
Mindelo, 25 Ago (Inforpress) – O trabalho não remunerado em Cabo Verde equivale a 9,6 por cento (%) do PIB e continua a ser assumido de forma desproporcional pelas mulheres, revela o relatório apresentado hoje, pelo ICIEG, no Mindelo.
Os dados foram socializados pelo Instituto Cabo-verdiano para a Igualdade e Equidade de Género (ICIEG) na apresentação pública da 2.ª edição do relatório “Uso do Tempo e Trabalho Não Remunerado – Cabo Verde, 2024”, na Câmara de Comércio do Mindelo.
Conforme o documento, 88,4% das mulheres com 10 ou mais anos realizam trabalho não remunerado, contra 67,9% dos homens, mantendo-se um diferencial de cerca de 20 pontos percentuais desde 2012.
Em São Vicente, a desigualdade é igualmente expressiva, sendo que 87,8% das mulheres realizam afazeres domésticos no agregado familiar, contra 46,8% dos homens.
No trabalho de cuidados, que inclui crianças, idosos e pessoas com deficiência, a participação é de 36% entre as mulheres e 18,8% entre os homens.
A ministra da Família, Inclusão, Desenvolvimento Social e Trabalho, Adélsia Almeida, que presidiu à abertura, considerou que os números demonstram que o cuidado constitui uma “verdadeira riqueza económica” do país.
Daí, que, sublinhou, esta responsabilidade não pode continuar a ser encarada como uma obrigação natural das mulheres.
“Cuidar é uma responsabilidade partilhada das famílias, do Estado, dos homens, das empresas e de toda a sociedade”, afirmou, com apelo particularmente aos homens e rapazes para uma maior participação nas tarefas domésticas e no cuidado dos filhos.
A governante anunciou ainda que o Governo pretende reforçar progressivamente a Política Nacional de Cuidados, através da ampliação de respostas como creches, apoio domiciliário, centros de dia para idosos e serviços destinados a pessoas com deficiência.
Segundo Adélsia Almeida, São Vicente deverá assumir um papel importante neste processo, sendo necessário conhecer melhor as necessidades de cuidados existentes na ilha e articular respostas entre Governo, autarquia, organizações da sociedade civil e sector privado.
Por sua vez, o representante residente do PNUD, UNICEF e UNFPA em Cabo Verde, David Matern, salientou que o trabalho doméstico e de cuidados constitui uma “economia” que acontece diariamente nos lares e comunidades, mas “permanece praticamente invisível nas contas nacionais”.
Segundo o responsável, se esse trabalho fosse contabilizado economicamente, representaria, aproximadamente, 9,6% do PIB nacional.
Já a presidente do Instituto Cabo-verdiano para a Igualdade e Equidade de Género (ICIEG), Marisa Carvalho, lembrou que Cabo Verde realizou em 2012 o primeiro inquérito ao uso do tempo e que, 12 anos depois, os novos dados permitem avaliar mudanças e desigualdades que persistem.
Segundo a responsável, o volume global de trabalho não remunerado reduziu-se em mais de 50% em relação a 2012, mas o diferencial entre mulheres e homens na realização deste trabalho continua superior a 20 pontos percentuais.
Marisa Carvalho alertou ainda que a desigualdade começa a manifestar-se a partir dos 10 anos e não desaparece automaticamente com o aumento da escolaridade ou dos rendimentos familiares e apontou para a influência de normas sociais e expectativas diferenciadas sobre meninas e meninos.
Para a presidente do ICIEG, a mudança exige a participação dos homens, a promoção da co-responsabilidade parental e intervenções desde cedo, nomeadamente, na educação de meninas e meninos para uma distribuição mais equilibrada das responsabilidades.
“Repartir os cuidados é repartir responsabilidades, mas é também repartir oportunidades”, afiançou Marisa Carvalho, para quem tornar visível o trabalho de cuidar significa reconhecer o seu valor e ampliar as possibilidades de participação económica, social e política das mulheres.
LN/HF
Inforpress/Fim
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