19 de Maio de 1974: Os tiros da PIDE que marcaram a Praia

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19 de Maio de 1974: Os tiros da PIDE que marcaram a Praia
19/05/26 - 02:15 am

*** Por Luís Carvalho, Agência Inforpress ***

Cidade da Praia, 19 Mai (Inforpress) - A memória da Dona Liloca e do marido Leci continua viva sobre um dos episódios mais marcantes da história recente da Praia: os confrontos de 19 de Maio de 1974, quando a população enfrentou a repressão da PIDE.

Ao lado do marido Indalécio Hitler Gualberto Antunes (Leci), hoje com 89 anos, Olinda Tavares Silva Moreira (Dona Liloca), 85, contou a história do dia 19 de Maio de 1974, quando um grupo de jovens, revoltados com a situação que se vivia em Cabo Verde, resolveu enfrentar a polícia política portuguesa, a PIDE.

Passaram mais de cinco décadas, mas as imagens daquele dia continuam presentes. Dona Liloca recorda a correria, os tiros e o medo instalado nas ruas do Platô e Ponta Belém.

“Eu lembro que vi pessoas que iam correndo, correndo, correndo”, conta, lembrando que as pessoas fugiam à procura de abrigo enquanto os disparos ecoavam pela cidade.

Segundo o casal, o ambiente já era de grande tensão antes daquele dia. O povo cabo-verdiano acompanhava os acontecimentos políticos que agitavam Portugal após a Revolução dos Cravos, ocorrida em Abril de 1974.

Em Cabo Verde, cresciam as manifestações contra o colonialismo e a favor da independência.

“Jovens ligados ao PAIGC [Partido Africano para a Independência da Guiné e Cabo Verde] organizavam reuniões clandestinas, enquanto a PIDE reforçava a vigilância”, conta o casal, em entrevista à Inforpress e cuja residência fica a escassos metros do actual edifício das Infraestruturas, onde, na altura, funcionava um destacamento militar.

Dona Liloca não tinha um restaurante propriamente dito, mas fornecia refeições e bebidas a algumas pessoas, entre as quais os militares, que frequentavam a casa dela.

“Tinha um filho fofinho que o pessoal [militares] o levava para passear e eu ficava com medo que pudesse acontecer alguma coisa com ele”, recorda Dona Liloca, referindo-se aos agentes militares.

Dona Liloca descreve o 19 de Maio de 1974 como dia de grande confusão, com as pessoas a correrem entre as ruas da Fazenda e de Ponta Belém enquanto veículos policiais avançavam para dispersar a multidão.

“Eles começaram a fazer aquelas confusões”, diz a Dona Liloca, acrescentando que a dado momento, os disparos tornaram-se intensos e muitos jovens procuravam esconder-se debaixo dos carros ou atrás das paredes das casas.

Na memória do casal, a violência daquele dia atingiu sobretudo jovens moradores dos bairros populares. Alguns ficaram feridos, outros foram perseguidos e presos.

Na Praia, diz o senhor Leci, a movimentação popular começou no mercado e nas zonas próximas ao Platô. Recorda que tropas portuguesas e agentes policiais controlavam vários pontos estratégicos da cidade.

“A polícia estava ali. Tropas portuguesas também estavam ali”, lembra, acrescentando que o clima era de confronto iminente.

Para Leci, aquilo era quase terror, em que o som das rajadas e os tiros disparados à toa.

Conta que, na época, vários militantes e simpatizantes do PAIGC se reuniam discretamente em casa dele, em Ponta Belém. Entre eles estavam figuras que mais tarde assumiram responsabilidades políticas em Cabo Verde.

Segundo ele, os encontros serviam para ouvir rádio sobre o desporto, discutir política e acompanhar as notícias vindas do exterior.

“A vigilância da PIDE era constante. Eles colocavam pessoas para sondar o que nós estávamos fazendo”, recorda.

O casal diz que havia infiltrados nos bairros e que qualquer reunião despertava suspeitas das autoridades coloniais. Mesmo assim, muitos continuavam envolvidos na luta política.

Instada se sentia medo por causa daqueles momentos conturbados, Dona Liloca revela que sentia algum receio sempre que saía de casa.

“Eu tinha medo mesmo e até a minha mãe me sugeriu que fosse ficar em casa dela, na Fazenda”, admite.

O receio aumentava quando começavam os disparos. Ainda assim, afirma que a população não desistia de enfrentar o sistema colonial.

“As raparigas tinham raiva dos portugueses”, lembra, referindo-se à indignação crescente entre os jovens.

Apesar da repressão policial, havia também solidariedade entre os moradores. Muitas famílias escondiam perseguidos políticos, ajudavam presos e levavam alimentos e produtos de higiene aos encarcerados.

Dona Liloca recorda que conhecia vários presos políticos, entre os quais o escritor angolano Mendes de Carvalho, e ajudava-os como podia. “Chamavam para comprar pasta de dentes, sabonete”, conta.

Em 1980, em reconhecimento ao apoio que prestou os presos políticos angolanos, Dona Liloca, juntamente com outros cabo-verdianos, foi homenageada, em Luanda, pelo Presidente Agostinho Neto.

O senhor Leci também fala da convivência com figuras históricas da luta anticolonial. Recorda encontros com antigos presos políticos e dirigentes ligados ao PAIGC. Algumas dessas personalidades viriam mais tarde a ocupar cargos importantes no Estado cabo-verdiano após a independência.

Apesar das dificuldades, o casal lembra aquele período com orgulho. Para eles, o 19 de Maio simboliza a coragem do povo da Praia diante da repressão colonial.

“Foi muito importante”, afirma Dona Liloca. Hoje, a data é celebrada como Dia do Município da Praia, numa homenagem aos que resistiram e lutaram pela liberdade.

Ao longo da conversa, o casal mistura memórias políticas com histórias familiares e desportivas. Leci recorda os tempos em que jogava futebol no clube desportivo Os Nazarenos e, mais tarde, no Sporting da Praia.

Dona Liloca fala dos filhos, dos amigos e das homenagens recebidas ao longo da vida. Mas é sempre ao 19 de Maio que regressam as lembranças mais fortes.

“Lembro-me aquele dia”, repete Dona Liloca, quase em silêncio.

Na pequena sala onde falaram com a Inforpress, as vozes carregam o peso da história. Mais do que recordar tiros e perseguições, o casal testemunha a resistência de uma geração que viveu os últimos anos do colonialismo português em Cabo Verde.

Cinco décadas depois, as marcas daquele dia continuam presentes na memória da cidade da Praia — e sobretudo na vida de pessoas como Dona Liloca e senhor Leci, sobreviventes de um tempo em que lutar pela liberdade podia custar a própria vida.

Hoje, o 19 de Maio é lembrado como símbolo de coragem, resistência e luta pela liberdade. Por isso, a data foi escolhida como Dia do Município da Praia.

A revolta fortaleceu a luta anticolonial e ajudou no caminho para a independência.

LC/CP

Inforpress/Fim

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