
***Por Sandra Custódio, da Agência Inforpress***
Cidade da Praia, 11 Fev (Inforpress) - A escritora cabo-verdiana Fátima Bettencourt abre o coração sobre a velhice, continua a desafiar a fragilidade dos dedos que já não obedecem ao fogão, mas que ainda dominam o destino das personagens, enquanto durar o prolongamento.
Nesta conversa para “conhecer o outro lado”, a pessoa para além da pena, a escritora Fátima Bettencourt, uma figura central da literatura e da cultura cabo-verdiana, que nasceu em Santo Antão, há 88 anos, no dia 16 de Fevereiro é aniversariante, revela-se não apenas como a intelectual de prestígio, mas como uma mulher de uma honestidade desarmante, com um humor sagaz e uma ponta de melancolia pelo Mindelo que se transforma.
Viveu a sua infância no campo, na aldeia chamada Chã de Manuelinho, marcada por uma ligação profunda com o avô que adorava e em São Vicente foi também morar em Mato Inglês até completar a escola primária.
Recorda que a meninice no campo, o menino não tem os brinquedos que há na loja, pelo que tinha que inventar e produzir os seus próprios divertimentos.
Ainda por cima, com um detalhe diferente, porque era a única menina na casa, os outros eram todos rapazes, dois irmãos mais uns meninos que a mãe tomava para criar.
Aos olhos do mundo, ela é Fátima Bettencourt, um dos nomes incontornáveis da literatura de Cabo Verde, mas, entre as amigas de juventude, ela era simplesmente a Fátima Refilona, dado ao seu espírito inquieto, uma jovem que questionava tudo e todos.
A sua juventude foi de acordo com as regras da família e da época, depois saiu para estudar, tendo a partir daí traçado as suas próprias regras.
Naquela época, Mindelo era a sua escola de liberdade, uma cidade desenhada pelo movimento do Porto e pelas luzes das salas de cinema que a libertaram de preconceitos.
Por influência da mãe frequentava a Igreja Baptista, mas começou a ir para festas, aumentando seu círculo de amigos, actividades que já não tinham nada a ver nem com a escola nem com a casa, tendo assim deixado a igreja, porque não lhe permitia dançar, pintar os lábios e fazer “uma data de coisas”, pelo que achou essas proibições muito pesadas e afastou-se do templo.
“Mas, as minhas convicções religiosas continuaram comigo e me ajudaram ao longo da vida”, precisou Fátima Bettencourt.
Hoje, a rebeldia de Hirondina de Fátima Bettencourt Santos Lima, seu nome de baptismo, não se manifesta em gritos na rua, mas no bico da pena, ou melhor, nas duas ou três palavras que aponta freneticamente num bloco à mesa de cabeceira, a meio da noite, para não deixar escapar um sonho.
As raízes dessa escrita visceral mergulham numa infância marcada pelo afecto e numa juventude de confronto, recordando com saudade o avô, figura central da sua formação, cuja morte, conforme conta, foi o primeiro grande golpe emocional, transformado mais tarde no seu conto inaugural “O Avô”.
A carreira literária de Fátima tem o sabor do destino.
Nas suas lembranças, conta que o seu primeiro livro, “Sem Olhar em Pó”, não foi planeado por ela, pois, enquanto os seus manuscritos descansavam numa gaveta, um amigo e admiradores decidiram, à sua revelia, que aquelas histórias pertenciam ao mundo.
“Fiquei parva. Estavam a meter o meu livro no computador e eu só pagaria o papel e a tinta”, recordou, referindo que foi a sua obra mais barata e, talvez, a mais simbólica, financiada por uma amizade no Ministério da Cultura, tendo, a partir dali, nascido a confiança para dar voz à sua indignação.
Uma das passagens mais ricas da sua trajetória como cronista revela o seu olhar clínico para o ser humano.
Perante uma folha em branco e a pressão do prazo de um jornal, Fátima encontrou inspiração na televisão: a Rainha de Inglaterra e uma indesejada saliência na cintura, o famoso “pneu”.
Com o humor que lhe é característico, traçou um paralelo entre a monarca britânica, aflita com a etiqueta, e a "Marituda" das ruas de Mindelo.
“A rainha era capaz de dar as jóias da coroa para não ter aquele pneu. A minha ‘Marituda’ não tem problema: passa uma faixa de pano e pronto, está resolvido”, ri.
É nesta capacidade de cruzar o palácio com o quintal que reside a magia da sua escrita.
Entretanto, a conversa ganha tons mais cinzentos quando o tema é o Mindelo actual, e para quem cresceu numa cidade “feita através do cinema”, ver as salas fechadas “é uma dor física”.
“Esta cidade está a morrer porque abandonou as coisas que lhe davam vida”, lamentou, criticando “a falta de escuta e a malcriadez” dos novos tempos.
Rodeada de netos e bisnetos que lhe dão alegria, a vida social agora é contida, feita de braço dado com a neta Camila ou com a filha Cláudia, a bengala também é a nova companheira de passeio, mas a mente ainda viaja sem auxílio.
“Escrevo histórias infantis, também, com e para os meus netos e bisnetos porque eles fazerem personagens nas minhas histórias”, conta.
“Mas a gente nunca é permanentemente feliz. Então, depois que a minha filha Josina morreu, não tenho muitos momentos. A morte de um filho é algo que dá cabo da gente. É uma dor que não passa. De maneira que é um dia atrás do outro”, desabafou.
A cronista do quotidiano que se destacou pelas crónicas em jornais, onde cruza a cultura popular mindelense com temas da actualidade mundial, tem paixões e preferências, sendo uma amante do cinema de Tennessee Williams e na literatura uma admiradora confessa do poeta brasileiro João Cabral de Melo Neto.
Amante de peixe, um bom caldo de peixe e escabeche e fã de uma atípica lasanha de atum, a autora de “Sonhos e Devaneios”, uma obra construída inteiramente a partir das suas experiências oníricas, se define pela sinceridade.
Ao fim da tarde, a sua hora favorita, quando o sol mergulha atrás do Monte Cara, Fátima Bettencourt continua a olhar para o horizonte e para os jovens deixa um diagnóstico e uma receita curta: “Não se está a ler nada. Ler é remédio para tudo”.
Sentada na sua casa no Mindelo, cidade que ela descreve com uma mistura de amor e luto, a escritora confessa que vive o que o futebol chama de “tempo de prolongamento”.
Mas engana-se quem pensa que o jogo está perto do fim.
Com dois livros incompletos em mãos e uma lucidez cortante, Fátima continua a desafiar a fragilidade dos dedos que já não obedecem ao fogão, mas que ainda dominam o destino das personagens.
Enquanto o “prolongamento” durar, a "refilona" do Mindelo, conhecida pela sua postura questionadora e rebelde, transpondo para a escrita a indignação que sente perante as injustiças sociais, continuará a escrever enquanto os olhos e a mente permitirem porque, para ela, o silêncio nunca foi uma opção.
Nessa idade ainda trabalha, faz revisão de livros, textos, ajuda as pessoas que estão a fazer trabalhos de fim de curso, ou testes de doutoramento.
“Apesar de não ser doutora (…) mas eles pedem-me ajuda e eu vou dando. É assim o meu dia. E isso deixa-me muito feliz. Gosto do que faço. Gosto muito de escrever e tenho muita coisa, muitas ideias apontadas. E esses prolongamentos serão até quando Deus quiser”, exteriorizou.
Com dez livros publicados, o mais recente sobre a vida do falecido irmão Humberto Bettencourt, mais conhecido por Humbertona, apesar da importância da sua obra, a modéstia da escritora é inabalável, recusando a ideia de deixar “um legado grandioso”, preferindo a simplicidade de saber que alguém, algures, pegou num livro seu.
SC/AA
Inforpress/Fim
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