PERFIL/Jorge Geni: Homem que fintou o impossível, partilha vida feita de audácia e generosidade (c/áudio)

Inicio | Sociedade
PERFIL/Jorge Geni: Homem que fintou o impossível, partilha vida feita de audácia e generosidade (c/áudio)
30/05/26 - 05:50 am

Cidade da Praia, 30 Mai (Inforpress) - Da fuga clandestina num bote em São Nicolau ao Palácio do Governo na Praia, a história de Jorge Maria Soares, aos quase 87 anos, confunde-se com a própria história de Cabo Verde.

***Por Sandra Custódio, da Agência Inforpress***

Há homens cuja vida não cabe num currículo, exige, antes, um mapa e um livro de aventuras.

Jorge Maria Soares, que o mundo conhece e respeita como “Jorge Geni”, nasceu na Praia, no Hospital Santa Isabel, a 03 de Julho de 1939.

Contudo, o destino encarregou-se de o fazer saltar de ilha em ilha, desenhando uma biografia onde a audácia substituiu a falta de berço e a sorte sorriu sempre aos audazes.

Hoje, a escassos meses de completar 87 anos, recorda o percurso de um miúdo que começou descalço e se tornou num dos cidadãos mais carismáticos da Achadinha Baixo, self-made man, pioneiro e testemunha privilegiada da transição para a independência e para a democracia em Cabo Verde.

A infância de Jorge Geni foi marcada pela itinerância e pela perda. Com menos de um ano, o pai levou-o para Santo Antão, ficando aos cuidados da avó, mas a morte desta mudou o rumo das coisas.

Aos 10 anos, acompanhando uma tia grávida, desembarcou em São Nicolau, onde os livros deram lugar ao cabo da enxada, ao pastoreio, à pesca e à agricultura.

Aos 17 anos, a ambição de procurar uma vida melhor falou mais alto, e sabendo que o Sal precisava de pastores, tomou uma decisão drástica, fugir.

“Não tinha um tostão, não levei roupa, nem nada. Fugia”, recorda, com um brilho nos olhos.

Sem os 4 escudos necessários para o bote que o levaria ao navio Ilduto, que aguardava em alto mar, valeu-lhe a generosidade de um desconhecido que pagou a viagem em troca de um recado para a irmã no Sal.

Escondido a bordo, sem passagem, foi descoberto pelas autoridades da embarcação, mas impossibilitados de voltar atrás, retiveram-no na cozinha enquanto o barco atracava em Pedra de Lume.

A liberdade chegou quando mencionou o nome do tio, “Ti Calá”, figura respeitada na ilha, pois, “pés para que os tenho”, caminhou a pé firme até aos Espargos, onde foi acolhido.

As calças do tio, cortadas e ajustadas à pressa, pela esposa do “Ti Calá”, para servirem de calções ao jovem fugitivo, foram o primeiro símbolo de uma dignidade conquistada a pulso.

Depois de uma passagem conturbada por São Vicente, onde trabalhou nas obras do Aeroporto de São Pedro por 12 escudos mensais e na recolha de lixo da Câmara Municipal, Jorge regressou à Praia, a sua terra natal, tinha ainda 17 anos, um violão nos braços e uma mala de cartão.

Num golpe de intuição, ao desembarcar, encontrou a mãe, a senhora Narcisa, após perguntar por ela a um desconhecido no cais.

“Tive sempre sorte nessas aventuras”, confessa.

Na Praia, trabalhou nas ferragens da construção do Liceu Domingos Ramos e a vida começou a prosperar, mas foi a incorporação na tropa colonial que revelou a sua verdadeira astúcia, inscrevendo-se como “cobrador de camioneta”.

Quando surgiu a oportunidade de fazer provas profissionais de condução em Portugal, Jorge foi inicialmente excluído por não ter a 4ª classe, porém a burocracia não foi obstáculo para quem Deus guardava o destino.

Conseguiu alinhar no teste em Lisboa, lembrando-se que dos dez candidatos, apenas dois passaram, o Pina de Variante em primeiro, e Jorge Geni em segundo.

“Deram-me a farda e 500 escudos em ajudas de custo. Era a primeira vez na vida que pegava em quinhentos escudos na mão”, conta, entre risos, lembrando a ansiedade a bordo dos navios que faziam a rota do império, como o Rita Maria ou o Alfredo da Silva.

Em Portugal, estagiou no Regimento 16/1 em Elvas, guardou cada centavo, comprou sapatos para revender e, no regresso a Cabo Verde, com a ajuda da mãe, tirou a carta de condução profissional.

A partir de 1961, após uma comissão de trabalho nas estradas de São Nicolau, a carreira de Jorge deu um salto invulgar.

Colocado no parque automóvel do Estado, na Praia, foi-lhe atribuído um veículo destinado exclusivamente ao transporte de altos funcionários e chefes de serviço.

Numa época em que ninguém tinha carro próprio, Jorge tornou-se a sombra e o homem de confiança de governantes, secretários de Estado e directores do Ministério do Ultramar.

A sua proximidade e rectidão valeram-lhe um feito inédito na administração colonial, e numa viagem de férias a Portugal, conseguiu uma audiência com o Secretário de Estado do Ultramar para expor a sua situação laboral, tendo o governante sugerido a aposentação antecipada.

Com apenas 35 anos de idade e 15 de serviço, Jorge Geni tornou-se a única pessoa das províncias ultramarinas a conseguir reformar-se nestas condições, adquirindo também a nacionalidade portuguesa.

A reforma precoce não significou descanso, significou campo livre para o empreendedorismo.

Homem de sete ofícios, Jorge estudou enfermagem, onde conheceu a sua falecida esposa, Geni Barreto, com quem casou em 1967, construiu sete casas na zona da Achadinha com as próprias mãos, comprou táxis e camiões, e gerou emprego para dezenas de pessoas.

Mais tarde, trabalhou durante 19 anos na Shell, onde o seu salário e comissões de venda consolidaram a sua estabilidade financeira.

Na Achadinha Baixo, a casa de Jorge e Geni era o coração do bairro.

Foram os primeiros a ter electricidade e a primeira televisão da zona, o primeiro automóvel, comprado directamente ao Palácio do Governo, que colocou para fazer frete, e o seu número de licença de praça era 14.

“A minha casa estava sempre cheia de gente. Acolhíamos familiares do interior e abríamos as portas para a vizinhança ver as telenovelas. Abraçámos toda a gente, conhecendo ou não”, conta.

Desse casamento nasceram cinco filhos, aos quais se juntaram mais três, totalizando oito, todos formados e orientados na vida, a maior fonte de orgulho do patriarca.

Sobre a esposa, falecida há sete anos e a quem guarda total fidelidade, desabafa com comoção: “Mulher como aquela não encontro mais sobre a face da terra”.

Politicamente activo, Jorge Geni mantém ligação ao Movimento para a Democracia (MpD), partido de que é militante há vários anos.

Olhando para o Cabo Verde de 2026, Jorge Geni que tem como lema “não deixo para amanhã o que posso fazer hoje”, assume um tom mais crítico e preocupado, encarando com apreensão a postura da nova geração.

“A geração de 2000 para cá é complicada, querem ter tudo sem fazer nada. Assim o país não desenvolve a um bom ritmo”, lamenta, mostrando-se também preocupado com a fuga massiva de mão-de-obra jovem para o estrangeiro.

Para os governantes actuais, deixa um recado directo: “Que governem de facto para o país e para o seu povo, particularmente os mais vulneráveis”.

Aos 87 anos, lúcido, independente e respeitado por todos como o eterno “Tio”, Jorge Geni olha para trás com a paz de quem cumpriu a missão.

“Sinto-me bem com tudo o que fiz”, conclui Jorge Geni, cujo legado serve de inspiração e deixa às novas gerações a lição de que, para vencer na vida, é preciso coragem para saltar a bordo, mesmo com o barco já em movimento.

SC/JMV

Inforpress/Fim

Partilhar