
*** Por Latoya Tavares, da Agência Inforpress ***
Cidade da Praia, 28 Mai (Inforpress) - Helton Semedo, Simão Moreno, Josias Lima, Herminigildo Tavares e Edmara Cunha, jovens cabo-verdianos que deixaram o país em busca de melhores oportunidades, carregam histórias diferentes marcadas pelo mesmo dilema, construir uma vida mais estável ou regressar ao País.
Na sala de espera do Aeroporto Internacional Nelson Mandela, na Praia, em 2022, Helton Semedo, um jovem cabo-verdiano carregava mais do que uma mala, levava nas mãos a frustração de três anos como professor, salários baixos, incerteza e a sensação de que a vida estava parada.
Deixou Cabo Verde com destino a Portugal, mesmo com uma profissão e uma rotina construída ao lado dos seus alunos no município de São Lourenço dos Órgãos, sentia que precisava buscar novos horizontes.
A viagem que começou em Portugal levou-o depois aos Países Baixos e, mais tarde, à França, onde trabalhou na construção civil, mas não conseguiu adaptar-se devido à falta de documentação.
Mudou de emprego quatro vezes, viveu entre barreiras linguísticas e o desgaste de começar sempre do zero.
Hoje, três anos depois, Helton está de volta a Cabo Verde.
Regressou em 2025, trabalha remotamente para empresas internacionais nos Estados Unidos da América, fazendo a tradução dos cabo-verdianos quando vão às consultas, vive novamente perto da família e tenta concretizar um antigo sonho, o de criar uma escola de inglês.
Ainda assim, admite que o regresso não foi o final feliz que imaginava.
A história de Helton cruza-se com a de centenas de jovens cabo-verdianos que, nos últimos anos, deixaram o país à procura de oportunidades no exterior como crescimento profissional e autonomia, e que hoje vivem divididos entre permanecer na diáspora ou regressar a casa.
Herminigildo Tavares, carinhosamente tratado por Cris, terminou a licenciatura em Engenharia Electrotécnica na Universidade de Cabo Verde em 2020.
Pouco tempo depois, partiu para Portugal para fazer um mestrado em Engenharia do Ambiente.
Mas a decisão de emigrar não esteve ligada apenas à continuidade dos estudos, queria viver coisas novas, havia também outro motivo, senão a principal, a dificuldade de entrar no mercado de trabalho cabo-verdiano.
“Tentei contacto directo com algumas empresas e não tive retorno. Não fui bem recebido”, diz, hoje vive em Vila Real (Portugal), onde trabalha na área ambiental, mas admite que a ideia de regressar começa a ganhar força.
Enquanto dava a entrevista a esta agência de notícias, Cris se encontrava em Cabo Verde de férias, ao lado das famílias, amigos e pessoas próximas.
Simão Moreno, engenheiro informático formado pela Uni-CV, saiu inicialmente para Espanha, através do programa Erasmus, depois seguiu para Portugal, onde encontrou trabalho na área tecnológica.
Começou a trabalhar em Portugal em 2022, a receber o salário mínimo, em poucos anos, mudou de emprego três vezes e hoje ganha “cerca de três mil euros mensais”.
Simão lembra que chegou a trabalhar remotamente a partir de Cabo Verde durante dois meses, mas teve dificuldades constantes com energia e internet.
“Hoje a internet não é luxo. É algo básico”, defende Simão Moreno.
A ideia de uma Europa próspera e sem dificuldades continua presente no imaginário de muitos cabo-verdianos, mas, para quem vive no exterior, a realidade costuma ser mais complexa.
Josias Lima chegou a Portugal também em 2022, formado em Engenharia e Sistemas Informáticos, área de multimédia e tecnologias interativas, esperava encontrar melhores oportunidades profissionais.
Em Cabo Verde, disse que os contratos eram temporários e dependiam sempre de projectos curtos, ou seja, três a seis meses, sem vínculo laboral.
Quando chegou à Europa, encontrou trabalho na restauração dentro de uma escola.
Como diz, para muitos emigrantes o custo de vida tornou-se um peso inesperado, em Portugal, sobretudo nas grandes cidades, habitação, transportes e alimentação absorvem grande parte do salário.
“Há dias em que sentimos que não somos daqui nem de lá”, confessa um dos entrevistados.
Apesar do aumento do acesso ao ensino superior nos últimos anos, muitos jovens consideram que o mercado de trabalho cabo-verdiano não conseguiu acompanhar a formação académica.
Helton Semedo concorda, pois, para ele, continua a imperar o sistema de nepotismo para entrar em concurso na Administração Pública, “com apadrinhamento”.
Edmara Cunha, empreendedora cabo-verdiana radicada em Portugal, dona da marca de bonecas “Alkebulanis”, começou a olhar para o regresso de forma diferente ao longo dos anos.
“No início não pensava em voltar. Hoje tenho muita vontade”, descreve.
Emigrou sozinha também em 2022, motivada pelo desejo de independência e crescimento pessoal, encontrou acolhimento, apoio e novas experiências, mas também percebeu que a Europa real está distante da imagem idealizada.
“Conseguimos ver pessoas em situação que a TV não mostra, o sistema de saúde não é tão evoluído, em outras áreas também”, relata.
Para o sociólogo Henrique Varela, o regresso dos jovens emigrantes ao país deve acontecer “no momento certo e na situação adequada”, para evitar frustrações e decepções.
Para o especialista, Cabo Verde deve manter-se de “portas abertas” e criar condições de acolhimento profissional capazes de absorver os jovens regressados com qualificações adequadas em diferentes áreas de trabalho.
Henrique Varela salientou ainda que os indivíduos devem considerar-se “cidadãos do mundo”, sublinhando que a diáspora continua a desempenhar um papel importante no processo de desenvolvimento dos países, através das oportunidades e contributos.
LT/AA
Inforpress/Fim
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