
*** Por: José Maria Varela, da Inforpress***
Cidade da Praia, 14 Jun (Inforpress) – O escritor Daniel Ramos Mendes, autor dos livros Poemas da Noite I, O Moribundo e O Solitário, afirmou hoje que a procura de sentido e a reflexão sobre a condição humana constituem o eixo central da sua obra literária.
Licenciado em Filosofia pela Universidade de Brasília (UnB) e mestre em Filosofia Contemporânea pela Universidade Nova de Lisboa, Daniel Ramos Mendes explicou, em entrevista à Inforpress, que a literatura se tornou o espaço privilegiado para desenvolver as inquietações filosóficas que o acompanham desde a juventude.
Professor de Filosofia, profissão que considera uma das suas missões e horizontes de sentido, o autor definiu-se como uma pessoa inquieta, atenta ao mundo que a rodeia e permanentemente motivada pela necessidade de compreender a realidade e a si próprio.
Nascido em Achada de Santo António, Brasil, filho de gente ligada ao porto da Praia, a 28 de Outubro de 1977, Daniel Mendes referiu ainda que, para além da escrita e da docência, encontra satisfação na convivência com a família e os amigos, bem como na leitura, actividade que considera um dos maiores prazeres da sua vida.
O interesse pela literatura surgiu por volta dos 12 anos, quando frequentava a biblioteca da Embaixada de Portugal, em Achada Santo António, na cidade da Praia.
Segundo explicou, foi naquele espaço que descobriu um vasto universo literário e desenvolveu uma paixão particular pela poesia, apesar de nem sempre compreender plenamente os textos que lia devido à sua idade.
Recordou que começou a escrever ainda na adolescência, período marcado por uma intensa inspiração poética que o levou a produzir dezenas de poemas.
Embora tenha perdido esses primeiros escritos, afirmou que permaneceu nele a necessidade de se expressar através da palavra escrita, transformando pensamentos e experiências em criação literária.
Sobre a influência da filosofia na sua produção literária, explicou que a sua formação académica marcou profundamente a forma como escreve, considerando mesmo que a literatura é a via que escolheu para filosofar.
Entre os autores que mais contribuíram para a sua formação intelectual e literária, destacou Franz Kafka, Miguel de Cervantes, Vergílio Ferreira, José Saramago e Friedrich Nietzsche.
Relativamente a Saramago, recordou que o primeiro contacto ocorreu aos 16 anos, através da leitura de Memorial do Convento, inicialmente encarada com dificuldade, mas que viria a transformar-se numa admiração profunda pelo estilo do escritor português.
Referiu igualmente a forte influência de Nietzsche, autor sobre o qual realizou trabalhos académicos tanto na licenciatura como no mestrado, sublinhando que a filosofia nietzschiana atravessa as três obras que publicou até ao momento: Poemas da Noite I, O Moribundo e O Solitário.
A propósito de “O Solitário”, obra distinguida com o Grande Prémio Literário da Sociedade Cabo-verdiana de Autores (Soca), explicou que o livro nasceu da intenção de explorar, através da literatura, a figura de alguém que procura afastar-se, temporariamente, da vida quotidiana e da pressão da colectividade para se encontrar consigo mesmo.
Segundo o autor, a montanha, elemento central da narrativa, simboliza esse espaço de recolhimento e de busca interior, onde o indivíduo pode aspirar a uma existência mais autêntica.
Acrescentou que a obra dialoga com referências filosóficas e literárias como “Assim Falava Zaratustra”, de Nietzsche, e a Alegoria da Caverna, de Platão, através da valorização da superação pessoal e da afirmação da individualidade.
Daniel Ramos Mendes explicou que os temas da solidão, da memória e da procura de sentido para a existência surgem frequentemente na sua escrita porque representam algumas das questões fundamentais da condição humana.
Na sua perspectiva, o ser humano não possui uma essência previamente definida, sendo chamado a construir-se através das escolhas que realiza ao longo da vida.
Neste contexto, afirmou que procura explorar literariamente aspectos como a finitude, a morte, o sofrimento, a decadência e a responsabilidade individual perante a própria existência, temas que considera incontornáveis para qualquer reflexão sobre o ser humano.
Questionado sobre a presença de elementos autobiográficos em “O Solitário”, admitiu que algumas experiências pessoais podem servir de matéria-prima para a criação literária, embora sejam posteriormente transformadas pela imaginação e integradas num universo ficcional mais amplo.
Relativamente à personagem principal da obra, explicou que foi concebida para representar o ideal de uma existência autêntica, consciente da sua liberdade e da responsabilidade de viver a própria vida sem se deixar absorver completamente pelas convenções e expectativas impostas pela sociedade.
Segundo o escritor, a principal mensagem que pretende transmitir aos leitores é a importância da busca interior e da autenticidade, incentivando cada pessoa a procurar um sentido próprio para a sua existência.
Sobre o reconhecimento alcançado pela obra e a atribuição do Grande Prémio Literário da Soca, afirmou ter recebido a distinção com satisfação e gratidão, embora considere que a maior recompensa para qualquer escritor seja encontrar leitores capazes de recriar e enriquecer a obra através da leitura.
A dimensão reflexiva presente nos seus textos, acrescentou, resulta de uma opção consciente.
Para Daniel Mendes, a literatura possui uma liberdade expressiva capaz de ampliar os horizontes da compreensão humana e de revelar aspectos da realidade que dificilmente poderiam ser alcançados por outros meios.
Defendeu igualmente que a literatura desempenha um papel importante na compreensão da condição humana, uma vez que permite aos leitores contactar com diferentes experiências, emoções, contextos sociais e visões do mundo, contribuindo para uma reflexão mais profunda sobre questões universais como o amor, a morte, a injustiça e o sentido da vida.
Entre os temas existenciais que mais o desafiam enquanto escritor, destacou a morte, a dor, o sofrimento, a identidade, a autenticidade e a procura de sentido, considerando-os elementos centrais da experiência humana.
Ao comparar O Moribundo com O Solitário, explicou que a primeira obra em prosa surgiu num período de grande intensidade criativa e se concentrou, sobretudo, em questões éticas e existenciais relacionadas com a moralidade da procriação, do suicídio e da eutanásia.
Já “O Solitário”, acrescentou, resultou de um processo de escrita mais exigente e amadurecido, permitindo-lhe consolidar um estilo literário próprio que pretende continuar a desenvolver nos seus futuros trabalhos.
Sobre os desafios enfrentados durante a elaboração da obra, afirmou que a principal dificuldade foi a crescente exigência que impõe a si próprio enquanto escritor, procurando sempre produzir textos com valor literário.
Ao analisar o actual momento da literatura cabo-verdiana, considerou que o sector atravessa uma fase particularmente dinâmica, impulsionada pelo surgimento de novos autores, pela diversificação temática e pelos incentivos proporcionados por prémios, festivais e outras iniciativas de promoção cultural.
Na sua opinião, os jovens escritores podem desempenhar um papel determinante na renovação da literatura nacional, através da experimentação de novas formas narrativas e da abordagem de temas contemporâneos, como a tecnologia, as alterações climáticas, a desigualdade social e a diversidade.
Questionado sobre a presença da identidade cabo-verdiana na sua obra, reconheceu tratar-se de uma questão complexa, observando que o seu projecto literário tem sido marcado sobretudo por preocupações de carácter universal, centradas nas grandes questões da existência humana.
Ainda assim, considerou que escrever em Cabo Verde implica dialogar com a realidade insular, com a convivência entre a língua portuguesa e a língua cabo-verdiana, com a experiência da diáspora e com os elementos históricos e sociais que moldam a visão do mundo dos cabo-verdianos.
Actualmente, revelou estar a trabalhar no seu primeiro livro de contos, uma obra bilingue em português e língua cabo-verdiana.
Aos jovens que aspiram publicar o primeiro livro, aconselhou perseverança, determinação e confiança no próprio trabalho, recordando que a publicação da sua primeira obra só aconteceu após vários anos de escrita.
Quanto à sua missão enquanto escritor, resumiu-a no desejo de, através das palavras, alcançar as dimensões mais profundas da experiência humana e promover uma reflexão permanente sobre o significado da existência.
JMV/HF
Inforpress/fim
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