
*** Por Sandra Custódio, da Agência Inforpress ***
Cidade da Praia, 29 Nov (Inforpress) –O “jovem nonagenário”, que dispensa apresentação, Orlando Mascarenhas, vive os 90 anos em pleno e encontra felicidade em tudo o que faz nesta jornada de vida, experiência e legado, onde a família é parte fundamental da sua vida.
Foi em casa desta figura elegante e bem-posta, aos 90 anos, que a equipa da Inforpress foi convidada a entrar para uma conversa sossegada, descontraída, na primeira pessoa, e com direito a um saboroso sumo de bissap, uma bebida refrescante e perfeita para dias quentes, como neste dia.
Durante este desabafo de vida com Orlando José Mascarenhas, nascido a 24 de Agosto de 1935, na Rua Dr. António Loreno, no Platô, deu para perceber que à medida que os anos vão passando, a bagagem, de facto, vai aumentando, e que para viver até a essa idade, é essencial adotar hábitos saudáveis e positivos para garantir saúde física, mental e uma boa qualidade de vida.
Filho de Federico José Mascarenhas e de Maria Nascimento Lopes Andrade, este homem de meia estatura, fala mansa, e bem-conceituado na sociedade cabo-verdiana e não só, ficou órfão de mãe aos dez anos e de pai algum tempo mais tarde, lutou com todas as forças e contra todas as marés, para ser um homem digno, com amor ao próximo, reflectindo o amor de Deus em suas acções.
Oriundo de uma família modesta, do interior de Santiago, Orlando Mascarenhas disse que a humildade leva a colocar as necessidades dos outros acima das nossas, e foi assim que tentou sempre levar a vida, porque ajudar o próximo dá-lhe satisfação.
Aliás, conforme confessou, ter frequentado a Igreja do Nazareno, na adolescência ajudou sobremaneira na sua formação pessoal e social, tanto assim é que se habituou, até hoje, a não beber, a não fumar, a respeitar e ajudar o próximo, dado aos ensinamentos aprendidos na igreja.
“Então, passámos a conhecer a Bíblia, os Evangelhos, e fizemos aquela vivência na igreja todos os domingos. Isso deu-me também, vá lá, uma performance a nível de conhecimentos cristãos e religiosos”, comentou Orlando Mascarenhas, que teve uma infância um pouco difícil, com as dificuldades naturais da época, e com a morte dos pais ficou quase que sozinho, embora aos cuidados das tias e avós.
Fez os estudos primários na Escola Grande, da primeira à quarta classe, depois do ensino primário fez a admissão, e foi fazer os estudos liceais em São Vicente, no Liceu Gil Eanes, precisamente no ano de 1947, o ano fatídico para Cabo Verde, pelo que teve de regressar para a Praia, porque os pais não tinham condições para ele continuar os estudos naquela ilha.
Assim, sem poder continuar os estudos, aos 12/13 anos procurou arranjar trabalho, tendo começado a trabalhar aos 15 anos, primeiramente numa casa comercial particular, com o sr. Eugénio, ali na Vila Nova, depois com o Sr. Abel Cruz, no Platô, até entrar para a Câmara Municipal como aprendiz auxiliar.
Ingressou no quadro desta instituição, mas para esse ingresso teve que estudar, fez o ciclo preparatório com boas notas, no ano seguinte, o curso geral dos liceus, o chamado quinto ano, também com boas notas, lembrando-se dos muitos amigos e colegas que estudaram juntos e de seus “bons professores”, Alfredo Veiga, Anastácio Filinto e Carlos Barbosa Amado que contribuíram para a sua formação académica.
Fez a sua vida na Câmara da Praia durante praticamente dez anos, depois desses dez anos candidatou-se e foi trabalhar no Banco Nacional Ultramarino, um banco português, sido, entretanto, colocado em missão na Guiné-Bissau.
“Não podia recusar, porque era um bom emprego na ocasião. Então, aceitei e viajei para Bissau. Nessa altura, já estava casado e a minha mulher estava para ter a minha primeira filha, a Ema, que acabou por nascer em Bissau”, recordou.
Esteve ali durante dois anos, onde ganhou “grandes experiências” e muitos amigos, tendo depois pedido transferência para a Praia, porque, conforme nota, a sua vivência estava ligada a esta cidade e queria sempre estar aqui, pelo que regressou, e continuou no Banco Nacional Ultramarino.
“Para mim, Bissau foi uma experiência muito grande. Primeiramente como desportista e depois como empregado do banco. Tive a oportunidade de percorrer a Guiné-Bissau de uma ponta à outra por causa, particularmente, do futebol”, relembrou, com lucidez espantosa, boa disposição, e o caminhar tão bem, não parece ter tanta idade.
Nas experiências vividas e as lições aprendidas ao longo do caminho, Orlando Mascarenhas teve sempre ao seu lado a sua esposa, Ema Mascarenhas, casados há 68 anos, “Bodas de Chumbo”, que representa um amor duradouro e resistente ao longo dos anos, pois, em um mundo em que tanta gente desiste tão facilmente, sustentar um casamento de quase sete décadas é para poucos.
Pai de sete filhos, cinco meninas e dois rapazes, vários netos e bisnetos, família grande e unida, segundo Orlando Mascarenhas, estas são a maior satisfação e a maior prenda que o casal tem, trazendo amor e alegria ao lar, à casa.
O “jovem nonagenário”, que dispensa apresentação, continua a primar pela sua saúde e alimentação, levanta-se cedo todos os dias, às 05:30 da manhã, vai fazer uma caminhada de Palmarejo até Quebra Canela, acompanhado pelas filhas, Ema e Edna.
Nunca para. Explica que mesmo nessa idade, continua dando a sua contribuição voluntariamente, a vários níveis, por exemplo, é presidente da Assembleia Geral da Fundação das Aldeias Infantis SOS, é também presidente da Academia Olímpica Cabo-verdiana, entre outras ocupações.
“Tudo o que fazemos tem de ter em conta o bem-estar e a necessidade dos outros, porque é a nossa preocupação permanente. Nós não somos nada sem o outro e a nossa relação humana com as pessoas foi sempre muito boa e a melhor”, manifestou.
Com uma carreira marcada pelo serviço público, empreendedorismo e envolvimento cívico e desportivo, várias condecorações e homenagens, Orlando Mascarenhas é uma figura de referência no panorama social e económico de Cabo Verde, cujo percurso não se consegue contar em poucas páginas.
“A gente não trabalhou para isso. São contribuições muito modestas, mas que tiveram o seu efeito na evolução do desenvolvimento nacional. É claro que quando surge uma homenagem, a gente fica contente porque há um reconhecimento desse trabalho”, observou.
Conversa puxa conversa, o homem que alcançou a marca de nove décadas de vida, memórias, conquistas e sabedoria acumuladas, que não se deixa impressionar nem se perturbar com os acontecimentos, foi-se embalando nas suas histórias, recordando algumas passagens entre tímidas gargalhadas.
Por exemplo, perguntado se teve muitas namoradas, respondeu esboçando um sorriso, que nem por isso, apenas alguns contactos, porque naqueles tempos, a vivência nesse aspecto era outra, casou-se muito jovem, tinha 22 anos e a mulher 18, uma diferença de 4 anos. “Estamos juntos há 68 anos, uma vivência com seus altos e baixos, mas a gente esteve sempre aí. Satisfeito com a minha vivência, não tenho razões de queixas, pelo contrário. E, como lhe disse, a minha satisfação maior é precisamente com os meus filhos, a minha família… isso é a parte fundamental de toda a minha vida”, enfatizou.
A culinária é uma arte que exige conhecimento, dedicação e paixão, mas esta, segundo Orlando Mascarenhas, é a parte “negativa” da sua vida, porquanto nunca aprendeu a cozinhar, pois a esposa é uma cozinheira de mão cheia e sempre cuidou desse aspecto.
“Então nunca me preocupei com isso, porque a minha mulher é uma grande cozinheira, muito interessada, então nesse aspecto… não é que não queira, mas nunca tive essa necessidade. Fui mal-acostumado. Nesse aspecto não estou modernizado”, justificou entre risos.
Satisfeito com a vida e de assistir o desenvolvimento e os “enormes avanços” do país, Orlando Mascarenhas diz-se muito grato por fazer parte dessa vivência.
“Aos 90 anos, estou preparado para tudo, para o que vier a acontecer. Estarei sempre satisfeito, porque penso que a minha missão está cumprida em certa medida”, exteriorizou.
No final, disse que gostaria que Cabo Verde pudesse fazer o que falta fazer, isto é, trabalhar para a igualdade, na medida do possível, no sentido de permitir o bem-estar às pessoas em dificuldades, suprir as suas necessidades em termos da alimentação, habitação …
“Penso que Cabo Verde precisa trabalhar ainda muito nesse aspecto. Gostaria que isso viesse a acontecer”, concluiu.
SC/JMV
Inforpress/Fim
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