
*** Por: Letícia Neves, da Agência Inforpress ***
Mindelo, 22 Abr (Inforpress) – O cantor cabo-verdiano Djosinha prepara-se para uma despedida simbólica dos palcos no sábado, 25, e escolheu Mindelo, terra onde nasceu, cresceu e fincou raízes, como cenário para este momento “carregado de emoção e memória”.
Nascido a 25 de Maio de 1934, com o nome de baptismo José Vieira Duarte, o artista hoje está com mais de nove décadas de vida e “bem rijo”, como gosta de frisar, já que o seu único vício sempre foi as “pequenas” [namoradas].
Agora optou por oficializar a sua saída dos palcos, mas garante que não se trata de um adeus definitivo, mas antes de “um encostar de portas”, deixando em aberto futuras aparições, principalmente para causas sociais.
Entretanto, como frisou em entrevista à Inforpress, quer marcar este momento na sua terra natal, depois de quase 74 anos de carreira como um artista que dispensa apresentações.
A história do nome Djosinha remonta à infância, nos campos de futebol, onde partilhava o nome José com outros dois colegas. Para evitar confusões, o monitor decidiu diferenciá-los com nominhos.
“Ele disse que a partir daí seria José, Djosa e Djosinha”, contou o cantor, que por ser o último da fila, ficou com o diminutivo que viria a tornar-se uma marca incontornável da música cabo-verdiana.
O percurso artístico começou cedo, aos sete anos, no antigo Cine Éden Park, levado pela mão do guitarrista Olavo Bilac, que o incentivava a cantar.
Foi nesse palco que, inicialmente colocado de forma discreta num espectáculo, acabaria por brilhar como estrela da noite, com a interpretação da música brasileira “Deusa do Asfalto”, numa estreia memorável.
Foi também a primeira vez que calçou sapatos, feitos por um sapateiro amigo da sua mãe.
Desde então, nunca mais parou, são 74 anos de carreira, tocando gerações e atravessando geografias.
Destacou-se no grupo Voz de Cabo Verde, ao qual se juntou aos 22 anos, convidado pelos membros fundadores para levar versatilidade a um repertório dominado por mornas e coladeiras.
Com o grupo, percorreu países como Holanda, Portugal e Espanha e vários outros, até à sua extinção.
De seguida, a solo, o “show man” da música cabo-verdiana, como também é conhecido, construiu um percurso bem sólido, com 17 trabalhos editados entre LP e CD, e inúmeros espectáculos realizados em Cabo Verde e na diáspora.
Paralelamente, foi durante 42 anos locutor da Rádio Globo, nos Estados Unidos da América, país onde vive e construiu família há vários anos, ampliando a sua ligação com o público emigrante.
Conhecido por uma energia contagiante em palco, Djosinha protagonizou momentos marcantes como o célebre “ratcha camisa”, que também lhe rendeu outro apelido.
Tal aconteceu em Angola, quando num espectáculo rasgou a própria camisa durante a interpretação de “It’s a Man’s Man’s Man’s World”, de James Brown, atirando os pedaços ao público em êxtase.
“Foi um delírio total, muitas das meninas que estavam ali vieram com pedaços a me pedir para colocar autógrafos neles”, relembrou entre sorrisos o episódio que lhe valeu dias de anonimato forçado, tal foi o entusiasmo dos fãs.
Entre histórias e ritmos, destaca-se também a paixão pela música latina, sobretudo a cumbia, sendo apontado como um dos pioneiros do género em São Vicente.
A sua primeira grande digressão internacional aconteceu ainda em tempos coloniais, sob a égide do então ministro do Ultramar, Adriano Moreira, que reuniu nomes como Luís Rendall, Agostinho Fortes, Dani Évora, Celso Estrela, Titina Rodrigues, Arlinda Santos e Mité Costa.
“Todos já partiram, mas eu continuo por cá”, recorda com emoção.
Para além da música, teve ainda uma passagem pelo futebol, e até foi campeão como jogador do Clube Mindelense, em 1954.
Das fintas do futebol para as da música, protagonizou duetos memoráveis com nomes sonantes da arena cabo-verdiana, mas gosta de frisar aquele que disse ter sido o seu primeiro dueto, ainda na adolescência, com a falecida Titina Rodrigues, num espectáculo no Castilho, em São Vicente, com a música brasileira “Quase certo”.
Agora, prepara-se para subir ao palco mindelense para um último grande encontro com o seu público, o mesmo público que sempre lhe acolheu “muito bem” e do qual também se assume fã.
O espectáculo acontece, na Academia Jotamont, organizado pela Serenata Produções que, através do produtor Kicas Silva, promete uma despedida à altura da sua irreverência, com convidados como Rui de Bitina e Carmen Silva.
Mas, antes de pousar o microfone, Djosinha ainda tem planos para actuações em Portugal e Luxemburgo, ainda este ano.
Porque, como o próprio disse, “não é o fim, é apenas uma pausa, um encostar de portas, deixando a música a ecoar como sempre na sua alma e coração”.
LN/HF
Inforpress/Fim
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