
Cidade da Praia, 02 Jul (Inforpress) - A antiga primeira-dama Adélcia Pires afirmou que a história de Cabo Verde se escreveu também no quotidiano invisível da clandestinidade, no silêncio do exílio e nos bastidores do poder, muito além dos palcos oficiais da independência.
Adélcia Pires manifestou esse sentimento em entrevista à Inforpress, reiterando que a pátria se construiu também no quotidiano invisível da clandestinidade, do exílio e da gestão familiar na sombra do poder e do nascimento de uma nova nação.
Antes do reconhecimento público, a vida de Adélcia Pires, mulher do Comandante Pedro Pires, foi marcada por anos de clandestinidade, viagens constantes e um forte apoio à causa da libertação nacional fora de Cabo Verde.
Explicou que viver como uma jovem mulher num ambiente de permanente vigilância exigia uma capacidade extraordinária de adaptação, onde cada nova realidade trazia a necessidade de passar despercebida e de resistir à pressão psicológica do perigo iminente.
Foi precisamente nesses anos de exílio e de luta, em palcos como a Guiné-Conacri, que se forjou uma verdadeira “família de armas”.
Longe de casa, ela e outras mulheres partilhavam as mesmas angústias e esperanças, num núcleo feminino que se transformou num “suporte vital”, onde a solidariedade unia vidas ligadas pelo mesmo destino incerto.
Com a independência, em 1975, os desafios mudaram de cenário, mas não de intensidade, na medida em que o Comandante Pedro Pires assumiu a chefia do Governo de um país que precisava de ser erguido do nada.
Segundo Adélcia Pires, com o tempo do marido entregue quase por inteiro aos destinos de Cabo Verde, coube-lhe a missão de gerir o nascimento e o crescimento das filhas, Sara e Indira.
Nesse período pós-independência, marcado por extremas dificuldades económicas e sociais, Adélcia lembrou que a resistência continuava dentro de portas, onde a opção foi sempre manter uma vida simples e terra-a-terra.
“Era fundamental dar o exemplo de sobriedade, alinhando o tecto da família com a realidade difícil que o povo cabo-verdiano enfrentava nas ruas”, concretizou.
Prosseguindo a sua narrativa, referiu que a viragem histórica de 1991, que ditou a transição democrática e a saída do PAICV do poder, trouxe uma dualidade de sentimentos, após 15 anos de um desgaste avassalador na governação.
O recolhimento terminou em 2001, quando Pedro Pires foi eleito Presidente da República e Adélcia assumiu oficialmente o papel de primeira-dama, encarando o desafio de forma muito diferente.
Agora, com mais maturidade e uma vasta experiência de vida acumulada desde os anos 70, aceitar o protocolo e a exposição pública foi um processo muito mais fácil e sereno do que na juventude.
Olhando para trás, Adélcia Pires deixa uma mensagem clara às gerações mais jovens de mulheres cabo-verdianas.
Para a antiga combatente, o amor, a dedicação e o serviço ao país não são conceitos abstratos, mas práticas diárias, pelo que o seu apelo foca-se na necessidade de cada um continuar a dar o seu melhor por Cabo Verde, lembrando que a construção da pátria é um processo contínuo que exige entrega e resiliência.
“Eu adoro este país e sinto que vale a pena”, enfatizou.
SC/CP
Inforpress/Fim
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