
Calheta, 10 Fev (Inforpress) – As chuvas intensas de 13 e 14 de Novembro deixaram destruição nas propriedades agrícolas de São Miguel, levando plantações, equipamentos e animais, num contraste marcante entre a barragem cheia e a ribeira seca.
Na Ribeira de Principal, Basília Semedo recorda a noite das enxurradas como um dos momentos mais difíceis da sua vida.
Para além das culturas agrícolas, perdeu cabeças de gado, tubos de ligação de água e outros equipamentos essenciais ao trabalho no campo, arrastados pela força da água.
Neste momento, garantiu já ter recebido a primeira parcela do subsídio solidário do Governo de Cabo Verde, no âmbito do Rendimento Solidário de Emergência, fixado em 30 mil escudos mensais, durante três meses, para compensar a perda de rendimento provocada pela interrupção das actividades económicas causada pelas cheias.
Disse que o apoio será usado, em primeiro lugar, para recuperar os animais e, depois, tentar salvar as bananeiras que ficaram com as raízes expostas.
Segundo explicou, já solicitou apoio à Câmara Municipal de São Miguel, nomeadamente, com uma retroescavadora para ajudar a remover os entulhos e recuperar os terrenos.
Caso não seja atendida, afirma que terá de investir sozinha, apesar de reconhecer que as perdas foram numerosas e severas, reforçando, igualmente, que enfrenta ainda dificuldades de acesso à garagem, completamente bloqueada por entulhos que ultrapassam a altura da entrada, exigindo máquinas pesadas para a limpeza.
Basília sublinha que os custos se acumulam rapidamente, desde a contratação de trabalhadores, que cobram cerca de mil escudos por meio-dia, até a reposição dos tubos e equipamentos levados pelas cheias.
Ainda assim, agradeceu o apoio recebido e manifestou esperança de que todos os agricultores e criadores afectados, que cumpriram os procedimentos exigidos, possam também beneficiar do subsídio, reforçando a importância da solidariedade neste momento.
Também Cipriana Tavares já recebeu a primeira parcela do subsídio solidário, no valor de 30 mil escudos, de um total de 90 mil escudos a ser pago em três prestações e explicou que o montante será aplicado na recuperação da sua horta, duramente atingida pelas chuvas, que destruíram plantações de morango, pimentão, bananeiras e cana-de-açúcar, além de terem levado tubos e materiais de irrigação.
Apesar dos prejuízos, Cipriana mantém a fé de que, com o pagamento integral do apoio previsto, conseguirá retomar a actividade agrícola. “É preciso levantar e continuar”, disse, sublinhando que a terra continua a ser o seu principal meio de subsistência.
Na mesma ribeira, a Ilídia Tavares, agricultora de quase 70 anos, ainda não recebeu o subsídio solidário do Governo e afirma manter a esperança de ser contemplada, tal como outros vizinhos e colegas agricultores.
Disse que já entregou toda a documentação necessária e aguarda resposta, sublinhando que as perdas foram enormes, restando apenas alguns pés de bananeiras.
Tavares confessa que se sente desmotivada, não apenas pelas perdas materiais, mas também pelas limitações físicas para recomeçar sozinha.
Apesar do cansaço e da idade, Ilídia não fecha a porta ao futuro. “Se encontrar apoio, não digo que não retomo”, afirmou, lembrando que investiu tudo o que tinha na horta e não conseguiu colher qualquer retorno.
Para ela e para muitos agricultores de São Miguel, o subsídio solidário representa mais do que um apoio financeiro: é um incentivo à resiliência, à coragem de recomeçar e à esperança de que, mesmo depois da força destruidora das cheias, a terra volte a dar frutos.
Quem passa pela Ribeira de Principal observa hoje um cenário que mistura tristeza e silêncio. A barragem está cheia, sinal da abundância momentânea de água, mas a ribeira encontra-se agora seca, coberta de pedras, após as enxurradas terem levado solos férteis, culturas e equipamentos, deixando um vazio difícil de explicar.
MC/HF
Inforpress/Fim
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