
Santo António, Região Autónoma do Príncipe, 09 Jun (Inforpress) – Entre memórias de trabalho nas roças e histórias transmitidas entre gerações, cabo-verdianos e descendentes mantêm viva, em São Tomé e Príncipe, a ligação às suas origens.
Milhares de cabo-verdianos foram contratados durante o período colonial, sobretudo em épocas de seca e fome, para trabalhar nas plantações de cacau e café de São Tomé e Príncipe.
Provenientes maioritariamente das ilhas de Santiago, São Vicente, São Nicolau, Santo Antão e Fogo, chegaram ao arquipélago a bordo de navios como o Luanda, Cuanza, Santa Maria e Luvito, iniciando uma nova vida marcada por trabalho agrícola intenso e condições difíceis.
Entre eles estava Natalina Lopes, conhecida por Nhazinha, que chegou a São Tomé em 1970, com apenas 15 anos.
Em declarações à Inforpress, em Santo António, na ilha do Príncipe, recordou que a adaptação às roças foi difícil para muitos dos trabalhadores.
“Os trabalhadores viviam em alojamentos colectivos, frequentemente precários, enfrentando longas jornadas e um sistema de trabalho rígido, com pouca mobilidade social”, contou.
Apesar das dificuldades, destacou a solidariedade que se desenvolveu entre os conterrâneos.
“A convivência entre trabalhadores, muitas vezes iniciada ainda durante a travessia marítima, tornou-se essencial para enfrentar as dificuldades do dia-a-dia”, afirmou.
“Nas roças, ninguém sobrevivia sozinho”, acrescentou.
Hoje, aos 72 anos, vive com uma pensão inferior a 50 euros (5.000$00 cabo-verdianos), complementada pela revenda de pão no centro da cidade.
Natural da localidade de Capela, freguesia de Nossa Senhora da Luz, no concelho de São Domingos, disse que o regresso a Cabo Verde nem sempre foi possível ou desejado.
Segundo explicou, para muitos trabalhadores a permanência em São Tomé e Príncipe resultou da estabilidade encontrada localmente, da constituição de família ou de dificuldades económicas que impediram o retorno.
“Houve casos de regresso após o fim dos contratos, mas também de fixação definitiva e de mobilidade entre os dois arquipélagos”, referiu.
Com a independência de São Tomé e Príncipe, em 1975, o sistema das roças entrou progressivamente em declínio, dando lugar a novas dinâmicas sociais. Muitos trabalhadores e os seus descendentes passaram a integrar sectores urbanos, como o comércio, os serviços e a administração pública.
“Viemos praticamente sem saber para onde íamos”, recordou, por sua vez, Lourença Sanches, de 60 anos, antiga trabalhadora contratada da roça Monte Café.
Natural do concelho de São Miguel, no interior de Santiago, contou ter deixado Cabo Verde ainda adolescente devido à seca e à fome.
“A viagem foi muito dura. Muitos choravam no barco. Quando chegámos, encontrámos muito trabalho e pouca liberdade”, relatou.
Segundo a mesma fonte, os trabalhadores enfrentavam jornadas longas e condições difíceis sob forte controlo da administração colonial.
“Havia diferenças no tratamento. Alguns eram vistos apenas como mão-de-obra barata”, afirmou.
Apesar das mudanças ocorridas após a independência, considera que persistem dificuldades.
“Alguns, muito poucos, receberam parcelas de terra no âmbito da reforma agrária, mas sem apoios suficientes”, lamentou.
Entre os descendentes cabo-verdianos, a questão identitária continua a ocupar um lugar “importante”.
Domingos Pereira, presidente da Associação Djunta Mó, no Príncipe, professor e actualmente inspector da Educação, afirmou ter crescido entre referências culturais de Cabo Verde e de São Tomé e Príncipe.
“Tenho orgulho nas duas raízes, mas ainda existem pessoas que nos olham como diferentes”, declarou.
Segundo explicou, a ligação cultural a Cabo Verde continua presente em muitas famílias, através da língua, das tradições e das histórias transmitidas entre gerações.
O crioulo cabo-verdiano mantém-se vivo em diversos agregados familiares e muitos descendentes assumem actualmente uma identidade dupla, reflexo de um longo processo de integração na sociedade santomense sem ruptura com as origens familiares.
Estima-se que cerca de três mil cabo-verdianos e descendentes residam actualmente em São Tomé e Príncipe, embora o número possa ser superior devido à miscigenação registada ao longo das gerações.
Para Domingos Pereira, mais do que uma comunidade delimitada, trata-se de uma presença historicamente enraizada no tecido social santomense.
A manutenção dos laços familiares, culturais e económicos com Cabo Verde continua, contudo, condicionada pelas dificuldades de deslocação entre os dois países.
Actualmente, as viagens implicam escalas prolongadas, frequentemente via Lisboa ou Luanda, o que aumenta os custos e dificulta a mobilidade.
Por isso, vários responsáveis e membros da comunidade defendem o estabelecimento de uma ligação aérea directa entre São Tomé e Príncipe e Cabo Verde.
Segundo sustentam, uma eventual ligação permitiria facilitar visitas familiares, deslocações para cuidados de saúde, estudos e negócios, além de reforçar as trocas culturais e económicas entre os dois arquipélagos.
Para muitos membros da comunidade, uma ligação aérea directa representaria mais do que uma facilidade de transporte, constituindo um reforço dos laços históricos, familiares e culturais que unem Cabo Verde e São Tomé e Príncipe há várias gerações.
JMV/ZS
Inforpress/fim
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