PERFIL/Ondina Ferreira: Pioneira que nasceu em alto mar e moldou a história e a cultura de Cabo Verde (c/áudio)

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PERFIL/Ondina Ferreira: Pioneira que nasceu em alto mar e moldou a história e a cultura de Cabo Verde (c/áudio)
27/05/26 - 09:00 am

*** Por Sandra Custódio, da Agência Inforpress ***

Cidade da Praia, 27 Mai (Inforpress) - A trajectória da professora, escritora e ex-governante cabo-verdiana Ondina Maria Duarte Fonseca Rodrigues Ferreira, que em Agosto completa 80 anos, assemelha-se a um romance histórico. 

Primeira mulher a integrar um governo em Cabo Verde, Ondina Ferreira carrega uma vida marcada pelo pioneirismo, pela efervescência política do 25 de Abril, em Portugal, pela dureza do pós-independência na Guiné-Bissau e por “um compromisso inabalável” com a educação e a riqueza interior do ser humano.

Esta conversa intimista revela o outro lado da cidadã, professora e escritora, uma oportunidade para descobrir que a sua singularidade se manifestou logo no primeiro instante de vida, ao vir ao mundo, em pleno alto-mar.

O parto ocorreu a bordo do paquete Guiné, durante uma viagem de Porto Grande (São Vicente), para Lisboa (Portugal), tendo o comandante do navio improvisado uma maternidade fechando o salão principal. 

Numa escala forçada no Funchal, o seu pai desembarcou para comprar as primeiras vestes da recém-nascida, que acabaria por ser registada a bordo e, mais tarde, baptizada na Igreja de São Sebastião da Pedreira, em Lisboa.

A sua infância e adolescência dividiram-se entre Mindelo, terra natal da mãe, marcada por uma família altamente escolarizada e de forte pendor académico, e os Mosteiros, na ilha do Fogo, terra do pai, proprietário de cafezais. 

Dessa vivência rural e equilibrada, Ondina herdou os três pilares que norteiam a sua existência, designadamente a escola, a cultura e o bom relacionamento com o próximo. 

“A minha mãe dizia que o que vestíamos eram apenas trapos para cobrir a nudez, que o que importava era a riqueza interior, o que estava na nossa cabeça”, evoca esta mulher de tez clara, fala mansa e “português alfacinha”.

Aos 10 anos, Ondina deixou o Fogo para estudar no Mindelo, transitando depois para a cidade da Praia e, finalmente, para Lisboa, onde concluiu o liceu e se licenciou em Filologia Românica na Faculdade de Letras. 

Na capital portuguesa, viveu a efervescência cultural dos anos 60 e 70, frequentando o teatro e as sessões clássicas de cinema de autor francês e italiano nos cinemas Império e Tivoli. 

Foi também nesse ambiente universitário que adquiriu o estatuto de estudante-trabalhadora na área da meteorologia e conheceu o marido, Armindo Ferreira, então estudante no Instituto Superior Técnico. 

O casal testemunhou na primeira linha a Revolução dos Cravos, a 25 de Abril de 1974, e o marido que realizava um curso de repórter fotográfico na RTP, foi impedido de entrar nas instalações do Lumiar por militares naquela madrugada. 

“Ele voltou a correr e disse-me, liga a rádio, está-se a dar uma revolução”, narra Ondina, recordando com nitidez a descida do Saldanha até à Baixa pombalina, misturando-se com o “mar de gente” e assistir à colocação dos cravos vermelhos nas baionetas dos militares.

Embalada nas suas recordações, conta que pouco após a revolução a família viajou para a Guiné-Bissau para “um reencontro dramático” com seus sogros que tinham ficado isolados e detidos no interior, em Conacri, após a sua residência e armazém em Cadique terem sido dinamitados durante a guerra de libertação. 

A viagem de jipe até Conacri foi assegurada pelo comandante Herculano Vieira, pai da cantora Nancy Vieira, e por figuras como Honório Chantre.

Segundo Ondina Ferreira, o reencontro foi “de tamanha carga emocional” que a sua sogra desmaiou, necessitando de assistência de um médico cardiologista russo que servia a logística do PAIGC.

Fixados em Bissau, onde leccionou no Liceu Kwame N'Krumah e deu à luz ao seu segundo filho, o casal deparou-se com o “ambiente sufocante e autocrático” do regime de Luís Cabral, em que qualquer palavra era motivo de chamada ao quartel.

Por outro lado, face à escassez extrema e ao ambiente de risco político, Ondina Ferreira recorda que foram os próprios sogros a encorajá-los a partir, uma decisão que culminaria, em 1979, na fixação definitiva da família na cidade da Praia.

Em Cabo Verde, assumiu a Direcção-geral da Educação (1982-1984) e, mais tarde, rumou aos Estados Unidos para concluir um mestrado na School of International Education, na Universidade de Massachusetts Amherst, regressando em Outubro de 1990, em plena efervescência da abertura democrática cabo-verdiana.

Convidada a integrar as listas do Movimento para a Democracia (MpD) como cabeça de lista pelos Mosteiros, fez história em 1991 ao ser nomeada por Carlos Veiga como a primeira mulher a integrar um governo em Cabo Verde. 

Ocupou primeiro a pasta de secretária de Estado da Promoção Social, função que recorda como a mais gratificante, pelo impacto directo junto das franjas mais vulneráveis, toxicodependentes e famílias numerosas e, posteriormente, os cargos de ministra da Cultura e ministra da Educação. 

Em 1996, foi eleita deputada, assumiu a primeira vice-presidência da Assembleia Nacional.

A sua passagem pela política activa terminou em 2001, por entender que o rumo do processo partidário já não estava correcto. 

Afastou-se da vida partidária, assumiu o estatuto de independente e regressou à sua grande paixão, isto é, o ensino. 

Leccionou no Instituto Superior de Educação (ISE), foi presidente do Instituto Internacional da Língua Portuguesa (IILP) e aposentou-se já como docente da Universidade de Cabo Verde (Uni-CV).

Entretanto, atrás do perfil da estadista e académica, esconde-se uma faceta doméstica bem-disposta, pois, Ondina confessa, entre risos, que sempre foi “desajeitada para a culinária”. 

Lembra-se que na juventude, nos Mosteiros, enquanto a sua mãe insistia para que aprendesse a cozinhar, ela preferia fugir para o mar ou refugiar-se no quarto a ler romances. 

“Perdi a oportunidade com a minha mãe”, brinca, relatando que a salvação, foi ter casado com um verdadeiro cozinheiro, pois, nos primeiros anos de matrimónio, era o marido quem assumia os tachos, as sobremesas e os jantares para as visitas, e até hoje, conta, os filhos e os netos preferem abertamente a comida do avô. 

“Ele faz boas cachupas, boas feijoadas e bom cabrito”, precisou, divertida, referindo-se que assume o comando da casa nas limpezas, orgulha-se da sua grande especialidade que é o arroz com atum e arroz de marisco, entretanto, actualmente, por influência saudável do marido, o peixe tornou-se o prato predilecto do casal.

Afastada das salas de aula, Ondina Ferreira dedica-se hoje inteiramente à escrita, tendo publicado meia dúzia de livros, além de crónicas de opinião nos jornais e no seu blogue, Coral Vermelho. 

Divide o tempo entre a redacção de um prefácio para o poeta Joaquim Saial, meditando também no cumprimento de uma promessa de honra feita ao antigo Presidente da República, António Mascarenhas Monteiro, três dias antes de este falecer, de escrever as suas memórias biográficas.

Questionada sobre o legado que gostaria de deixar ao país, a antiga ministra é categórica na defesa do resgate da qualidade do sistema de ensino cabo-verdiano. 

“Gostaria que Cabo Verde trouxesse de volta a boa escola, que formasse cidadãos culturalmente civilizados. Hoje, a escola tornou-se muito mecânica, transmite apenas instrução, e às vezes muito mal. Falta a educação cidadã, o saber-se estar e o saber-se ser, que nós já tivemos e que é o principal motor de desenvolvimento dos nossos recursos humanos”, lamentou.

Casada há 57 anos com Armindo Ferreira, uma união que define basear-se numa “profunda amizade, cumplicidade e no respeito absoluto pelo espaço e individualidade do outro, sem espaço para ciúmes”, Ondina Ferreira é mãe de dois filhos, uma advogada e um médico, e avó de cinco netos, tendo o orgulho de já ver as duas netas mais velhas formadas em Direito e Cirurgia Médica.

Prestes a entrar na casa dos 80 anos, recusa celebrações faustosas, preferindo um almoço singelo em família em Portugal. 

Define-se como uma cidadã que cultiva o respeito pelo outro e a simplicidade, o seu refúgio favorito permanece o escritório, rodeada de livros, interrompido apenas ao fim do dia para uma caminhada de cerca de duas horas no passeio marítimo do Palmarejo, na cidade da Praia, na companhia do seu grupo de amigas.

Se o destino não a tivesse conduzido à Filologia Românica por conselho da sua antiga professora Gabriela Mariano, o seu sonho de juventude teria sido o Conservatório Nacional para ser actriz de teatro. 

Porém, no palco da vida real, Ondina Ferreira desempenhou o papel principal na escrita de algumas das páginas mais marcantes da história contemporânea de Cabo Verde.

SC/AA

Inforpress/Fim

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