
Tarrafal, 27 Ago (Inforpress) – O tarrafalense Marito Vaz regressou ao país após 22 anos na emigração e, em apenas três meses, transformou roupas, arames, papel e outros materiais descartados em 65 obras de arte.
A exposição, patente no espaço Sol E Luna, no Tarrafal, é o resultado de um processo de descoberta pessoal iniciado após o regresso à terra natal, onde o antigo professor de Educação Visual e Tecnológica (EVT) decidiu permanecer.
Em entrevista à imprensa, Marito Vaz contou que começou a criar as peças na casa da mãe, recorrendo a materiais encontrados na rua ou oferecidos por pessoas, aos quais acrescentava massa para acabamento, tinta e verniz.
Roupas velhas, toalhas, arames, papel, cortiças e outros objectos que normalmente seriam considerados lixo ganharam, assim, novas formas e utilidades nas mãos do artista.
“Eu procurava a paz e tentava saber algo sobre mim mesmo”, revelou, explicando que foi durante esse processo de criação que descobriu em si uma capacidade artística que até então desconhecia.
Sem partir necessariamente de um modelo pré-definido, Marito Vaz deixa que cada peça ganhe forma à medida que trabalha. O processo pode prolongar-se por um ou dois dias, dependendo do tempo de secagem da massa e das diferentes etapas de construção.
O resultado são quadros de diferentes formatos e dimensões, vasos e outros objectos decorativos, numa colecção de 65 peças produzidas ao longo de três meses, embora algumas tenham ficado por concluir.
Mais do que uma experiência artística, o trabalho carrega também uma mensagem ambiental. Para Marito Vaz, os materiais descartados não devem ser vistos apenas como lixo, mas como matéria-prima capaz de ganhar uma nova vida.
“Qualquer matéria-prima pode ser transformada num objecto, em algo valioso”, defendeu, apelando a uma mudança de olhar sobre aquilo que é normalmente deitado fora.
A ligação à arte não começou, contudo, com o regresso. Antes de emigrar, Marito Vaz leccionou EVT no Tarrafal durante dois anos. Depois, partiu para Portugal com o objectivo de se formar em construção civil, mas acabou por entrar no mercado de trabalho, tendo posteriormente vivido também em França.
Foram 22 anos longe da terra natal, até decidir regressar. No Tarrafal, encontrou uma nova etapa da vida e diz ter descoberto na criação artística uma forma de “superar frustrações, reencontrar tranquilidade e conhecer-se melhor”.
A família teve “um papel importante” neste percurso. Marito Vaz destaca o apoio da mãe e da irmã, proprietária do espaço onde as obras estão expostas, a quem dedica parte do trabalho, assim como aos filhos.
Após mais de duas décadas fora, garante que não pretende voltar a emigrar. Quer permanecer em Cabo Verde, continuar a criar e mostrar que aquilo que parece não ter valor pode transformar-se em arte.
MC/ZS
Inforpress/Fim
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