
Pedra Badejo, 15 Out (Inforpress) - Felicidade Garcia Silva, conhecida por “Sãozinha” nas localidades de Ribeirão de Almasso e Chão Grande, no concelho de Santa Cruz, é reconhecida como um símbolo de resiliência da mulher rural cabo-verdiana, num percurso marcado por exigências e superação.
Agricultora de profissão, Sãozinha acumula também as funções de animadora social e de presidente da associação de agricultores e pecuaristas da zona, destacando-se como uma voz activa na busca por autonomia e desenvolvimento para as mulheres da comunidade.
Apesar do seu empenho na produção agrícola e pecuária, a líder associativa revelou à imprensa que o maior entrave ao crescimento económico de Ribeirão de Almasso e Chão Grande reside na falta de acessibilidades, sublinhando que a ausência de uma estrada transitável sufoca o escoamento dos produtos e mantém o vale isolado.
“O isolamento a que estamos restringidos é severo, pois produtos de excelência, como a banana, ficam encravados na localidade sem possibilidade de comercialização”, lamentou, acrescentando que, nos períodos de chuva, a lama inviabiliza a circulação tanto a pé como por viaturas.
Perante as dificuldades de falta de transportes, as mulheres, conforme Sãozinha, vêem-se obrigadas a caminhar cerca de três quilómetros transportando cargas pesadas à cabeça.
Contudo, a mulher que rompeu barreiras e lidera uma associação composta por 46 agricultores, na sua maioria homens, asseverou que a liderança tradicional ainda está centrada na figura do homem.
A sua trajectória na direcção começou em 2019 como presidente do Conselho Fiscal, cargo que desempenhou durante dois anos antes de ascender à liderança da associação.
“O caminho tem sido exigente, marcado pela necessidade de gerir as contradições, as imposições e o protagonismo historicamente enraizado nos homens. Contudo, através da luta e da persistência, as mulheres têm conquistado o seu espaço e demonstrado a sua capacidade de gestão da terra e das dinâmicas comunitárias”, enfatizou.
Neste particular, afirmou que a comunidade enfrenta ainda desafios burocráticos, sublinhando que, desde Novembro do ano passado, mais de 30 agricultores da zona, incluindo a própria, ficaram excluídos das listas de apoio do Governo.
Face a esta exclusão, deixa um apelo às autoridades para que façam um acompanhamento mais próximo no terreno, de forma a identificar quem realmente precisa de apoio para poder superar as crises.
Homenageada publicamente no âmbito do Dia Internacional das Mulheres Rurais, Felicidade Garcia Silva encarou a distinção como “uma luz ao fundo do túnel” e um reconhecimento inédito para as mulheres de Ribeirão de Almasso e Chão Grande, historicamente arredadas de iniciativas de género.
“As homenagens são gratificantes. Representam o olhar de uma instituição ligada à comunidade rural. A mulher é a alavanca da sociedade, quem assume o trabalho mais duro e árduo”, concluiu, expressando gratidão ao Ministério da Agricultura, Desenvolvimento Rural e Pescas pela distinção.
PC/CP
Inforpress/Fim
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