
Calheta, 01 Jun (Inforpress) – Os casos de esquistossomose identificados no concelho de São Miguel e noutras localidades relacionadas com o surto já ultrapassam uma centena, revelou hoje o cientista Maximiano Fernandes, que defendeu “o reforço urgente” das medidas de vigilância.
Em declarações à imprensa, o investigador explicou que os dados mais recentes apontam para “um aumento significativo” do número de pessoas infectadas, sobretudo após a intensificação dos rastreios promovidos pela Delegacia de Saúde de São Miguel em escolas e comunidades consideradas de maior risco.
Segundo Maximiano Fernandes, os primeiros trabalhos realizados na localidade de Ribeira de Principal permitiram confirmar apenas nove casos através de análises laboratoriais, mas a continuação das investigações revelou uma realidade mais abrangente.
“Quando iniciámos os estudos, foram confirmados nove casos no laboratório. Com os exames realizados posteriormente, sobretudo entre crianças em idade escolar, os números aumentaram rapidamente e hoje ultrapassam cinquenta apenas naquela localidade”, afirmou.
O cientista indicou que muitos dos infectados não apresentavam sintomas, situação que dificultava a identificação da verdadeira dimensão do problema.
“O trabalho de campo permitiu detectar muitos casos assintomáticos que estavam ocultos. Isso mostra que a doença já circulava na comunidade antes de ser identificada”, explicou.
Segundo o investigador, a soma dos casos detectados em Ribeira de Principal, noutras localidades de São Miguel e em pessoas provenientes da mesma zona diagnosticadas noutros concelhos da ilha de Santiago faz com que o número total ultrapasse actualmente uma centena.
“Os dados estatísticos que temos neste momento mostram claramente que os casos já passam dos cem. Há pessoas identificadas na Praia, noutras localidades da ilha e até casos confirmados no exterior, nomeadamente em França”, revelou.
Perante este cenário, o especialista apelou ao reforço das campanhas de informação, defendendo que todas as pessoas que tiveram contacto com águas potencialmente contaminadas procurem os serviços de saúde para realização de exames.
A esquistossomose, também conhecida por bilharzíase, é uma doença parasitária causada pelo verme Schistosoma haematobium.
A transmissão ocorre através do contacto com água doce contaminada por larvas libertadas por caramujos infectados.
A doença pode provocar sangue na urina, dores abdominais, febre e fadiga, embora muitos doentes permaneçam assintomáticos durante meses ou anos. Sem tratamento adequado, pode causar complicações graves e afectar diferentes órgãos.
Maximiano Fernandes alertou que o principal factor de risco continua a ser o contacto directo com a água contaminada existente em tanques, ribeiras e zonas de acumulação permanente de água.
“A probabilidade de infecção é muito elevada. Se dez pessoas entrarem em contacto com uma água contaminada, cerca de nove poderão ser infectadas”, advertiu.
O investigador esclareceu que não são apenas os banhos recreativos que representam perigo.
“Temos casos de crianças que apenas lavaram os pés ou as mãos e acabaram infectadas. Qualquer contacto com a água contaminada pode ser suficiente para a transmissão”, sublinhou.
Na Ribeira de Principal, acrescentou, os estudos identificaram uma área de risco que se prolonga desde a zona da cachoeira até Mato Dentro, abrangendo aproximadamente um quilómetro de potencial exposição ao parasita.
Manifestou ainda preocupação com as populações que frequentam zonas como Pilon Cão e o tanque de Machado.
Apesar da aproximação da época das chuvas, o investigador considera que o principal determinante da transmissão não é a estação do ano, mas sim a exposição contínua das pessoas à água contaminada, presente durante todo o ano.
Outro desafio apontado é a presença de numerosos caramujos hospedeiros do parasita, factor que contribui para a manutenção do ciclo de transmissão.
Perante a evolução da situação, Maximiano Fernandes defendeu o reforço dos recursos humanos e técnicos disponíveis na Delegacia de Saúde de São Miguel.
“É necessário reforçar as equipas no terreno durante vários meses. Precisamos de equipas multidisciplinares capazes de apoiar a investigação, vigilância e controlo da doença”, sustentou.
O cientista elogiou a estratégia de tratamento em massa implementada pelas autoridades sanitárias, mas defendeu a continuação dos rastreios para localizar novos infectados, acompanhar os doentes e evitar novas cadeias de transmissão.
A doença foi identificada pela primeira vez em Cabo Verde em 2022, no concelho de São Miguel, após a confirmação da presença do parasita Schistosoma haematobium.
Desde então, as autoridades sanitárias têm registado novos casos e desenvolvido investigações para compreender a dimensão da transmissão local.
Entretanto, o Instituto Nacional de Saúde Pública (INSP), em parceria com a Delegacia de Saúde de São Miguel, Ministério da Agricultura, Agência Nacional de Água e Saneamento e investigadores portugueses, intensificaram as operações no terreno, através de vigilância epidemiológica, recolha de amostras de água e caramujos, análises laboratoriais, rastreios comunitários e acções de sensibilização junto das populações.
As autoridades defendem igualmente o reforço da informação pública, a limitação do contacto com águas suspeitas e uma abordagem integrada denominada “Uma só saúde”, envolvendo os sectores da saúde humana, animal e ambiental para travar a propagação da doença.
MC/AA
Inforpress/Fim
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