
Sal Rei, 13 Jan (Inforpress) – Cidadãos da Boa Vista veem o percurso democrático de Cabo Verde com gratidão e exigência, consideram a liberdade de expressão “o maior ganho”, mas a gestão ética e a descentralização dos investimentos surgem como os grandes desafios.
No dia em que Cabo Verde celebra o 35.º aniversário das primeiras eleições multipartidárias, a Inforpress registou opiniões de munícipes de diferentes gerações da ilha da Boa Vista, que revelam um sentimento de orgulho pelas conquistas de 1991, mas também críticas à gestão dos recursos públicos e “ao centralismo da capital”.
Se pudessem enviar uma mensagem aos cabo-verdianos que, em 1991, fizeram fila para votar pela primeira vez num sistema democrático, a resposta dos entrevistados varia entre a esperança renovada e aviso prático.
O ativista desportivo Emerson Rodrigues, 37 anos, diria a esses pioneiros que a democracia é uma "conquista valiosa", mas que hoje “corre o risco de ser barrada pela sede de poder".
Para a professora Filézia Évora, 41 anos, que lida diariamente com a juventude, a democracia assume aspectos pedagógicos, vê a liberdade não como um dom nato, mas como um exercício contínuo.
Afirmando que a liberdade é “uma aprendizagem e não algo instintivo", alertam para o facto de os jovens, em constante transformação, precisarem de oportunidades reais para saberem o que fazer com essa autonomia.
Mas essa aprendizagem parece enfrentar desafios entre as gerações.
O luso-descendente, Pedro Silva, 22 anos, e a estudante Geovana Gonçalves, 17 anos, coincidem na existência de uma “confusão entre liberdade e falta de limites”.
Para Pedro Silva, a liberdade de expressão tem sido confundida com "falta de respeito", visão partilhada por Geovana Gonçalves, que lamenta os comportamentos negativos devido à ausência de responsabilidade.
Quanto a inauguração do Monumento à Democracia e Liberdade na capital, orçado em 150 mil contos, que dominou as conversas do feriado, na Boa Vista, o investimento também gerou uma divergência entre o simbolismo histórico e a carência imediata.
Filézia Évora mais espiritual, citou que "nem só de pão viverá o homem", defendendo que os símbolos da liberdade têm direito a existir, desde que o Governo não esqueça que Cabo Verde tem nove ilhas habitadas, e que o investimento não pode ficar retido na cidade da Praia.
Para os mais jovens e para um ativismo local, a leitura foi de indignação, já que Pedro Silva classifica o gasto como uma "autêntica falta de respeito" face ao salário mínimo e falta de hospitais em todas as ilhas.
E Emerson Rodrigues reforçou que "a democracia celebra-se investindo nas pessoas”, e que “monumentos de pedra e luz não substituem hospitais equipados ou políticas de emprego".
Questionados sobre que lei gostariam de ver implementada hoje, os entrevistados revelam as lacunas que sentem no dia a dia da nação, focaram-se no civismo e na ética.
Filézia Évora propôs o limite de dois mandatos para ministros e autarcas para evitar "círculos viciosos" e
Emerson Rodrigues é a favor da transparência, e combate à corrupção.
Geovana Gonçalves defendeu “um ensino de qualidade obrigatório e sem discriminação”, e Pedro Silva focou-se no civismo e respeito ao espaço público, com leis mais severas contra quem coloca lixo nas ruas.
Trinta e cinco anos depois do primeiro voto de Liberdade e Democracia, os boa-vistenses deixam uma mensagem aos decisores de que já não se contentam apenas com uma democracia de direito ao voto.
E exigem, uma gestão ética dos recursos e descentralização que faça com que cada cidadão do país, sinta os benefícios da liberdade no prato, na saúde e no bolso.
MGL/AA
Inforpress/Fim
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