
Los Angeles, Estados Unidos, 03 Mar (Inforpress) - O realizador brasileiro Walter Salles, que venceu esta noite o primeiro Óscar de sempre do Brasil com o filme “Ainda Estou Aqui”, considerou que este reconhecimento é para a cultura e o cinema brasileiros, que hoje ecoa pelo mundo.
“Não é um filme que é reconhecido, é a cultura que está a ser reconhecida, é a forma como fazemos cinema no Brasil, é a literatura brasileira com o livro de Marcelo Paiva, é a música brasileira”, afirmou o cineasta, nos bastidores dos Óscares da Academia.
“Toda esta jornada foi sobre refazer a memória de uma família ao mesmo tempo que refazíamos a memória de um país durante 21 anos de ditadura militar”, considerou Salles, que dedicou a estatueta dourada a “três mulheres extraordinárias”: Eunice Paiva, a protagonista da história, e as atrizes Fernanda Torres e Fernanda Montenegro.
Walter Salles lembrou que o filme foi visto nos cinemas por cinco milhões de brasileiros e conseguiu ultrapassar a barreira do sistema político binário do país.
Segundo o realizador, a ressonância que está a ter nos mercados internacionais, incluindo Portugal e Estados Unidos, pode ser entendida pela fragilidade cada vez maior da democracia um pouco por todo o lado.
“Nunca pensei que seria tão frágil, até mesmo neste país, e por isso o que aconteceu no Brasil no passado parece muito próximo do que está a acontecer agora”, salientou Walter Salles.
“O filme é principalmente sobre perda e como reagimos a ela, como a superamos e como lutamos contra a injustiça”, considerou.
“Esta mulher teve a possibilidade de quebrar ou de abraçar a vida e ela abraçou a vida”, afirmou, referindo-se à forma de resistência de Eunice Paiva, baseada no afeto.
Salles também salientou a importância do jornalismo, da literatura, do cinema e das canções como forma de preservar a memória.
“A memória esteve no centro deste projeto. Vivemos num momento em que a memória está a ser apagada como um projeto de poder”, afirmou. “O que fazemos pode lutar contra a possibilidade do esquecimento e isso é muito importante”.
Para evocar a autenticidade do momento retratado, a equipa usou 35mm e Super 8 como forma de mergulhar o público no passado sem interferências artificiais. “Tentei trabalhar de uma forma em que pudéssemos recriar a memória de um período específico no Brasil, os anos setenta, e uma forma de fazer foi isso foi escapar do digital”.
Com este Óscar de Melhor Filme Internacional, Salles tem ainda esperança de dar um incentivo aos filmes independentes no Brasil.
A sua vitória foi muito celebrada na sala de entrevistas, onde a agência Lusa e vários meios brasileiros de comunicação social puderam fazer entrevistas ao cineasta e congratulá-lo em português, uma enorme raridade nos bastidores dos Óscares.
Anora foi o grande destaque da 97.ª edição dos Óscares, arrecadando a estatueta dourada para melhor filme (depois de Oppenheimer em 2024), na cerimónia que decorreu este domingo à noite no Dolby Theatre, em Los Angeles, nos Estados Unidos.
Eis a lista completa:
MELHOR FILME
Anora
O Brutalista
A Complete Unknown
Conclave
Dune - Duna: Parte Dois
Emilia Pérez
Ainda Estou Aqui
Nickel Boys
A Substância
Wicked
MELHOR REALIZADOR
Sean Baker - Anora
Brady Corbet - O Brutalista
Jacques Audiard - Emilia Pérez
Coralie Fargeat - A Substância
James Mangold - A Complete Unknown
MELHOR ARGUMENTO ORIGINAL
Anora - Sean Baker
O Brutalista - Brady Corbet e Mona Fastvold
A Verdadeira Dor - Jesse Eisenberg
O Atentado de 5 de Setembro - Moritz Binder, Tim Fehlbaum, Alex David
A Substância - Coralie Fargeat
MELHOR ARGUMENTO ADAPTADO
Conclave - Peter Straughan
Emilia Pérez - Jacques Audiard
Nickel Boys - RaMell Ross e Joslyn Barnes
A Complete Unknown - Jay Cocks e James Mangold
Sing Sing - Clint Bentley e Greg Kwedar
MELHOR ACTOR
Adrien Brody - O Brutalista
Timothée Chalamet - A Complete Unknown
Colman Domingo - Sing Sing
Ralph Fiennes - Conclave
Sebastian Stan - The Apprentice - A História de Trump
MELHOR ATRIZ
Mikey Madison - Anora
Demi Moore - A Substância
Cynthia Erivo - Wicked
Karla Sofía Gascón - Emilia Pérez
Fernanda Torres - Ainda Estou Aqui
MELHOR ATOR SECUNDÁRIO
Kieran Culkin - A Verdadeira Dor
Edward Norton - A Complete Unknown
Guy Pearce - O Brutalista
Jeremy Strong - The Apprentice - A História de Trump
Yura Borisov - Anora
MELHOR ATRIZ SECUNDÁRIA
Zoe Saldaña - Emilia Pérez
Monica Barbaro - A Complete Unknown
Ariana Grande - Wicked
Felicity Jones - O Brutalista
Isabella Rossellini - Conclave
MELHOR CANÇÃO ORIGINAL
«El Mal» - Emilia Pérez
«Mi Camino» - Emilia Pérez
«Never Too Late» - Elton John: Never Too Late
«Like A Bird» - Sing Sing
«The Journey» - The Six Triple Eight
MELHOR BANDA SONORA ORIGINAL
O Brutalista
Conclave
Emilia Pérez
Wicked
Robot Selvagem
MELHOR FILME INTERNACIONAL
Ainda Estou Aqui - Brasil
A Rapariga da Agulha - Dinamarca
Emilia Pérez - França
A Semente do Figo Sagrado - Alemanha
Flow - Letónia
MELHOR FILME DE ANIMAÇÃO
Flow
Divertida-mente 2
Memórias de um Caracol
Wallace & Gromit: Vengeance Most Fowl
Robot Selvagem
MELHOR DOCUMENTÁRIO
No Other Land
Porcelain War
Soundtrack to a Coup d'Etat
Black Box Diaries
Sugarcane
MELHOR GUARDA-ROUPA
Wicked
Nosferatu
A Complete Unknown
Conclave
Gladiador II
MELHOR CARACTERIZAÇÃO
A Substância
Wicked
A Different Man
Emilia Pérez
Nosferatu
MELHOR DESIGN DE PRODUÇÃO
Wicked
O Brutalista
Dune - Duna: Parte Dois
Nosferatu
Conclave
MELHOR SOM
Dune - Duna: Parte Dois
Emilia Pérez
Wicked
Robot Selvagem
A Complete Unknown
MELHOR MONTAGEM
Anora
O Brutalista
Conclave
Emilia Pérez
Wicked
MELHOR FOTOGRAFIA
O Brutalista
Dune - Duna: Parte Dois
Emilia Pérez
Maria
Nosferatu
MELHORES EFEITOS VISUAIS
Dune - Duna: Parte Dois
O Rei do Planeta dos Macacos
Wicked
Alien: Romulus
Better Man
MELHOR CURTA EM LIVE-ACTION
I'm Not a Robot
The Last Ranger
A Lien
The Man Who Could Not Remain Silent
Anuj
MELHOR CURTA DE ANIMAÇÃO
In the Shadow of the Cypress
Magic Candies
Wander to Wonder
Yuck!
Beautiful Men
MELHOR CURTA DOCUMENTAL
The Only Girl in the Orchestra
Death by Numbers
I Am Ready, Warden
Incident
Instruments of a Beating Heart
Inforpress/Lusa
Fim
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