Portugal beneficiou da mão de obra invisível de trabalhadores africanos – Investigadora

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Portugal beneficiou da mão de obra invisível de trabalhadores africanos – Investigadora
14/02/26 - 08:07 am

Lisboa, 14 Fev  (Inforpress) - A especialista em arquitetura Ana Vaz Milheiro afirmou sexta-feira que a modernização de Portugal no pós-25 de Abril beneficiou de uma "tradição construtiva" africana, forjada no período colonial, mas que permanece invisível na história das obras públicas.

A investigadora do ISCTE - Instituto Universitário de Lisboa, à margem da conferência internacional “Colonial and Post-Colonial Landscapes: Architecture, Cities, Labour” (Paisagens Coloniais e Pós-Coloniais: Arquitetura, Cidades e Trabalho), defendeu que a imagem do trabalhador africano como "mais adequado" para a construção foi construída através do uso "extremamente intensivo" de mão de obra local nas infraestruturas coloniais, um modelo que se transpôs para a metrópole após as independências.

"Portugal beneficiou também das independências com esta vinda, muitas vezes, massiva de mão de obra destes trabalhadores [africanos]", que tinham uma tradição e formação construtiva - conjunto de técnicas, saberes e métodos da construção civil - bastante forte, disse Ana Vaz Milheiro em declarações à Lusa.

A especialista explicou que esta história "foi montada como uma forma de exploração em África e da qual estas pessoas, migrando para Portugal, eram portadoras de uma destreza, de uma capacidade de adaptação e de ler as dinâmicas de um estaleiro, que, se calhar, outra mão de obra não era tão facilmente ajustada".

Segundo a investigadora, o 'boom' na construção civil portuguesa, que se deu nos anos 80 e 90 do século passado, deveu-se à mão de obra africana que, embora fosse frequentemente caracterizada como desqualificada, possuía uma "formação bastante forte" e um domínio dos protocolos e da língua portuguesa, o que evitava conflitos técnicos nos estaleiros.

"Esta presença não é apenas fruto só de uma situação pós-independência, é fruto de uma exploração anterior", frisou.

Ana Vaz Milheiro destacou que, apesar de o estaleiro ser um lugar "extremamente hierarquizado", a qualidade técnica das obras é, muitas vezes, garantida pelos trabalhadores na base dessa hierarquia.

"Muitas das coisas que estão escritas nos papéis ou vêm nos desenhos têm de ser depois traduzidas na obra. Essa tradução confia completamente na capacidade das pessoas que estão a trabalhar em resolverem problemas", sublinhou, acrescentando que este conhecimento prático é o que permite cumprir prazos, orçamentos e de ter a qualidade técnica necessária.

A análise da especialista em arquitetura vai além do operário masculino, apontando para a presença de mulheres e crianças, frequentemente invisíveis, nos estaleiros coloniais, muitas vezes através de recrutamento local ou trabalho forçado.

Em territórios como Cabo Verde, recordou, as mulheres, que eram vistas como voluntárias e que, no caso das obras públicas, não eram mencionadas nas companhias, transportavam pedras e areia, sendo portadoras de um conhecimento de construção tradicional que era "indispensável ao aparato colonial" na edificação de hospitais, escolas e barragens.

"Por cada barragem colonial, hospital colonial, escola colonial, por cada construção de estrutura de esgotos, sanitária, etc., devemos ter em atenção os homens, as mulheres e as crianças que construíram", sublinhou.

Para a investigadora, a celebração de edifícios icónicos, como a sede da Fundação Calouste Gulbenkian, em Lisboa, deve incluir o reconhecimento do sacrifício de quem os construiu.

"Não devemos apenas falar do arquiteto, do dono da obra ou de quem a financiou. Devemos dar um lugar na história do edifício aos trabalhadores. O carpinteiro tem uma responsabilidade equivalente à do arquiteto", afirmou.

Ana Vaz Milheiro também defendeu que o papel dos investigadores é identificar estes fenómenos para contrariar discursos de "normalização da desigualdade".

A professora concluiu que o reconhecimento desta "cota de responsabilidade" e do papel ativo e de resistência dos povos colonizados pode ajudar a sociedade portuguesa a ser "mais justa" e a desconstruir preconceitos raciais e de género que persistem na atualidade.

Inforpress/Lusa/Fim

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