
Cidade da Praia, 30 Jan (Inforpress) – A investigadora da violência baseada no género (VBG) no país defendeu hoje que é preciso apostar no reforço institucional e uma abordagem inclusiva no combate a esta problemática, sublinhando que o “maior foco" de intervenção deve ser nos homens.
Carmelita Silva falava em declarações à Inforpress, no âmbito da apresentação do seu primeiro livro “A Rede Sol e a Lei Especial contra Violência Baseada no Género: Processos Institucionais e Narrativas de Homens e Mulheres em Situação de Violência Conjugal em Cabo Verde”, na Praia.
A obra apresenta uma análise aprofundada do fenómeno VBG no país e deixa um conjunto de recomendações para melhorar a resposta institucional e social sobre esta temática.
Segundo a autora, que é professora investigadora da Faculdade de Ciências Sociais, Humanas e Artes da Uni-CV, a VBG tem sido trabalhada há vários anos em Cabo Verde, contando com a intervenção de múltiplas instituições e uma rede sólida de atendimento e acompanhamento às vítimas, integrada numa estrutura internacional de apoio.
Destacou ainda o papel dos activistas que têm assumido a defesa dos direitos das mulheres e a luta contra a violência.
Contudo, sublinhou que o país precisa alargar o foco da intervenção, passando também a trabalhar com os homens, não apenas enquanto potenciais autores de violência, mas também enquanto pessoas que, por vezes, vivenciam situações de violência ou reproduzem “comportamentos naturalizados”.
A investigadora explica que muitos actos violentos são tão “enraizados culturalmente que a própria pessoa não tem consciência de que está a exercer violência”. Por isso, defende que é necessário trabalhar com homens, mulheres e crianças, de forma a desnaturalizar práticas violentas que foram interiorizadas ao longo do tempo.
Outra recomendação deixada por esta pesquisadora na sua obra, é a necessidade de reforçar as instituições com técnicos devidamente especializados, como psicólogos, juristas, mediadores e profissionais com formação específica na área de VBG.
A autora alerta que, em vários casos, as vítimas acabam por sofrer revitimização institucional, seja pela repetição exaustiva do relato, seja pela falta de atendimento adequado ou pela demora na resolução do caso.
Destaca também que, apesar da existência dos Centros de Apoio à Vítima em quase todas as câmaras municipais, é crucial que estes serviços estejam preparados para actuar em múltiplas dimensões da violência, garantindo atendimento humanizado, célere e competente.
A investigadora defende, ainda, a construção de agendas baseadas em diagnósticos reais das comunidades, afirmando que as políticas públicas só serão eficazes se reflectirem as expectativas e necessidades das vítimas, das famílias e das comunidades onde os casos ocorrem.
Reforçou também a urgência de um trabalho intersectorial, inclusivo e contínuo que permita prevenir a violência, apoiar as vítimas e transformar comportamentos enraizados na sociedade cabo-verdiana.
A obra, disse, vai contribuir como "pistas importantes" para apoiar decisores políticos na melhoria de competências na defesa da VBG no país.
DG/ZS
Inforpress/Fim
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