REPORTAGEM: Avós trocam descanso da reforma pela educação de uma nova geração

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REPORTAGEM: Avós trocam descanso da reforma pela educação de uma nova geração
24/07/26 - 01:45 pm

***Por Sandra Custódio, da Agência Inforpress***

Cidade da Praia, 24 Jul (Inforpress) – Mulheres na casa dos 60 e 70 anos, entre o afecto incondicional e o desgaste físico, assumem o quotidiano dos netos perante a exigência dos horários de trabalho dos filhos, a emigração e as lacunas nas respostas sociais.

A reforma planeada para o descanso, a tranquilidade e os projectos pessoais deu lugar a mochilas escolares, trabalhos de casa ao fim da tarde e rotinas de pediatria.

Em depoimentos marcados por histórias de amor, afecto e dedicação, várias avós partilharam com a Inforpress o impacto deste recomeço.

Para um número crescente de mulheres entre os 60 e os 70 anos, a terceira idade não trouxe o recolhimento esperado, mas sim o recomeço de uma “maternidade repetida” que as coloca no centro da educação diária dos netos.

A transição acontece frequentemente de forma silenciosa e gradual, motivada pela incompatibilidade dos horários de trabalho dos pais, exigências profissionais rigorosas, processos de imigração ou imperativos económicos.

O resultado é um papel que vai muito além do tradicional “mimar”, na medida em que estas avós assumem a gestão directa do quotidiano, da disciplina e da estabilidade emocional de uma nova geração.

Para os especialistas em sociologia, esta dependência crescente da figura maternal sénior reflecte transformações profundas na estrutura social, no mercado de trabalho e nas dinâmicas migratórias contemporâneas.

O sociólogo Henrique Varela enquadra a situação lembrando que “a única característica permanente da sociedade é a mudança”, sendo necessário analisar o contexto em que as famílias vivem hoje, onde muitos pais se veem forçados a sair do país em busca de sustento, formação ou melhores condições económicas.

“Com este fluxo migratório, com as mães à procura de sustento, de melhores oportunidades de trabalho para ter mais recursos económicos ou até para prosseguir os estudos, este acaba por ser um factor determinante na educação da geração de hoje, que cresce sob os cuidados dos avós”, explica Henrique Varela.

A mesma fonte sublinha que este modelo surge como uma estratégia de sobrevivência e sustentabilidade das famílias jovens, mas alerta para o choque geracional e pedagógico inerente a este processo.

“É quase uma terceira geração a educar uma geração primeira”, observou, salientando que a ausência física dos progenitores pode deixar marcas no percurso da criança.

“É um cuidado que, às vezes, não espelha bem aquilo que devia ser o acompanhamento por parte dos progenitores, sobretudo da mãe. Essas crianças podem crescer com algum défice afectivo, o que pode influenciar o comportamento e manifestar-se no desinteresse pelos estudos ou na própria convivência social, em comparação com crianças que vivem num ambiente com a presença da mãe e do pai, uma geração mais actualizada com o mundo de hoje”, referiu.

Para reverter esta tendência, Henrique Varela aponta para a criação de oportunidades económicas locais e para o reforço da responsabilidade parental.

Segundo o especialista, havendo oportunidades de trabalho no país e maior responsabilidade materna e paterna, as crianças acabam por crescer no seio familiar com a mãe e com o pai, sem a necessidade de ficarem sob os cuidados dos avós e sem que os pais precisem de viajar.

Se o amor intergeracional é descrito como incondicional, as exigências físicas e mentais de educar na maturidade fazem-se sentir com maior gravidade no dia a dia destas mulheres.

Aos 65 anos, Maria dos Anjos viu o seu ritmo diário mudar radicalmente quando passou a cuidar dos dois netos, de 6 e 9 anos, para que a filha pudesse fixar-se no estrangeiro em busca de melhores condições de vida.

Em entrevista à Inforpress, relatou a dificuldade de conciliar o carinho familiar com a perda do seu tempo pessoal.

“Pensava que aos 65 anos iria descansar, viajar e ter tempo para mim. Hoje levo os meus netos à escola, acompanho os trabalhos de casa e preparo o jantar enquanto a mãe deles luta no estrangeiro para nos sustentar”, disse Maria dos Anjos, sublinhando ainda o impacto do ritmo diário na sua saúde física e na gestão das exigências modernas.

“O meu corpo já sente o peso dos anos, a paciência não é a mesma dos 30 e o ritmo do mundo digital deixa-me muitas vezes sem saber como agir. Mas o meu coração não sabe dizer que não”, confessa num misto de cansaço e carinho.

A tudo isto soma-se ainda a adaptação às novas tecnologias, aos métodos de ensino modernos e à velocidade do quotidiano infanto-juvenil, apontada como um dos principais desafios pelas entrevistadas.

Além do desgaste físico, surge a necessidade de gerir a saudade dos pais ausentes e de reaprender a impor limites numa era dominada por ecrãs e redes sociais.

Outro dilema central nesta dinâmica reside na indefinição dos papéis familiares, tornando difusa a fronteira entre o papel suave da avó - associado ao carinho, às autorizações especiais e à cumplicidade -, e o papel firme da mãe, quando a convivência passa a ser diária.

Rosa Maria, de 68 anos, que assume a educação do neto desde a infância, exemplifica a complexidade de equilibrar a autoridade necessária no dia a dia com a relação de afecto.

“Educar exige regras, e quem impõe regras nem sempre é a figura mais querida no momento”, salientou, admitindo ser difícil encontrar o equilíbrio entre ser a avó acolhedora e a pessoa que tem de dizer não ao ecrã e mandar deitar cedo.

Segundo os depoimentos recolhidos, o sentimento dominante entre estas mulheres reflecte um contraste permanente entre a satisfação de acompanhar o crescimento dos netos e a inevitável abdicação do tempo próprio conquistado após uma vida de trabalho.

Entretanto, apesar da sobrecarga emocional e física, estas mulheres, verdadeiras guardiãs do lar, realçam que a dedicação permanece intacta, afirmando-se como uma das principais bases de apoio e sustentabilidade do núcleo familiar.

SC/CP

Inforpress/Fim

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