*** Por: Lucilene Fernandes Salomão, da Agência Inforpress ***
Ribeira Grande, 22 Mar (Inforpress) – Moradores de várias zonas rurais da Ribeira Grande, em Santo Antão, têm denunciado a “grave escassez” de água potável, apesar da abundância deste recurso nas levadas que percorrem os vales do concelho.
Em locais como Figueiral, Selada de Boa Ventura, Kuanza, Gonçalinho, Caibros e Ribeira de Dentro, a realidade é “desoladora” e tem gerado “frustração e indignação” entre os moradores.
A questão foi levantada recentemente na Assembleia Municipal da Ribeira Grande, onde foi caracterizada como “crítica” a escassez e a má qualidade da água que chega às comunidades rurais, apesar de investimentos significativos, como a instalação de furos e sistemas de captação.
Em várias dessas localidades, os habitantes relatam que o quotidiano é marcado pela busca “incessante” por água.
Cibele Medina, residente em Selada de Boa Ventura, descreveu à Inforpress a penúria vivida pela sua comunidade, que há anos enfrenta a falta de água nas torneiras, chegando a não ter sequer uma gota de água.
Conforme a mesma fonte, no entanto, as faturas com contas elevadas de uma água que “nunca viu nem consumiu” chegam todos os meses.
"Temos de ir até Ponta de Rua, em Figueiral, para carregar um pouco de água", contou, lamentando a falta de respostas das autoridades responsáveis, mesmo após várias tentativas de contacto.
Maria da Luz Dias, de Kuanza, partilhou uma experiência semelhante, revelando que a água que deveria chegar à sua casa nunca é suficiente e, quando finalmente chega, as condições de fornecimento são desorganizadas e limitadas.
“A água chega, mas o fornecimento é irregular, e temos de enfrentar longas esperas para conseguir um pouco”, disse.
Segundo Maria da Luz, a falta de água tem gerado um ambiente de tensão na localidade.
O cenário descrito é ainda mais alarmante em Gonçalinho, onde a qualidade da água é constantemente reivindicada pela comunidade. A água fornecida é considerada pelos moradores barrenta e de “péssima qualidade”, gerando sérios problemas de saúde.
Em Figueiral, os moradores alegam que a distribuição de água é caracterizada por “abusos”. Relatam que alguns moradores recorrem a ligações ilegais antes dos contadores, o que resulta em escassez para os residentes que dependem do fornecimento regular.
Em Curva Branca, zona localizada próxima ao matadouro, a água foi cortada sem explicação, deixando os moradores sem acesso a um recurso essencial, sem qualquer previsão de quando o abastecimento será restabelecido.
Na última sessão ordinária da Assembleia Municipal da Ribeira Grande, o presidente da Câmara Municipal da Ribeira Grande, Armindo Luz, disse que o problema não se limita à escassez de água, mas também a falhas na gestão e manutenção da rede de distribuição.
Para o edil, a água deve ser encarada como um bem público, e não como algo de posse individual, alertando para os abusos que ocorrem, como o uso indevido da água destinada ao consumo para irrigação, o que compromete a distribuição.
“Em Figueiras, um caso de vandalismo contra a rede de captação resultou em um processo judicial”, exemplificou.
Armindo Luz disse ainda que o novo modelo de gestão da água, que passou para a responsabilidade da empresa Águas de Santo Antão, visa resolver parte do problema, mas é “necessário” distinguir claramente a água para consumo da destinada à irrigação, para evitar “abusos”.
O edil sublinhou que será realizada uma revisão ao ódigo de Postura Municipal, com o objetivo de melhorar a gestão da água e esclarecer as responsabilidades dos munícipes.
“Nós, munícipes, temos de dar o exemplo”, afirmou, reforçando a importância de respeitar as regras estabelecidas para garantir um abastecimento eficiente e sustentável.
O Dia Mundial da Água, instituído pela ONU em 22 de Março de 1992, visa sensibilizar a população sobre a importância deste recurso vital para a vida no planeta, especialmente em regiões como a Ribeira Grande, onde o acesso à água continua a ser um desafio diário para muitos.
LFS/JMV
Inforpress/Fim
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