
Cidade da Praia, 27 Ago (Inforpress) – O batuque, a tabanca, o funaná, a emigração e outras referências da cultura cabo-verdiana ganham novas formas na exposição “Ocultação”, do artista plástico Paulo Rosa, numa proposta que cruza memória, identidade e arte contemporânea.
Com 17 obras, a exposição encontra-se patente a partir de hoje na Câmara Municipal da Praia, até ao final deste mês, e convida o público a descobrir, entre figuras, cores e formas, diferentes leituras da identidade e da cultura cabo-verdiana.
“O próprio título da exposição é ‘Ocultação’, como uma mistura de sibites, qualquer coisa relacionada com forças misteriosas que actuam na mente humana”, explicou Paulo Rosa à Inforpress.
Nascido na cidade da Praia, em 1969, o artista construiu um percurso ligado às artes plásticas e à formação artística, com estudos de arte em Portugal e experiências como professor de pintura e coordenador de workshops e cursos.
Na exposição, recupera elementos da cultura cabo-verdiana e apresenta-os através de uma linguagem contemporânea, com o propósito de aproximar diferentes gerações da criação artística.
“Os temas são bem relacionados com os tradicionais. O batuque, a tabanca, o coração de João, a emigração”, afirmou.
Através da pintura, Paulo Rosa revisita manifestações culturais que, em determinados períodos, enfrentaram resistência e perderam espaço na sociedade cabo-verdiana. Entre elas está a tabanca que, segundo o artista, chegou perto do desaparecimento antes de recuperar a visibilidade.
O batuque também ocupa um lugar na exposição, numa abordagem que procura preservar a ligação às raízes culturais e, ao mesmo tempo, acompanhar novas linguagens artísticas.
“A arte é também a própria época”, defendeu, considerando que o artista deve acompanhar a modernidade sem abandonar os elementos da sua realidade.
Entre as obras apresentadas está “Cotxipó”, inspirada na música e na dança modernas de Cabo Verde.
A relação entre realidade e imaginação constitui outra dimensão de “Ocultação”. As figuras humanas surgem entre diferentes camadas de cor e matéria, sem uma representação totalmente definida, deixando ao visitante espaço para construir a sua própria interpretação.
A aproximação às novas gerações acompanha também o percurso de Paulo Rosa, que durante vários anos se dedicou ao ensino da pintura em diferentes instituições do país.
“Estou feliz por ver novas gerações com trabalhos artísticos modernos”, afirmou o artista, que defende a continuidade da criação e a renovação das formas de expressão.
Com várias exposições realizadas em Cabo Verde e na diáspora, Paulo Rosa recebeu distinções no domínio das artes plásticas, entre as quais o primeiro prémio num concurso nacional de pintura e um Diploma de Mérito Cultural atribuído pelo Ministério da Cultura.
Actualmente, é membro da Comissão de Artes Plásticas da Sociedade Cabo-verdiana de Autores (SOCA) e mantém uma actividade artística independente.
Depois de “Ocultação”, o artista prepara novos projectos. Entre os planos estão possíveis exposições na Assembleia Nacional e num espaço localizado na zona da Trópico, além de convites para apresentar os seus trabalhos em São Vicente e Santa Maria.
Paulo Rosa admite ainda uma deslocação ao Ceará, no Brasil, com o propósito de levar a sua pintura a novos públicos e mostrar a dimensão universal de temas inspirados na realidade cabo-verdiana.
“A fim de poder mostrar aos outros povos a universalidade dos temas que também são pintados em Cabo Verde”, explicou.
Em “Ocultação”, Paulo Rosa parte de elementos reconhecíveis da cultura cabo-verdiana para construir uma linguagem que não se revela por completo ao primeiro olhar.
Entre figuras, cores e formas, cada visitante é convidado a descobrir aquilo que a pintura revela e o que permanece oculto.
KA/HF
Inforpress/Fim
Partilhar