
Assomada, 29 Nov (Inforpress) – A neuropsicóloga Jeanette Moreira defendeu hoje uma maior atenção às dimensões emocional e cognitiva das Doenças do Movimento alertando que o foco nos sintomas motores tem levado à negligência de problemas como tristeza, ansiedade e dificuldades de memória.
A especialista, que é também docente na Universidade de Cabo Verde e voluntária da Fundação das Doenças do Movimento em Cabo Verde (Fundação DDM-CV), falava à Inforpress à margem do ateliê “Além do Movimento”, realizado em Assomada, focado precisamente nos impactos não motores destas patologias.
Segundo Jeanette Moreira, a tendência é reduzir as DDM à “parte física, como rigidez ou tremor”, ignorando um conjunto de desafios emocionais e de funcionamento cognitivo que são vividos diariamente e que “nem sempre são reconhecidos ou apoiados”.
A neuropsicóloga sublinhou que as alterações cognitivas, como dificuldades de memória, linguagem, atenção e tomada de decisão, são “muitas vezes negligenciadas face aos sintomas motores, apesar de serem igualmente relevantes para a autonomia e a qualidade de vida” dos doentes.
No plano emocional, descreveu um quadro frequente de tristeza, apatia, frustração, medo e ansiedade em relação ao futuro, potenciado pela cronicidade e incerteza da evolução da doença.
Conforme avançou a especialista, os resultados de um estudo recente, realizado em Cabo Verde com 110 pessoas com doenças do movimento, reforçam estas preocupações.
O estudo aponta que 51 por cento (%) dos participantes referem um impacto forte ou extremo da doença na sua vida, 43% apontam limitações motoras, 36% relatam tristeza ou falta de motivação, outros 36% referem ansiedade e 25% queixam-se de dificuldades de memória.
“Temos uma questão motora importante, mas também uma componente emocional ligada à tristeza, à motivação e ao pensamento sobre o futuro, e uma componente cognitiva que interfere no funcionamento diário”, observou, acrescentando que mesmo “pequenas falhas” relatadas pelas pessoas podem ser significativas.
Jeanette Moreira salientou que estas dificuldades afetam não apenas o doente, mas também os familiares e cuidadores, que enfrentam exigências acrescidas e o peso emocional de acompanhar uma doença crónica.
Por isso, a especialista defende que a resposta às DDM deve ser integrada, contemplando “não só a funcionalidade motora, mas também a parte emocional e cognitiva”, exigindo mais apoio especializado e maior investimento em literacia em saúde.
A neuropsicóloga advertiu que a consciencialização deve abranger a população em geral, já que é uma doença que “qualquer um de nós pode desenvolver”, sendo o conhecimento e a convivência essenciais para reduzir o estigma e evitar que o tema permaneça “na ignorância”.
DV/CP
Inforpress/Fim
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