Moçambicanos deslocados pelo El Niño na Gorongosa preferem não voltar - OIM

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Moçambicanos deslocados pelo El Niño na Gorongosa preferem não voltar - OIM
30/07/26 - 09:47 am

Gorongosa, Moçambique, 30 Jul (Inforpress) – Mais de metade dos agregados familiares de Gorongosa, centro de Moçambique, continuam sem alcançar progressos duradouros após deslocações provocadas pela El Niño, apesar de quase todos pretenderem permanecer nas atuais zonas de residência, segundo estudo divulgado hoje pela OIM.

O relatório da Organização Internacional para as Migrações (OIM) avaliou 539 agregados familiares em Gorongosa, província de Sofala, incluindo 204 deslocados e 335 não deslocados. O distrito acolhia 670 agregados deslocados, correspondentes a 3.858 pessoas, oriundas sobretudo de Maringué, Caia e Chemba, que abandonaram as áreas de residência devido à seca associada ao El Niño de 2023/24.

Concluiu que 55% desses agregados permanecem numa situação de “baixo progresso” para soluções duradouras, apenas 15% apresentam um nível elevado e 30% estavam numa categoria intermédia: “Um percurso misto rumo a soluções duradouras, caracterizado por fortes intenções de permanência entre os deslocados, níveis relativamente positivos de integração comunitária e acesso à terra e a serviços essenciais de saúde, mas persistentes constrangimentos estruturais que afetam a estabilidade de longo prazo”.

A insegurança alimentar, a escassez de oportunidades económicas e as fragilidades no acesso a serviços básicos são desafios atuais. Metade das famílias é considerada severamente insegura do ponto de vista alimentar, proporção que sobe para 59% em Gorongosa-sede, e para enfrentar a escassez de alimentos muitas recorrerem a refeições menos nutritivas, reduzem porções ou saltam refeições.

“A insegurança alimentar continua a ser uma preocupação importante no distrito de Gorongosa”, lê-se.

Apesar das dificuldades, 99% dos deslocados afirmaram querer permanecer nos atuais locais, uma preferência "principalmente associada à perceção de que os locais atuais estão menos expostos a futuras secas, receberam chuva suficiente nos últimos anos e oferecem condições de vida comparativamente mais favoráveis”.

O relatório identifica diferenças significativas entre deslocados e comunidades anfitriãs, como no acesso à água potável, com 92% dos deslocados a terem acesso a fontes seguras, contra apenas 40% dos não deslocados. Ainda assim, 41% das famílias do distrito continuam sem acesso a água considerada segura para consumo.

Refere ainda que “alguns agregados deslocados relataram melhor acesso a serviços do que os agregados não deslocados”, situação observada em vários indicadores avaliados.

Na saúde, 94% dos agregados afirmaram ter acesso a unidades sanitárias, mas 78% declararam não possuir recursos suficientes para comprar medicamentos.

As dificuldades económicas marcam a realidade local, em que a agricultura de subsistência é a principal fonte de rendimento para 88% das famílias e apenas 15% cumprem os indicadores mínimos relacionados com emprego e meios de subsistência.

O relatório aponta a fragilidade das habitações, com 74% das famílias a viverem em casas incapazes de resistir a fenómenos meteorológicos severos e apenas 2% residem em construções feitas com materiais convencionais.

As conclusões enquadram-se num contexto mais vasto de deslocação interna em Sofala, que em julho de 2025 acolhia 17.790 famílias deslocadas, com 92.650 pessoas, entre os distritos de Buzi, Chibabava, Gorongosa, Caia e Marromeu.

Segundo a OIM, os fenómenos climáticos continuam a ser o principal motivo de deslocação no centro e sul de Moçambique. Em Sofala, 79% dos deslocados permaneciam nessa condição desde a passagem do ciclone Idai, em 2019, carecendo de intervenções articuladas de assistência.

“A limitada diversificação dos meios de subsistência, a insegurança alimentar severa, o acesso inadequado à água segura, a fraca frequência do ensino secundário, a reduzida inclusão financeira e a dependência generalizada de habitações incapazes de resistir a fenómenos climáticos severos continuam a expor deslocados e não deslocados a vulnerabilidades recorrentes”, conclui.

Inforpress/Lusa

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