Lisboa, 30 Ago (Inforpress) – A organização internacional Iniciativa Global alertou hoje para a possibilidade de a Guiné-Bissau estar a entrar num período de “grande agitação”, que associa ao crime organizado e ao processo eleitoral que se avizinha no país africano.
A organização da sociedade civil com sede em Genebra, na Suíça, divulgou uma análise aos últimos acontecimentos na Guiné-Bissau, um país que referencia associado ao narcotráfico e ao crime organizado, que é o foco de trabalho da Iniciativa Global.
“Com um mercado de cocaína em expansão e campanhas eleitorais dispendiosas nos próximos meses, que precisam de financiamento, a Guiné-Bissau parece estar a entrar novamente num período de significativa turbulência”, considera a organização.
A Guiné-Bissau tem agendadas, para 23 de novembro, eleições gerais, presidenciais e legislativas, precedidas nas últimas semanas por vários episódios assinalados pela organização internacional de combate ao crime organizado.
A Iniciativa Global aponta as recentes substituições do Procurador-geral da República e do primeiro-ministro e “crescentes repressões à liberdade de imprensa no país”.
O Governo guineense expulsou, a 15 de agosto, toda a comunicação social portuguesa, nomeadamente a Lusa, RTP e RDP, e suspendeu as emissões com efeitos imediatos.
O primeiro-ministro, Rui Duarte Barros, que liderou o governo de iniciativa presidencial desde a dissolução do parlamento, em dezembro de 2023, foi substituído por Braima Camará, que até há pouco tempo contestava o regime do Presidente Umaro Sissoco Embaló.
O chefe de Estado exonerou o procurador-geral da República, Bacari Biai, e nomeou para o cargo Fernando Gomes, que já tinha desempenhado esta função.
As remodelações em altos cargos governativos, refere a Iniciativa Global, ocorreram semanas depois de um tiroteio e um assassínio, alegadamente relacionados com o tráfico de droga e contornos “do tipo de violência que foi visto no comércio de cocaína da Guiné-Bissau no passado”.
Em julho, o corpo de um homem foi encontrado por pescadores nas margens do rio Mansoa, perto de Bissau, e que familiares identificarem como sendo membro da guarda presidencial.
A organização concluiu que o facto de o corpo ter sido encontrado revela que o homicídio “foi planeado para transmitir uma mensagem - ou que não havia sido cometido por profissionais”.
Na mesma época, correram rumores em Bissau de que um espanhol teria sido assassinado no arquipélago das Bijagós, o que, segundo a organização não corresponde à verdade.
De acordo com a análise divulgada, “um traficante de cocaína colombiano terá sido baleado na perna por um membro do exército da Guiné-Bissau em conexão com uma remessa de cocaína roubada dos colombianos por um guineense amplamente conhecido por ser um traficante de cocaína”.
“O colombiano ferido fugiu para a Espanha”, assegura a Iniciativa Global, acrescentando que pode ter sido o que alimentou “o boato de um espanhol morto”.
Sobre a possível ligação dos dois incidentes e o que prever, a Iniciativa Global remete para “a economia da cocaína intrinsecamente ligada à política” e explica que na história recente do país, os surtos de violência no tráfico estão "intimamente relacionados a momentos de instabilidade” política.
A organização refere que a “Guiné-Bissau tem sido uma engrenagem central no sistema internacional de tráfico de cocaína”, com episódios como os das remessas de cocaína que “apareceram nas praias do país e foram usadas para pintar edifícios por pescadores”.
A Iniciativa Global aponta que “quatro toneladas de cocaína são traficadas regularmente através da Guiné-Bissau” e refere a presença de colombianos no país apelidado de “narcoestado”.
A organização destaca, contudo, que “em contraste com as capitais da cocaína em outras partes do mundo, assassinatos e violência em geral, ligados ao comércio de cocaína, são incomuns em Bissau”.
“E nos poucos casos em que o comércio de cocaína desencadeou violência, ele tende a ser de natureza política – golpes ou assassinatos de figuras políticas de alto nível – contidos no pequeno círculo de atores políticos seniores que mais se beneficiam do lucrativo comércio, deixando os guineenses comuns intocados”, acrescenta.
Inforpress/Lusa
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