Cidade da Praia, 04 Abr (Inforpress) – O combatente da liberdade da Pátria João Pereira Silva defende que o 20 de Fevereiro, dia em que centenas de cabo-verdianos perderam a vida à espera de uma única refeição do dia, devia ser assinalado com actos oficiais.
Advoga que todos os anos os cabo-verdianos deviam lembrar-se deste “triste dia”, porque, disse, centenas de pessoas morreram na sequência do desmoronamento do muro do local onde recorriam para obter uma única refeição quente do dia.
Assim, defende que se devia homenagear os mortos do fatídico dia 20 de Fevereiro com deposição de flores no monumento em honra às vítimas, além de cerimónia oficial no Parlamento.
No que concerne à preservação de memórias, citou o exemplo do Memorial da Escravatura em França em que todos os anos personalidades, nomeadamente dos diversos partidos e organizações afrodescendentes, “vão lá depositar coroas de flores e, às vezes, até o Presidente francês vai lá fazer um discurso”.
“É um dever de memória”, afirmou Pereira Silva, acrescentando que milhares de africanos foram retirados à força das suas terras e respectivas famílias e que “a maior parte não quer ser indemnizada”.
Na sua perspectiva, milhares de cabo-verdianos morreram de fome por incúria das autoridades coloniais.
“A fome foi resultante de uma governação [colonial] e não é uma resultante da falta de chuvas”, apontou o antigo governante.
Para João Pereira Silva, não se compreende por que razão o império colonial português, que tinha sob o seu domínio Angola, Moçambique, Guiné-Bissau e São Tomé e Príncipe, não deixava os cabo-verdianos emigrar para outras zonas, por exemplo, para o Brasil.
“Fizeram até leis para impedir aos cabo-verdianos de saírem na época de fome”, revelou a fonte da Inforpress que responsabiliza o poder colonial pelas centenas de milhares de mortes registadas no arquipélago.
Lamenta o facto de milhares de cabo-verdianos nunca souberem onde é que os seus entes queridos foram enterrados.
“Muitas [pessoas] nunca foram enterradas. Apodreceram nas achadas, nos covões e nas furnas à beira mar. Nunca ninguém soube delas e essas pessoas tinham família”, deplorou João Pereira Silva.
Declarou que ainda hoje existem “traços na maneira de ser dos cabo-verdianos que evidenciam alguns traumas”.
“Isto é matéria para os especialistas de outras ciências investigarem e não para mim. Enquanto cabo-verdiano, enquanto nacionalista e enquanto alguém que lutou e continua a lutar pela independência deste povo, preocupa-me que as pessoas se esqueçam disso”, sublinhou o entrevistado da Inforpress que se queixa pelo facto de a juventude cabo-verdiana se preocupar com os jogadores, como Cristiano Ronaldo, Pelé e outros, e não sabem a história do seu País.
“Muitos poucos [jovens] sabem que numa pequena cidade de 17 mil habitantes, num domingo, morreram 1200 pessoas de uma só vez. Não foi um barco que se afundou. As pessoas perderam a vida porque estavam à espera de uma refeição quente, por causa da fome”, salientou João Pereira Silva.
A comunicação social cabo-verdiana, em seu entender, tem quota-parte de responsabilidade na não divulgação de certos acontecimentos que marcaram a história do arquipélago.
Reconhece, porém, que o País não tem espaços para jornalistas especializados.
“Em qualquer país da Europa, quando apresentam um programa sobre medicina, têm um médico contratado que é o consultor daquela estação ou então um professor universitário. Quando falam, por exemplo da agricultura, têm lá um fulano para garantir que o que estão a dizer está tecnicamente correcto”, salienta Pereira Silva, dando exemplo de uma vez ter visto em Cabo Verde um operador de câmara a fazer um programa de mais de uma hora sobre a agricultura e “não teve ninguém para o aconselhar sobre o que estava a dizer”.
Admite que Cabo Verde é um país muito pequeno e pretensioso que não consegue fazer muita coisa por não dispor de riquezas suficientes para o efeito.
“Países com a mesma dimensão física que Cabo Verde, como a Islândia, conseguem fazer coisas que nós não conseguimos. Porquê? Porque acumularam riqueza e souberam investir melhor do que nós as poupanças dos emigrantes”, concluiu João Pereira Silva.
Este ano assinalou-se os 76 anos do Desastre de Assistência, na Praia, considerado como a “mais terrível catástrofe” de todos os tempos registada no arquipélago.
Foi a 20 de Fevereiro de 1949 que esta tragédia bateu sobre a capital cabo-verdiana, mais concretamente na localidade da Várzea da Companhia, onde foi construído um barracão para servir refeições quentes aos indigentes que o procuravam para matar a fome.
LC/ZS
Inforpress/Fim
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