
Cidade da Praia, 19 Jan (Inforpress) - O Presidente da República, José Maria Neves, defendeu hoje uma "reforma profunda" na arquitetura das Nações Unidas e lançou um aviso sobre a urgência climática, asseverando que o mundo já não tem margem para meras declarações de intenção.
O chefe de Estado cabo-verdiano fez essas declarações durante a tradicional apresentação de cumprimentos de Ano Novo ao Corpo Diplomático, acreditado em Cabo Verde.
Num discurso marcado pelo contexto geopolítico de 2026, José Maria Neves manifestou profunda preocupação com a “diplomacia da força” que, conforme sublinhou, tem vindo a substituir o diálogo internacional.
Para Neves, o fortalecimento do multilateralismo não é uma opção, mas uma “necessidade existencial” para os pequenos Estados insulares.
“A Organização das Nações Unidas, em particular o seu Conselho de Segurança, já não reflecte plenamente a realidade geopolítica actual, nem dispõe dos instrumentos necessários para responder com eficácia aos desafios contemporâneos”, afirmou o Presidente, apelando a uma estrutura mais representativa, eficaz e mais capaz de cumprir o seu mandato fundamental de manutenção da paz e da segurança internacionais, após 80 anos da sua fundação.
Por outro lado, como Patrono da Década do Oceano, destacou a entrada em vigor, a 17 de Janeiro, do histórico acordo da ONU sobre a biodiversidade marinha (BBNJ), deixando, entretanto, um alerta em relação aos resultados da COP 30.
“A sobrevivência do planeta exige responsabilidade e cumprimento efectivo dos compromissos. O tempo das declarações de intenção esgotou-se”, reiterou, recordando as “duras provações” vividas em 2025, como a tempestade Erin e as cheias em Santiago Norte, agradecendo, neste particular, a solidariedade internacional que ajudou o país a mitigar os danos humanos e materiais.
“Enquanto Pequeno Estado Insular em Desenvolvimento e Patrono da Década do Oceano, Cabo Verde não pode permanecer indiferente à degradação acelerada do ambiente e dos oceanos. A resposta da natureza às ações humanas tem sido severa e inequívoca”, observou.
“Todos os esforços orientados para responder à crise climática são essenciais para países como Cabo Verde. A COP 30 trouxe sinais de esperança quanto a uma desejável inflexão nas posturas actuais, mas é imperativo que os compromissos assumidos se traduzam em acções concretas”, comentou.
No plano interno, José Maria Neves congratulou-se com a ascensão de Cabo Verde ao grupo de países de rendimento médio-alto, pelo Grupo Banco Mundial, mas manteve um tom cauteloso, sublinhando que o país ainda é “extremamente sensível a choques externos” e precisa de erradicar a pobreza.
“Este reconhecimento resulta de políticas consistentes, de instituições resilientes e da confiança crescente da comunidade internacional no percurso que temos vindo a trilhar”, considerou.
José Maria Neves aproveitou a ocasião para felicitar Senegal pela conquista da Taça das Nações Africanas (CAN 2025), enviando uma mensagem directa ao Presidente Bassirou Diomaye Faye.
Na sua intervenção, lamentou também a instabilidade na sub-região africana e a erosão dos valores democráticos a nível global, referindo que a democracia exige vigilância permanente, transparência e um “compromisso inequívoco” com o Estado de Direito.
Antes de concluir, lembrou que Cabo Verde enfrentará este ano eleições legislativas e presidenciais, apelando a que o processo decorra com o civismo e o respeito pelos resultados que têm caracterizado, conforme sublinhou, as três décadas de democracia do arquipélago.
O evento encerrou com um pedido aos diplomatas para que sejam “intérpretes atentos” das aspirações de Cabo Verde junto dos seus governos e organizações internacionais.
SC/JMV
Inforpress/Fim
Partilhar