
Vila do Porto, Açores, 09 Jun (Inforpress) – As ilhas de Santa Maria (Açores) e do Sal (Cabo Verde) reforçaram, nesta segunda-feira, os laços históricos de amizade e cooperação, numa homenagem à comunidade cabo-verdiana que, há meio século, protagonizou a histórica ponte aérea de 1975.
O acto integrou-se no programa das celebrações “Homenagens 50 anos Cabo Verde – Tempo de Reencontros”.
Esta iniciativa assume um "significado profundo" ao evocar a memória de todos os que foram tocados por este processo histórico: os que partiram de Cabo Verde em busca de novas oportunidades, os que ficaram nas ilhas a construir a nova nação e os que regressaram ao arquipélago após a independência.
O evento, decorrido em Vila do Porto, serviu especificamente para condecorar as famílias que deixaram a ilha do Sal, nas vésperas da independência, para se fixarem em solo açoriano.
Em representação do município do Sal, o vereador Jucelino Cardoso enalteceu a iniciativa da autarquia açoriana e expressou a sua “profunda gratidão” pelo acolhimento, classificando os migrantes de 1975 como os “primeiros embaixadores” de Cabo Verde na linha do Atlântico.
“Partiram da nossa querida ilha do Sal rumo a uma outra ilha, no Atlântico, com o nome também da nossa cidade de Santa Maria. Venho aqui enaltecer a resiliência do povo das ilhas. A partida sempre causa dor e saudade, mas trouxe também um pedaço do Sal para Santa Maria”, sublinhou Jucelino Cardoso.
Por seu turno, a presidente da Câmara Municipal de Vila do Porto, Bárbara Chaves, recordou o espírito de sacrifício e a coragem daqueles que, “de mãos vazias, mas cheios de esperança”, abraçaram os Açores como um novo lar, contribuindo de forma activa para o desenvolvimento social e económico da ilha.
A autarca destacou a presença do senhor João Rodrigues, o único chefe-de-família sobrevivente dessa primeira vaga de migração. João Rodrigues, que era funcionário no Aeroporto do Sal, fixou-se em Santa Maria para trabalhar na central eléctrica do aeroporto local, levando consigo os filhos e a perspectiva de um futuro promissor.
Na sua alocução, Bárbara Chaves evocou ainda a memória dos já falecidos Nicolau Cruz, António Silva e Nicolau Ramos, cujos descendentes encontram-se hoje “plenamente integrados” na sociedade mariense, desempenhando funções em associações locais e em diversas actividades profissionais.
Para além da vertente migratória, a missão oficial serviu para identificar áreas de cooperação mútua.
O vereador Jocelino Cardoso lembrou que a partilha entre as duas ilhas também se fez no sentido inverso, evocando o exemplo de António de Sousa, um cidadão natural de Santa Maria que se radicou na Vila de Palmeira (Sal) e ali introduziu modernas técnicas açorianas de navegação e de pesca de alto mar (atum e lagosta).
Jocelino Cardoso sublinhou a urgência de o Sal “investir na agricultura e diversificar a sua economia”, de forma a mitigar a dependência exclusiva do turismo, uma fragilidade evidenciada durante a crise da covid-19.
A agenda da comitiva incluiu visitas a organizações de produtores locais, às estações espaciais e às infra-estruturas da NAV Portugal.
Ao nível técnico, os territórios encontram-se ligados pela gestão dos corredores aéreos oceânicos.
A Biblioteca Municipal acolhe hoje uma conferência técnica com a NAV Portugal e a ASA (Aeroportos e Segurança Aérea de Cabo Verde) para desenhar cooperação no controlo de tráfego aéreo.
Em breve, uma equipa coordenada pelo jornalista, investigador científico e coordenador do programa, Ildo Fortes, realizará um documentário focado na trajectória da família de João Rodrigues, imortalizando este meio século de cumplicidade transatlântica.
NA/ZS
Inforpress/Fim
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