
***Por: José Maria Varela, da Agência Inforpress***
Lisboa, 25 Out (Inforpress) – O jurista, poeta e ensaísta José Luís Hopffer C. Almada defendeu a oficialização da língua cabo-verdiana, mesmo que, inicialmente, de forma simbólico-política e considerou urgente a sua introdução no sistema formal de ensino.
Em entrevista à Inforpress, o presidente do Conselho Executivo da Delegação da Associação da Língua Cabo-Verdiana em Portugal (DALMACV.PT) defendeu a oficialização plena da língua materna, em paridade jurídico-formal com a portuguesa, sublinhando que, mesmo que esta se concretize inicialmente do ponto de vista simbólico-político, deve ser mantido o preceituado no n.º 2 do artigo 9.º da Constituição da República.
A disposição constitucional determina que o Estado deve promover as condições para a oficialização da língua materna cabo-verdiana, em paridade com a língua portuguesa.
Para Hopffer C. Almada, a valorização da língua cabo-verdiana exige, igualmente, a sua introdução urgente no sistema formal de ensino, considerando que o debate sobre a matéria tem sido condicionado por posições que classificou como bairristas e por receios de uma alegada imposição da variante de Santiago às restantes variantes insulares.
O ensaísta rejeitou a ideia de que a oficialização do crioulo implique a exclusão do português da vida quotidiana dos cabo-verdianos, considerando que esses argumentos contribuem para perpetuar a actual situação de diglossia linguística.
Segundo explicou, esta realidade traduz-se num desequilíbrio entre as duas línguas, com o português a ocupar uma posição dominante nos domínios oficiais, no sistema de ensino e na transmissão de conhecimentos técnicos e científicos.
Hopffer C. Almada defendeu que o ensino da língua cabo-verdiana deve abranger as variantes dialectais de todas as ilhas, privilegiando, em cada uma, a variante dominante, enquanto não existir uma variante-padrão formalmente estabelecida.
Neste contexto, criticou a proposta de adopção do chamado pandialeto para a padronização da língua cabo-verdiana, associada ao Manual da Língua e da Cultura Cabo-Verdianas, concebido como material de apoio ao ensino no 10.º ano de escolaridade.
Segundo o responsável da DALMACV.PT, a proposta apresentava insuficiências linguísticas e pedagógicas e desconsiderava aspectos históricos da formação e disseminação da língua cabo-verdiana, nomeadamente, o papel da variante-matriz de Santiago e a importância dos falantes das variantes de Santiago, Fogo e Brava.
Hopffer C. Almada considerou que a actual fase de desenvolvimento do ensino deve privilegiar a didactização da língua, permitindo aos alunos compreender a unidade do idioma e a sua diversidade dialetal, em vez de avançar para uma padronização que, na sua perspectiva, ainda não reúne as condições necessárias.
Questionado sobre a evolução da promoção das línguas nacionais, o jurista afirmou que Cabo Verde continua «francamente atrasado» neste domínio, atribuindo essa situação às omissões do Estado e defendendo o cumprimento dos princípios constitucionais e das normas internacionais relativas aos direitos linguísticos.
Na sua perspectiva, a diglossia prejudica tanto a língua cabo-verdiana como a portuguesa, ao dificultar a aprendizagem das crianças que iniciam a escolaridade num contexto em que o ensino é ministrado, predominantemente, em português.
Por isso, defendeu que o ensino das diferentes disciplinas em português seja precedido ou acompanhado, nos primeiros níveis de escolaridade, por uma abordagem bilingue português-crioulo.
Segundo o entrevistado, esta metodologia poderá melhorar o domínio gramatical das duas línguas e reduzir as interferências linguísticas, contribuindo para prevenir a descrioulização e a progressiva desestruturação do léxico e da morfossintaxe da língua cabo-verdiana.
O responsável sustentou ainda que o bilinguismo pode favorecer a integração dos cabo-verdianos em espaços linguísticos mais amplos, sem comprometer o reforço da identidade cultural, na qual a língua materna ocupa um lugar central.
Sobre a contestação ao Alfabeto Unificado para a Escrita do Cabo-Verdiano (ALUPEC), Hopffer C. Almada ressalvou que nem todos os seus opositores são detractores da língua cabo-verdiana.
Segundo observou, vários escritores, poetas, cronistas, ficcionistas, dramaturgos e ensaístas que se opõem ao ALUPEC são igualmente cultores da língua, preferindo, contudo, utilizar o alfabeto português e uma grafia tradicional.
O entrevistado explicou que essa preferência está, em parte, relacionada com a influência de escritores e letrados que consolidaram o uso dessa grafia e cujo prestígio se prolongou ao longo das gerações, incluindo no universo da música cabo-verdiana.
Recordou igualmente o contributo histórico de António da Paula Brito, que publicou, em 1887, um alfabeto de base fonético-fonológica e uma gramática bilingue da variante de Santiago, posteriormente redescobertos pelo linguista Manuel Veiga na década de 1990 do século XX.
Apesar das divergências em torno dos sistemas de escrita, Hopffer C. Almada destacou o contributo dos letristas e músicos-compositores de todas as ilhas para a preservação e promoção da língua cabo-verdiana e da sua diversidade dialetal.
Natural da ilha de Santiago, onde nasceu em 1960, José Luís Hopffer C. Almada é licenciado em Direito pela Universidade Karl Marx, de Leipzig, e pós-graduado em Ciências Jurídicas e em Ciências Políticas e Internacionais pela Faculdade de Direito de Lisboa.
Residente em Lisboa, tem desenvolvido actividade nas áreas da literatura, do ensaio e da intervenção cultural cabo-verdiana.
JMV/HF
Inforpress/fim
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