PERFIL: Retrato do homem por trás do Prémio Camões, um Leão de 1,95m que se alimenta de memórias (c/áudio)

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PERFIL: Retrato do homem por trás do Prémio Camões, um Leão de 1,95m que se alimenta de memórias (c/áudio)
28/08/26 - 07:00 am

***Por: Sandra Custódio, da Agência Inforpress***

Cidade da Praia, 28 Ago (Inforpress) – O Prémio Camões Germano Almeida abriu o coração numa conversa intimista ao telefone, revelando o ser humano por trás das páginas, as memórias da infância, os rituais diários e a tranquilidade de quem encara a velhice sem medos.

Conhecido pelo charme, informalidade, contacto humano, notório também pelo seu espírito bem-humorado e apreço pelo contacto directo, o escritor não deixou de assinalar, entre risos, a sua preferência pelas conversas presenciais, confessando que as entrevistas ao telefone “não têm a mesma piada”, desafiando para um próximo encontro “vis-à-vis”, com o mar de São Vicente ou da Praia como cenário.

Quem olha para o homem de 1,95 metro e cerca de 120 quilos pode ver uma figura imponente, quase intimidadora. 

Mas basta dar-lhe a palavra para perceber que a sua verdadeira força está no humor fino, na ironia serena e na sensibilidade de quem já viveu o suficiente para não ter pressas nem falsas modéstias. 

Aos 81 anos e com mais de 20 livros publicados – 80 por cento (%) dos quais com raiz autobiográfica -, o Prémio Camões Germano Almeida abriu o seu coração revelando o “animal de campo” que descobriu a imaginação. 

Nascido na Boa Vista em 31 de Julho de 1945, Germano Almeida é do signo Leão - o mesmo símbolo do seu clube do coração, o Sporting -, embora confesse não ligar muito a astrologia, tendo crescido numa família de classe média, onde, na infância, se chegavam a fazer cinco ou seis refeições diárias.

“A minha infância na Boa Vista foi o período mais agradável da minha vida. A casa dos meus pais ficava no fim da vila e, assim que saíamos à rua, estávamos no mato. Vivíamos como os animais do campo, completamente livres. Mas a dada altura descobri a leitura e o mundo que a imaginação podia dar. A minha mãe até me obrigava a sair de casa para ir andar, mas eu só queria estar lá dentro com as personagens que ia conhecendo e criando”, recordou.

Já a juventude levou-o a desempenhar tarefas simples, como ajudante de carpintaria, antes de ser incorporado na tropa portuguesa aos 18 anos, passando por Tavira, Évora, Lisboa e o cenário de guerra em Angola. 

Conta que a falta de apetite pela disciplina militar lhe rendeu punições e o envio para o mato, onde viveu “uma vida de quase civil”, até que, cumprido o serviço militar, se fixou em Luanda para fazer o sétimo ano e, mais tarde, graças a uma bolsa de estudos da Fundação Calouste Gulbenkian, se licenciou em Direito em Lisboa.

Hoje, a vida de Germano Almeida faz-se a um ritmo desacelerado, contada a partir do seu escritório em São Vicente, o local onde passa cerca de 16 horas por dia entre livros, jornais online, séries da Netflix e a contemplação do sol a pôr-se sobre o Monte Cara.

Levanta-se por volta das seis da manhã, cumpre o ritual de leitura até ao almoço, faz uma pausa de meia hora na sua cadeira de descanso e regressa à secretária. 

A culinária é outra das suas memórias afectivas, tendo aprendido a cozinhar com a mãe, confessa que sabe fazer pratos e doces como ninguém, embora hoje prefira a simplicidade. 

Embora já não se considere o “bom garfo” de outros tempos, a sua refeição predilecta continua a ser a tradicional cachupa, que aprecia hoje sem excessos para evitar desconfortos.

Dantes, o homem de 1,95m e 120 quilos caminhava todos os dias, mas admite que a pandemia e uma “certa preguiça” o acomodaram, revelando que depois do Direito e da escrita, nunca mais trabalhou na vida. 

“Faço-o porque amo, por isso considero o meu tempo todo livre”, atira com bonomia.

Apesar de casado há décadas com Filomena Figueiredo - dez anos mais nova do que ele, porque, como brinca, os homens envelhecem mais rápido e precisam de quem cuide deles -, pai de seis filhos, cinco mulheres e um homem, e avô babado, o escritor faz uma revelação curiosa sobre as suas relações sociais.

“Convivo muito melhor com mulheres do que com homens. Tenho um espírito em grande parte feminino. Se tenho 50 amigas, sou capaz de ter quatro ou cinco amigos. Talvez por isso tenha ficado com a fama de ter muitas namoradas, mas para mim o diálogo com as mulheres é simplesmente mais fácil”, confessa.

Embora a sua imponência física sirva por vezes para se impor pacificamente, Germano não esconde as suas vulnerabilidades, revelando que o seu maior medo é o mar - um trauma antigo de infância -, reforçado por um problema de visão não diagnosticado até aos 60 anos, que lhe provocava a sensação de sufoco ao mergulhar.

“Às vezes basta levantar-me para as pessoas perceberem que estão a mexer com um homem de um metro e noventa e cinco e 120 quilos”, conta entre gargalhadas, assinalando que outra marca funda na sua memória foi a tragédia do naufrágio na Boa Vista, ocorrido quando tinha 15 anos. 

“Foi muito doloroso para todos nós. Anos mais tarde, escrevi uma história sobre isso e só assim consegui libertar-me do peso dessa lembrança”, confessa.

Além disso, questionado se é daqueles que pensam que o homem não chora, o escritor admite sem pudores que o choro é um acto de profunda humanidade.

“O homem é gente. A gente sente, sofre e as coisas doem. O chorar deve provocar uma reacção, por isso não há vergonha nenhuma em chorar”, concretiza.

Por outro lado, confrontado com a velhice e com problemas de saúde que o levaram a intervenções cirúrgicas delicadas ao coração, Germano Almeida encara o corpo com o pragmatismo de quem prefere não se queixar. 

Diz que não teme a morte e prefere olhar para as decepções como lições da dialéctica da natureza.

A própria entrevista revelou pequenos episódios da sua personalidade vincada, referindo que no próprio dia da conversa telefónica, afectado por uma febre recente provocada pela covid-19, chegou a expulsar do jardim um rapaz que o foi incomodar, só para depois ser assaltado por um “peso de consciência terrível” e compensar o jovem dias mais tarde com dinheiro e um livro. 

Na recta final do diálogo, o escritor volta a referir, com o carisma habitual, que as entrevistas ao telefone “não têm piada nenhuma”.

Advogado de profissão e co-fundador da emblemática revista Ponto & Vírgula, Germano Almeida construiu uma das carreiras mais sólidas e celebradas da literatura de língua portuguesa. 

Celebrizou-se pelo tom humorístico, irónico e desmistificador com que retrata a sociedade cabo-verdiana, tendo alcançado reconhecimento internacional em 1989 com o romance “O Testamento do Sr. Nepomuceno da Silva Araújo”, obra adaptada ao cinema. 

O culminar dessa caminhada aconteceu em 2018, quando foi distinguido com o Prémio Camões, o mais importante galardão literário da lusofonia.

Com a simplicidade de quem já atingiu o topo, o autor desvaloriza a obsessão pela posteridade.

“Nunca me preocupei com o legado. Se os meus livros forem úteis para o país, fico contente. Mas para mim o essencial é o que deixo para os meus netos. Tenho uma neta de 11 anos que me diz: Avô, não quero que morras. E eu respondo-lhe: Nunca vou morrer enquanto tu te lembrares de mim”, concluiu.

SC/HF

Inforpress/Fim

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