
*** Por: Marli Coutinho Mendes, da Agência Inforpress ***
Calheta, 08 Dez (Inforpress) – A história de Ângela Semedo, 35 anos, natural de São Miguel, é daquelas que mostram que os sonhos podem até adormecer, mas não morrem.
Desde o ensino secundário que desejava ser enfermeira, movida pelo gosto de cuidar dos outros, porém, aos 16 anos, a maternidade antecipada adiou o caminho que idealizara.
Entre fraldas, incertezas e responsabilidades, acreditou, por um tempo, que estudar era um luxo distante.
Para sustentar a filha, dedicou-se à confeitaria e venda de donetes e sorvete pelas ruas da Calheta, mas, ainda que as mãos moldassem massas e sabores, o coração continuava voltado para a enfermagem.
A oportunidade surgiu quando a Escola Técnica de Formação em Saúde e Educação (MACV) abriu um curso profissional e Ângela ingressou, formou-se como auxiliar de ação médica, concluiu o estágio hospitalar e viu a paixão pela área de enfermagem renascer com força.
Determinada, iniciou a licenciatura em Enfermagem na Universidade de Santiago.
O percurso, no entanto, foi cheio de obstáculos financeiros, logísticos e emocionais, tendo chegado a desistir.
Mas uma professora e funcionários da universidade recusaram-se a deixá-la abandonar o sonho, e com o incentivo recebido, retomou os estudos, cumpriu todas as disciplinas, realizou estágios, concluiu o trabalho final, fez a defesa em Maio de 2024 e saiu pronta para servir.
Após o estágio profissional na Delegacia de Saúde da Calheta, continuou como voluntária, até que, durante a epidemia de dengue, recebeu um contrato temporário como ajudante de agente de luta antivectorial.
Fazia turnos extras dos colegas e, mais do que melhorar a renda, fortalecia a sua experiência e o seu compromisso com a comunidade.
Foi nesse período de contacto direto com a população que percebeu algo essencial: muitos pacientes, sobretudo idosos e pessoas com mobilidade reduzida, enfrentam enormes dificuldades para chegar aos serviços de saúde.
Outros, mesmo com meios, estavam fisicamente incapazes de se deslocar. Assim nasceu, em 2024, o seu projeto de enfermagem domiciliar — um serviço humanizado, prestado nas casas dos doentes.
Começou de forma gratuita, sugerindo apenas que os pacientes adquirissem os materiais básicos e após o primeiro paciente, o boca-a-boca fez o resto: mais doentes passaram a procurá-la, e ela dedicou-se, com entrega e carinho, a cada um deles.
Hoje, cobra apenas valores simbólicos, suficientes para manter os materiais e assegurar deslocações.
O amor pelo que faz, reforçado pelo apoio de colegas e amigos, mantém viva a sua vontade de crescer.
Sonha criar uma equipa de enfermagem domiciliar e estabelecer parcerias com o Hospital Regional Santa Rita Vieira e com a Câmara Municipal de São Miguel para ampliar o alcance do serviço.
Pois, para Ângela, a enfermagem domiciliar é mais que profissão, é missão e o seu percurso já começa a inspirar outros profissionais de enfermagem noutros municípios.
O cuidado no ambiente familiar, diz ela, devolve bem-estar, reduz ansiedade e fortalece a recuperação.
“O lar acolhe, e eu acolho junto”, costuma repetir. Mesmo sem estar ainda integrada no quadro do Ministério da Saúde, continua a deslocar-se a diversas localidades, oferecendo um serviço que alia técnica, sensibilidade e presença humana.
Mãe de duas filhas, de 19 e 11 anos, Ângela deixa também uma mensagem aos jovens: que pensem antes de tomar decisões que possam alterar o curso da vida, que estudem e invistam em si mesmos, que sonhem, mas com responsabilidade.
“Ser pai ou mãe é uma bênção, mas tudo tem o seu tempo”, reforçou.
De uma adolescente que temeu perder um sonho, Ângela tornou-se numa mulher que leva saúde, conforto e esperança às portas de quem mais precisa. A sua história prova que, quando a determinação se alia ao cuidado, nascem transformações não só na vida de quem sonha, mas também na vida de quem é cuidado.
MC/AA
Inforpress/Fim
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