
*** Por Sandra Custódio, da Agência***
Cidade da Praia, 18 Jun (Inforpress) - Prestes a afastar-se da linha da frente da vida pública e diplomática, Eurico Monteiro, veterano da política cabo-verdiana, abre o livro das suas memórias, afectos e desassossegos, revelando o miúdo traquinas que a história teimou em politizar.
Através desta viagem intimista onde Eurico Monteiro recorda os afectos, os silêncios, as paixões fora da vida pública e a forma como o tempo transformou a sua intimidade, as pessoas vão poder entender o homem por trás do cargo e que o seu maior legado foi, precisamente, nunca ter deixado que o peso da gravata sufocasse o rapaz humilde de Achada Santo António.
Jurista de renome, uma das figuras centrais da história política de Cabo Verde, com papel crucial na transição para a democracia nos anos 90, Eurico Monteiro revive a sua trajectória, mostrando que o ministro que ajudou a construir a democracia, é o mesmo homem comum que, ao fim-de-semana, aceita ser “comandado” em casa para ir para o fogão fazer o almoço da família.
Da infância pobre em Achada Santo António ao topo do poder, conhecido pela firmeza na política e na diplomacia, Eurico Correia Monteiro, guarda longe dos holofotes uma vida de extrema simplicidade.
O homem por trás do fato e da gravata guarda um universo de simplicidade, marcado por origens humildes, paixões viscerais pela cultura e uma devoção inabalável à família.
Para os cabo-verdianos, ele é o político e o jurista, para os mais próximos, é simplesmente Dico, o seu nominho de infância.
A história de Eurico Monteiro começa longe de Cabo Verde, em São Tomé, no ano de 1955, onde nasceu a 05 de Janeiro, sob o signo de Aquário, o signo dos idealistas e dos que valorizam a liberdade.
Ele é filho de Carlos Monteiro e Maria da Luz Pires Correia, que tinham emigrado para a terra do cacau numa vida de puro sacrifício e trabalho, como tantos outros cabo-verdianos em busca de sustento.
Contudo, as memórias de São Tomé são vestígios vagos na mente de Eurico, porque com os seus cinco anos apenas, a família regressou a Cabo Verde, tendo como destino final o bairro de Achada Santo António, na Praia.
Foi ali que a sua identidade se moldou.
A infância, embora feliz e rodeada de amigos como Felisberto Vieira, foi vivida num cenário de profunda pobreza, uma pobreza que o tempo não apaga da memória.
“Era um ambiente de muita pobreza”, recorda o ministro.
Foi nesse contexto que se destacou a figura do pai, um homem “maravilhoso e muito trabalhador”, conforme conta, que emigrou para o Senegal, fez-se barbeiro e começou a enviar produtos não comestíveis para a Praia, que, por sua vez, a mãe vendia-os, carregando um grande cesto à cabeça.
Mais tarde, o pai estabeleceu-se com uma pequena bancada no Mercado da Praia, e passo a passo, construindo e arrendando casas, a família ascendeu à classe dos “remediados”.
Foi o rigor da mãe que garantiu que o pequeno Dico, conhecido por ser traquinas na escola primária, nunca perdesse o foco nos estudos.
Do bairro até ao liceu, Eurico Monteiro fazia todos os dias cerca de seis a sete quilómetros a pé, num trajecto de ida e volta, partilhado em animados grupos de jovens, que hoje recorda com nostalgia.
Se a infância foi de passos firmes no chão de terra, a juventude foi consumida pela política.
Para Eurico Monteiro, a faísca da contestação ao regime colonial português não nasceu dos manuais ideológicos, mas sim do olhar.
“A primeira motivação para a revolta é visual. Você convive com a polícia, com chefes brancos vindos de sítios diferentes. Eles comandavam. Você ia para o quartel militar e via os oficiais... era gente branca. Vinham cá e impunham-se como uma casta superior. Isto visualmente chocava. A minha primeira revolta foi visual”, exteriorizou.
Dessa indignação visual nasceu o compromisso intelectual, e ao lado de companheiros de geração, alguns já desaparecidos, Eurico mergulhou nas leituras de consciencialização tomando como referência o marxismo, o pan-africanismo, a revolução global.
Um consumidor voraz de literatura, os livros e o cinema tornaram-se, desde cedo, as suas grandes paixões.
Conta que a obsessão pelas páginas impressas era tamanha que, anos mais tarde, em Portugal, chegou a chumbar por faltas no primeiro ano de um curso, porque passava as noites em claro a devorar livros e, de manhã, o sono vencia-o.
Antes de se consagrar na advocacia de topo e na política, trabalhou activamente no movimento cooperativo no pós-independência, ajudando a montar sistemas de abastecimento para as populações mais frágeis, numa altura em que a especulação e o açambarcamento de mercadorias assolavam o país.
Esse contacto directo com a vulnerabilidade humana marcou-o profundamente.
Quando o assunto entra no campo dos afectos, Eurico Monteiro abre o jogo sobre o seu historial amoroso, misturando uma ponta de timidez com humor.
Instigado a confessar se foi um homem de muitas paixões ou namoradas, ele nega prontamente.
“Não, nunca tive muitas namoradas. Olhando para trás, ao longo da minha vida até à idade adulta, fui um homem relativamente comedido”, garantiu, observando que a explicação para a falta de “grandes aventuras” está no facto de ter começado a assumir responsabilidades conjugais muito cedo.
“Desde os 21 anos de idade que estou casado. Foi sempre casamento em cima de casamento. Não tive muito tempo para andar com grandes aventuras. Nessa parte sou mediano… nem tanto, nem tão pouco”, referiu, assumindo com um sorriso humilde, que o seu percurso matrimonial é invulgar.
“Eu já casei várias vezes. Até me dá vergonha de dizer... Casei três vezes”, disse.
Mas se as duas primeiras experiências foram precoces, o terceiro casamento revelou-se o porto de abrigo definitivo, pois o coração do ministro sossegou ao lado de Leninha, com quem começou a partilhar a vida em 1989, oficializando o matrimónio em 1992.
Dessa história de vida e das anteriores uniões nasceu um verdadeiro clã, tendo ao todo, sete filhos, uma contabilidade fortemente inclinada para a ala masculina, isto é, seis rapazes e apenas uma rapariga, sendo que com a esposa Leninha, teve três desses filhos, dois rapazes e a rapariga.
Com os filhos crescidos e já com seis netos, essa imensa teia familiar afasta qualquer receio da solidão na velhice.
Para Eurico Monteiro, com tanta vida e tantos afectos a orbitarem à sua volta, o silêncio que tanto procura no campo nunca será sinónimo de isolamento.
Fora dos holofotes públicos, o seu domingo perfeito não tem banquetes, mas tem cinema, subscrevendo plataformas como a Netflix ou a Amazon para ver um filme todos os dias, tem livros e tem tertúlias restritas com o seu grupo de amigos de sempre, onde debatem futebol e partilham refeições.
Na gastronomia, os seus pratos eleitos são puramente “comida de campo”, feijoada ou cachupa, e engane-se quem pensa que ele apenas se senta à mesa.
Eurico sabe cozinhar razoavelmente bem, domina guisados, faz um arroz “de olhos fechados”, como gaba-se, e orgulha-se de uma especialidade muito particular.
“Faço muito bem doce de leite. Aliás, para mim, o melhor doce é o doce de leite, e sei fazê-lo bem”, confessa.
Aos 71 anos, Eurico Monteiro encara a passagem do tempo com lucidez e uma ponta de vaidade saudável, confessando, entretanto, que tem um único medo físico, o de perder a autonomia.
Por isso, mantém um ritual diário rigoroso todas as manhãs, durante o banho, onde faz entre 20 a 30 agachamentos.
“O que me preocupa é o dia em que não puder andar ou circular. Assusta-me pensar num dia em que as pessoas tenham de me dar a mão para me ajudar a levantar”, desabafa com tocante vulnerabilidade.
Prestes a abraçar um novo rumo, com a retirada das lides governamentais e da vida diplomática activa, o ministro esclarece, entretanto, que não vai abandonar a política, mas vai mudar radicalmente o seu perfil.
O seu próximo grande projecto é de curto prazo, focado na escrita de uma obra jurídica de referência, mas depois disso, quer o silêncio dos bastidores.
“Quero apenas estar numa situação de poder ajudar, de poder apoiar. Não quero estar à frente de nada. Quero um sítio onde possa ser útil, mas com discrição, sem intensidade nem visibilidade”, manifestou.
Perguntado se a sua vida fosse um livro, qual seria o título do capítulo que daria neste momento, respondeu: “Vivi as minhas épocas”.
E a imagem que deseja deixar ao país é a de um homem que nunca se resignou a ser um mero espectador do seu tempo, de alguém que, com erros e acertos, casamentos e agachamentos, escolheu sempre tomar parte na história.
SC/ZS
Inforpress/Fim
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