ENTREVISTA/José Luís Hopffer C. Almada: uma obra entre a literatura, a história e a identidade cabo-verdiana

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ENTREVISTA/José Luís Hopffer C. Almada: uma obra entre a literatura, a história e a identidade cabo-verdiana
25/10/26 - 01:50 pm

*** Por: José Maria Varela, da Inforpress ***

Lisboa, 25 Out (Inforpress) – O poeta, ensaísta e jurista José Luís Hopffer C. Almada construiu uma obra centrada na identidade cabo-verdiana, na memória histórica e no pensamento de Amílcar Cabral, aliando a criação literária à reflexão política e à dinamização cultural.

Desde a publicação de “À Sombra do Sol”, em 1990, até “Exalações”, lançado em 2025, o escritor tem desenvolvido um percurso que cruza poesia, ensaio e intervenção cultural, acompanhando as transformações da literatura cabo-verdiana no período pós-independência.

A sua participação no Movimento Pró-Cultura e em iniciativas de divulgação literária marcou, igualmente, a sua intervenção cultural, num contexto em que a publicação de livros e a circulação de textos enfrentavam dificuldades.

Entre essas iniciativas destacam-se o suplemento literário-cultural Voz di Letra, a folha cultural Sopinha de Alfabeto, a revista Fragmentos e a antologia Mirabilis – De Veias ao Sol, projectos que contribuíram para a divulgação da produção literária cabo-verdiana.

O Voz di Letra era um suplemento semanal do jornal Voz di Povo, coordenado por Ondina Ferreira e Oswaldo Osório e dinamizado pelo Movimento Pró-Cultura.

A Sopinha de Alfabeto, por sua vez, era uma folha cultural editada pelo Grupo de Debates sobre a Arte, constituído por Arnaldo Silva, Eurico Barros, Fernando Hamilton Elias, conhecido por Mito, Filinto Elísio Correia e Silva e o fotógrafo João Nelson Fernandes.

Segundo Hopffer Almada, o grupo procurou afirmar-se autonomamente em relação ao Movimento Pró-Cultura. 

O escritor recorda que tomou conhecimento da iniciativa quando se encontrava em São Vicente, com outros membros do movimento, a convite da Fundação Amílcar Cabral, para participar nas celebrações do cinquentenário da revista Claridade.

Com o fim da Sopinha de Alfabeto, os seus promotores colaboraram na revista Fragmentos e na antologia Mirabilis – De Veias ao Sol, ambas organizadas pelo Movimento Pró-Cultura.

Ao recordar esse período, o escritor destacou o esforço colectivo para criar espaços de publicação e divulgação literária, numa altura em que muitos autores tinham dificuldade em fazer chegar os seus textos aos leitores.

A experiência permite-lhe, também, identificar mudanças na literatura cabo-verdiana, entre as quais a diversificação das propostas estéticas e ideológicas, a afirmação da escrita feminina, a descentralização geográfica e temática e a crescente participação de autores da diáspora.

A produção literária em português e em língua cabo-verdiana constitui outro sinal dessa evolução. Para Almada, a pluralidade de vozes e formas de expressão demonstra a vitalidade da literatura nacional, embora considere necessário melhorar a edição, a revisão linguística e a selecção das obras publicadas.

Um dos traços particulares do seu percurso é a utilização de diferentes nomes literários, associados a distintas formas de expressão.

Na poesia, assina também como Nzé de Sant’y Ago, Erasmo Cabral de Almada e Alma Dofer Catarino, designações que classifica como pseudo-heterónimos. 

Na prosa literária, utiliza Dionísio de Deus y Fonteana, enquanto Tuna Furtado Lopes assina artigos e ensaios sobre questões culturais.

O escritor distingue estes nomes dos heterónimos dotados de personalidades e biografias autónomas, explicando que correspondem a diferentes sensibilidades criativas presentes no seu percurso.

A publicação, em 1990, dos dois volumes de À Sombra do Sol ficou associada a uma divergência com a professora Lúcia Lepecki, autora do prefácio da obra, no contexto da discussão sobre a utilização de diferentes nomes literários.

Num esclarecimento à Inforpress, Almada precisou que foi o próprio quem preferiu que a professora retirasse o prefácio, apesar de o considerar muito elogioso, mantendo a nota introdutória da sua autoria, na qual procurava explicar a utilização dos nomes literários então designados como heterónimos.

O escritor sublinhou que mantinha anteriormente com Lúcia Lepecki uma forte e produtiva relação de amizade e cumplicidade literária. Esclareceu ainda que os nomes utilizados na poesia, ao contrário dos heterónimos de Fernando Pessoa, não tinham biografias próprias, correspondendo antes a diferentes sensibilidades e personalidades criativas na escrita poética.

Ao revisitar a produção da juventude, Almada reconhece as bases do percurso que viria a desenvolver na poesia e no ensaio, tanto em português como em língua cabo-verdiana.

A influência de Amílcar Cabral ocupa um lugar central no pensamento político do escritor, que se define como intelectual independente de esquerda.

“Foi através de Amílcar Cabral, isto é, pela vontade de aprofundar o seu pensamento, que cheguei ao marxismo”, afirmou à Inforpress, ao explicar a importância do dirigente histórico das independências de Cabo Verde e da Guiné-Bissau na sua formação intelectual.

Essa influência está na origem de uma trilogia de ensaios intitulada Amílcar Cabral – O Maior Morto Imortal dos Povos de Cabo Verde e da Guiné-Bissau, dos Pontos de Vista Histórico e Político-Simbólico.

Segundo o autor, a obra está concluída e divide-se em três volumes, dedicados a diferentes períodos da história política cabo-verdiana, desde as lutas nativistas e o regime de partido único até à abertura política e à consolidação do regime democrático.

O primeiro volume inclui poemas dedicados a Cabral e à luta de libertação, bem como uma reflexão sobre a obra A Última Lua de Homem Grande, de Mário Lúcio Sousa.

A trilogia reúne duas vertentes que atravessam o percurso de Almada: a criação literária e a interpretação histórica e política da sociedade cabo-verdiana.

A identidade nacional constitui outro dos eixos do seu pensamento. O escritor defende uma leitura afro-crioula da sociedade cabo-verdiana e sublinha a sua ligação histórica e cultural ao continente africano.

Na sua perspectiva, a singularidade do arquipélago resulta do encontro de diferentes matrizes culturais e históricas, sem que isso implique a negação da sua pertença africana.

A valorização da língua cabo-verdiana integra, igualmente, essa reflexão. Para Almada, a língua constitui uma expressão fundamental da identidade nacional e deve ocupar um lugar efectivo na produção literária e na vida cultural do país.

O escritor defende também a autonomia das organizações culturais em relação ao poder político, considerando a liberdade de criação e a independência das instituições condições importantes para a diversidade artística.

A experiência no Movimento Pró-Cultura e o contacto com outras realidades, incluindo a antiga República Democrática Alemã, contribuíram para a sua reflexão sobre a organização da vida cultural e a relação entre os criadores e o poder.

Na avaliação de Almada, o período pós-independência, sobretudo as décadas de 1980 e 1990 e as primeiras duas décadas do século XXI, foi particularmente fértil para a literatura cabo-verdiana.

O escritor considera que a produção nacional alcançou níveis de diversidade e sofisticação que contrariam avaliações mais pessimistas sobre a evolução do sector.

Entre as transformações que identifica estão a multiplicação de propostas estéticas e ideológicas, a consolidação da escrita feminina, a presença de autores residentes fora do arquipélago e o alargamento dos temas abordados.

O aumento das publicações, contudo, não elimina os problemas relacionados com a qualidade editorial, a revisão linguística e a selecção das obras. Para o escritor, a expansão da produção literária deve ser acompanhada por melhores condições de edição e divulgação.

A investigação académica e a crítica literária também integram a sua análise. Almada destaca os estudos dedicados à sua obra desde À Sombra do Sol e assinala que a revista Nova Lyra, da Associação dos Escritores Cabo-verdianos, dedicou um número à sua produção literária e ensaística.

No plano internacional, defende o reforço das parcerias com editoras estrangeiras, a tradução de autores cabo-verdianos e uma presença mais regular em feiras do livro e festivais literários.

Na sua perspectiva, a projecção externa da literatura nacional exige um trabalho sistemático de divulgação, capaz de ampliar a circulação das obras e aproximar os escritores de novos públicos.

Depois de mais de quatro décadas de actividade literária e de uma produção que ultrapassa uma dezena de livros, muitos deles extensos, José Luís Hopffer C. Almada considera ter escrito o essencial da sua obra.

O escritor admite, contudo, a possibilidade de continuar a desenvolver a prosa ficcional e a crónica sob o nome literário Dionísio de Deus y Fonteana.

Entre os projectos que equaciona está um romance sobre uma família cabo-verdiana de origens diversas, com membros distribuídos pelas ilhas e pela diáspora.

Uma eventual incursão na ficção representaria um novo desenvolvimento num percurso marcado sobretudo pela poesia e pelo ensaio, mantendo a atenção às relações familiares, à diversidade social e aos vínculos entre o arquipélago e as comunidades emigradas.

Entre a criação literária, a reflexão histórica e a intervenção cultural, Almada tem procurado fazer da literatura um espaço de análise da sociedade cabo-verdiana.

O seu percurso acompanha também as transformações da vida cultural do país, desde a criação de espaços alternativos de publicação até à diversificação de vozes, géneros e perspectivas sobre a identidade nacional.

JMV/HF

Inforpress/fim

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