
Assomada, 20 Mai (Inforpress) – A imigração em Cabo Verde não tem conseguido suprir a falta de mão-de-obra deixada pela emigração de cabo-verdianos no sector da agricultura, pecuária, pesca e transportes, situação que preocupa os produtores em Santiago Norte.
Nos campos agrícolas de Santiago Norte, onde durante anos a agricultura, a pecuária e os transportes sustentaram famílias inteiras, cresce hoje um sentimento silencioso de ausência.
A saída contínua de cabo-verdianos para o exterior, sobretudo jovens em idade activa, está a deixar vazios difíceis de preencher, numa altura em que a imigração no país segue outros caminhos.
Em localidades do interior de Santiago, agricultores relatam dificuldades crescentes em encontrar trabalhadores para actividades ligadas à lavoura e criação de gado.
Conforme relataram, há terrenos que permanecem por cultivar, trabalhos adiados e produtores obrigados a reduzir actividades por falta de mão-de-obra.
O agricultor João Tavares, disse à Inforpress que a realidade no campo mudou muito nos últimos anos, lembrando que antes era comum encontrar jovens disponíveis para trabalhar na agricultura, mas hoje quase todos procuram sair do país ou preferem outras actividades.
A mesma preocupação é partilhada com Pedro Silva, criador de gado, para quem a falta de trabalhadores já começa a afectar directamente a produção.
“Muitas vezes precisamos de ajuda e não conseguimos encontrar pessoas”, afirmou.
No sector das pescas, a realidade não é diferente. O pescador António Barbosa afirmou à Inforpress que a saída de muitos jovens para o exterior tem provocado falta de mão-de-obra nas comunidades piscatórias, situação que já deixa várias embarcações paradas por falta de pessoas para trabalhar no mar
Apesar do aumento da presença de imigrantes em Cabo Verde, sobretudo vindos de outros países africanos, poucos acabam por entrar nos sectores tradicionalmente ligados ao esforço físico e ao meio rural.
Em Assomada, Lamine proprietário de uma loja de produtos africanos, telemóveis e acessórios, disse que chegou ao país já com a ideia de investir no comércio, realidade que, segundo explica, é comum entre muitos imigrantes.
À Inforpress, contou que grande parte dos estrangeiros prefere procurar meios de subsistência ligados ao pequeno negócio e aos serviços, áreas que considera “mais acessíveis e com maior possibilidade de rendimento”.
No caso dos transportes públicos, explicou que muitos imigrantes acabam por não conseguir entrar no sector devido às dificuldades ligadas à legalização da carta de condução.
Segundo disse, as cartas dos países de origem não são válidas em Cabo Verde, obrigando os estrangeiros a fazer um novo processo, muitas vezes dificultado pela língua e pelos custos.
Também Adja Fall, cabeleireira imigrante, disse que chegou ao arquipélago com o objectivo de trabalhar por conta própria, e hoje mantém o seu pequeno espaço de beleza e admite nunca ter pensado em trabalhar na agricultura ou pecuária.
Enquanto os centros urbanos mostram uma presença cada vez mais visível de imigrantes no comércio e nos pequenos empreendimentos, o interior agrícola continua a perder força de trabalho, num contraste que começa a preocupar produtores e operadores do sector.
Pedro Silva reconheceu, em declarações à Inforpress, que a falta de mão-de-obra representa, actualmente, um dos maiores desafios do sector primário, sobretudo nas zonas rurais, onde a emigração continua a reduzir a população activa.
Entre quem parte à procura de melhores oportunidades e quem chega com projectos diferentes, os sectores tradicionais permanecem com uma necessidade cada vez maior de braços para continuar a funcionar.
DV/HF
Inforpress/Fim
Partilhar