
Cidade da Praia, 26 Ago (Inforpress) – A escritora e académica cabo-verdiana Mana Guta considera que ser africana e cabo-verdiana constitui uma “bênção e uma missão”, defendendo a preservação da cultura, da memória e dos conhecimentos transmitidos entre gerações.
A relação da escritora com essa herança está profundamente ligada à história familiar e às figuras que marcaram a sua infância, particularmente as avós, a bisavó paterna e outras mulheres da família.
Mana Guta recorda também um avô que, depois de ficar fisicamente incapacitado e cego, deixou de poder ir ao mar e passou a fazer redes de pesca.
A escritora considera que a identidade cabo-verdiana se constrói também através da memória, da língua e da arte, atribuindo particular importância ao papel das mulheres na transmissão dos conhecimentos familiares e culturais.
O conceito de “mátria”, presente na sua investigação académica sobre música, comunicação social e identidade nacional, está associado à reconfiguração da identidade nacional a partir do mundo feminino.
Segundo Mana Guta, a chamada geração dos Continuadores contribui para essa reconfiguração através da voz, da arte e da postura política, a favor da inclusão, da valorização da diversidade, do respeito pela dignidade da pessoa humana e da valorização das epistemologias do sul global. A partir do chão cabo-verdiano.
A língua ocupa igualmente um lugar central na sua reflexão. A escritora considera “organicamente saudável” a relação entre o português e a língua cabo-verdiana na produção literária. Sublinha que ambas as línguas de Cabo Verde são instrumentos de força.
Alerta para o fato de, contrariamente ao que comumente se defende, a valorização de cada uma das línguas de Cabo Verde só se efetivará, de fato, se tivermos em vista a promoção da outra. Portanto, a política de língua adequada será cumprir o artigo 9º da nossa Constituição da República.
A identidade cultural, observa, tornou-se também transversal a diferentes áreas da sociedade, dando como exemplo o futebol, que considera uma janela de visibilidade e de “retroalimentação” da identidade cabo-verdiana.
Quanto à globalização, entende que não pode ser classificada simplesmente como ameaça ou oportunidade, uma vez que tudo depende da forma como cada cabo-verdiano se posiciona e da capacidade de seleccionar aquilo que consome e reproduz.
“Acredito que a literatura e as outras formas de arte são a nossa esperança de um mundo melhor”, afirma, defendendo que o ser humano recebeu o dom de criar e de se realizar através da arte, sobretudo da palavra.
É nessa perspectiva de continuidade que identifica “Nhara Nobu” como a expressão que melhor define a sua obra, por representar a ligação aos que a antecederam e a responsabilidade de preservar e transmitir a herança recebida.
“Porque sou a continuidade dos que cá estiveram e a prova viva de que eles mereceram cá estar, porque sou a esperança de que uma gota será deixada da herança de dignidade e memória que, de graça, recebi”, explica.
Ao definir o legado que gostaria de deixar enquanto académica e escritora, Mana Guta resume essa responsabilidade numa convicção: “Ser africana e cabo-verdiana é uma bênção e uma missão”.
JMV/CP
Inforpress/Fim
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