico, rompendo com as narrativas tradicionais da reafricanização, o que lhe vale, conforme anota, pedradas virtuais nas redes sociais.
“Eu baixo a cabeça e a pedra passa”, atira, desvalorizando.
Perguntado sobre o que o tira verdadeiramente do sério, respondeu que a falta de honestidade e, acima de tudo, a subvalorização.
“Se as pessoas me subestimam, é aí que eu perco a cabeça. Tenho uma necessidade permanente de provar coisas a mim próprio”, acentuou o antropólogo que aos 73 anos, vive a rotina que escolheu nos seus aposentos.
De dia, diz ser “como um passarinho”, saltando de esquina em esquina, conversando com as pessoas na Praia, testando ideias.
Já depois do almoço, o corpo exige a sesta, enquanto a escrita e o estudo ficam reservados para o silêncio da noite e as madrugadas.
Embora nunca tenha aprendido a cozinhar por causa de uma educação antiga onde rapazinho não entrava na cozinha, assumiu as rédeas do lar e, depois de passar cinco anos sozinho com os filhos rapazes após o primeiro divórcio, refinou por completo o gosto pela logística doméstica.
Hoje, casado há três anos com a sua terceira esposa, uma relação que recebeu a bênção da carismática Tia Tá, de 95 anos, pouco antes de falecer, ele assume-se como o verdadeiro “gestor do lar” da relação.
Para dar um exemplo, Brito Semedo conta que quando viaja a São Vicente, regressa com a mala carregada de produtos biológicos de Santo Antão, desde puré de inhame, puré de batata-doce e polpas de fruta congeladas, entre outras coisas.
“Eu não faço os pratos, eu sou mais de gestão. Eu sei o que gosto e mando fazer”, diverte-se.
Num salto da cozinha para o universo literário, por trás dos 17 livros publicados e da obsessão em concluir a actual trilogia sobre a história das ideias em Cabo Verde, há um combate existencialista que se trava quando as luzes se apagam, momento em que Brito Semedo confessa dois medos viscerais: a solidão da idade e o esquecimento.
Viu partir recentemente o seu tio, a sua grande referência, e um amigo de infância, ambos na solidão das suas casas, pelo que assusta-o a ideia de ficar só, mas o pânico maior, exterioriza, é o que aconteceu ao poeta Osvaldo Osório, que viveu anos na escuridão.
“Tenho medo de ficar cego e de perder a memória. Eu acho que esta obsessão de escrever e de registar é um bocado por causa disso. Enquanto eu me lembrar, enquanto eu tiver a vista...”, manifestou o antropólogo, para quem escrever é uma tentativa de ancorar a sua existência no tempo, tendo como maior aspiração na vida vir a ser, depois de morto, nome de rua.
Esse combate contra o esquecimento desagua na urgência de deixar um legado vivo, uma marca profunda nas gerações vindouras que transforme os seus anos de investigação num património colectivo, provando que a sua verdadeira aspiração não é a vaidade do presente, mas sim a certeza de que o seu contributo literário e humano ficará gravado na história da sua terra.
Com uma vitalidade invejável, o escritor já avisou os amigos, entre risos, que a 01 de Maio de 2052, uma quarta-feira, haverá festa em São Vicente para celebrar o seu centenário.
Até lá, a meta é continuar a multiplicar o dom da palavra e escrever até aos 90 anos.
Depois disso, brinca, “já não direi coisa com coisa”.
SC/ZS
Inforpress/Fim
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