Ordem dos Médicos alerta para resistência aos antibióticos e defende reforço da formação e vigilância

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Ordem dos Médicos alerta para resistência aos antibióticos e defende reforço da formação e vigilância
04/06/26 - 08:20 pm

Cidade da Praia, 04 Jun (Inforpress) – O bastonário da Ordem dos Médicos de Cabo Verde alertou hoje que a resistência aos antimicrobianos constitui um dos maiores desafios da medicina actual, defendendo maior formação, vigilância epidemiológica e mobilização dos profissionais de saúde.

Francisco Barbosa Amado fez estas declarações na cerimónia de lançamento do projecto PREPARA-M.CV, liderado pela Universidade de Cabo Verde (Uni-CV), que visa reforçar a gestão das infecções respiratórias pediátricas e combater a resistência aos antimicrobianos através de diagnósticos e sistemas de vigilância assentes em evidências científicas.

Na ocasião, o bastonário afirmou que a resistência antimicrobiana deixou de ser uma preocupação limitada aos laboratórios e especialistas em epidemiologia, passando a constituir uma realidade presente no quotidiano dos profissionais de saúde.

“A resistência antimicrobiana manifesta-se diariamente na prática clínica, nas decisões de prescrição, no acompanhamento dos doentes e na protecção da saúde pública”, afirmou.

Segundo o responsável, a utilização racional dos antibióticos deve ser encarada como uma prioridade nacional, exigindo conhecimento científico, capacidade de monitorização, articulação institucional e envolvimento activo da classe médica.

Referindo-se às infecções respiratórias em crianças, Francisco Barbosa Amado salientou que estas continuam a representar uma parcela significativa da morbilidade infantil, defendendo o reforço da capacidade de distinguir infecções virais de infecções bacterianas, de forma a evitar prescrições desnecessárias de antibióticos.

Para o bastonário, esta diferenciação é fundamental para melhorar a qualidade dos cuidados de saúde e preservar a eficácia destes medicamentos para os casos em que são efectivamente necessários.

Francisco Barbosa Amado considerou ainda que o PREPARA-M.CV demonstra a importância da cooperação entre instituições de investigação, profissionais de saúde e entidades nacionais e internacionais na procura de soluções para os desafios sanitários do país.

Por seu turno, a directora clínica do Hospital Universitário Agostinho Neto (HUAN), Hirondina Spencer, alertou para o impacto da prescrição inadequada de antibióticos, sublinhando que a maioria das infecções respiratórias registadas em crianças tem origem viral.

Segundo explicou, cerca de 80 por cento destas infecções não requerem tratamento com antibióticos, mas a ausência de ferramentas de diagnóstico rápido tem contribuído para a utilização destes medicamentos em situações desnecessárias.

Neste sentido, anunciou que o projecto permitirá introduzir testes rápidos de diagnóstico molecular no Hospital Agostinho Neto, reforçando a capacidade de identificação da origem das infecções e a definição de tratamentos baseados em evidências científicas.

A responsável defendeu igualmente a formação contínua dos profissionais de saúde e o fortalecimento da vigilância epidemiológica, através de uma abordagem integrada que reúna informações da saúde humana, animal e ambiental para monitorizar os padrões de resistência no arquipélago.

Hirondina Spencer assegurou que o Hospital Agostinho Neto está comprometido com a implementação do projecto e com a produção de evidências científicas que contribuam para a melhoria da qualidade dos cuidados prestados.

Financiado pela Fundação Calouste Gulbenkian em cerca de 180 mil euros, através do concurso “+ Investigação”, o PREPARA-M.CV pretende gerar dados clínicos e epidemiológicos que sustentem práticas médicas baseadas em evidências e promovam o uso racional dos antibióticos.

O projecto prevê ainda a vigilância laboratorial, incluindo a caracterização dos agentes patogénicos responsáveis por infecções bacterianas em crianças atendidas na urgência pediátrica e o mapeamento dos respectivos perfis de resistência, bem como acções de capacitação e sensibilização.

A resistência aos antimicrobianos é considerada pela comunidade científica internacional uma das principais ameaças à saúde pública mundial, devido à crescente perda de eficácia dos antibióticos no tratamento de infecções causadas por bactérias resistentes.

CM/JMV

Inforpress/Fim

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