
Maputo, 13 Ago (Inforpress) - Moçambique registou 552 violações graves contra 355 crianças em 2025, sobretudo em Cabo Delgado, segundo um relatório das Nações Unidas que alerta para raptos, recrutamento forçado, violência sexual e ataques contra escolas perpetrados por grupos insurgentes.
O mais recente relatório do secretário-geral das Nações Unidas sobre Crianças e Conflitos Armados, submetido em junho à Assembleia Geral e ao Conselho de Segurança da ONU, a que a Lusa teve hoje acesso, coloca Moçambique entre os países onde os menores continuam a sofrer consequências diretas da violência armada.
O documento reúne informações verificadas pela ONU em 2025 e a análise referente a Moçambique concentra-se nas províncias de Cabo Delgado e Nampula, onde a insurgência armada continua a afetar comunidades civis, em particular crianças, no contexto da violência perpetrada por grupos terroristas desde 2017.
Num plano global, descreve 2025 como um dos anos mais devastadores para crianças em zonas de conflito, com o relatório a referir que foram verificadas 38.558 violações graves em todo o mundo, afetando 24.174 crianças, o maior número desde o início do mecanismo de monitoria, apontando que “as violações contra crianças em conflitos armados atingiram níveis chocantes, com um número sem precedentes de crianças afetadas”, assinalando igualmente um aumento das mortes, mutilações, raptos e recrutamentos forçados.
No caso de Moçambique, a ONU verificou 552 violações graves contra 355 crianças, das quais 183 eram rapazes, 160 raparigas e 12 de sexo não identificado, tendo a esmagadora maioria dos casos ocorrido em Cabo Delgado, que concentrou 522 violações, enquanto a província vizinha de Nampula, palco de ataques insurgentes no ano passado, registou 30.
O recrutamento e utilização de menores continuam entre as principais preocupações, tendo o relatório indicado que 175 crianças foram recrutadas e usadas por grupos armados não estatais, tendo 103 conseguido escapar ou sido libertadas.
Foram ainda confirmados 326 casos de crianças sequestradas, incluindo 168 raptadas para fins de recrutamento e utilização armada, sendo que apenas 58 recuperaram posteriormente a liberdade. O relatório destaca que os sequestros continuam a ser um dos métodos mais utilizados pelos grupos armados para reforçar as suas fileiras e controlar comunidades locais.
A violência física é também destacada no relatório, com 15 crianças mortas ou mutiladas em 2025, no norte de Moçambique. Neste caso, segundo a ONU, 11 desses casos foram atribuídos a grupos armados não estatais, três a autores não identificados e um às Forças de Defesa da Tanzânia, que participam nas operações de combate à insurgência.
O relatório regista igualmente 23 casos de violência sexual contra crianças, envolvendo 22 raparigas e um rapaz, incluindo dez casos de casamento forçado. As Nações Unidas atribuem a maioria destas ocorrências aos grupos insurgentes, mas referem igualmente responsabilidades atribuídas às Forças Armadas de Defesa de Moçambique e à Unidade de Intervenção Rápida da Polícia da República de Moçambique.
O documento contabiliza ataques contra 12 escolas e um hospital em Cabo Delgado, confirmando ainda a utilização de uma escola pelas Forças Armadas de Defesa de Moçambique, observando que uma infraestrutura escolar permanecia ocupada por forças governamentais no final de 2025.
No relatório, António Guterres elogia a cooperação entre Moçambique e a ONU na proteção infantil, bem como a “cooperação contínua” com o Governo, incluindo na formação das forças de segurança: “Saúdo os progressos alcançados na elaboração de um protocolo de transferência para crianças anteriormente associadas a forças e grupos armados (...) e apelo à sua adoção e implementação pelo Governo”.
Ao mesmo tempo, manifesta preocupação com a continuação dos abusos, sublinhando estar “profundamente preocupado com a persistência de violações graves”, sobretudo o recrutamento e o rapto de crianças no norte de Moçambique.
Inforpress/Lusa
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