
Cidade da Praia, 17 Out (Inforpress) – O processo de tradução da Bíblia para crioulo cabo-verdiano entrou na fase de preparação técnica e uniformização linguística e procura conciliar a fidelidade às línguas originais da Bíblia com a diversidade de variantes do crioulo falado nas ilhas.
Em declarações à Inforpress, no âmbito de um seminário que terminou esta semana na cidade da Praia, padre Ricardo Monteiro, membro da comissão de tradução, afirmou que desde Janeiro deste ano foram desenvolvidos instrumentos considerados essenciais para esta etapa.
“O projecto está andando muito bem, graças a Deus. E este ano praticamente efetivamos o processo e estamos a avançar neste caminho. Tínhamos o projeto feito, mas agora já podemos dizer que temos um vocabulário, uma lista de palavras-chave da nossa escritura e também as matrizes de unificação do nosso trabalho”, afirmou.
A equipa encontra-se igualmente numa fase de treinamento para utilização do programa Paratext, uma ferramenta especializada que permite organizar os textos, coordenar o trabalho dos tradutores e facilitar a colaboração entre os diferentes intervenientes.
Um dos principais desafios identificados durante o seminário é a escolha de formas linguísticas e ortográficas que permitam a compreensão do texto nas diferentes ilhas, sem privilegiar necessariamente uma variante em detrimento das restantes.
O projecto é promovido pela Escola Universitária Católica de Cabo Verde, em articulação com as dioceses de Santiago e do Mindelo, conta com apoio técnico da Seed Company.
Prevê a disponibilização de versões para consulta pública antes da edição final, enquadrada nas comemorações dos 500 anos da Diocese de Santiago, prevista para 2033.
Para o diretor de consultoria em tradução da Seed Company, John Iseminger, a diversidade linguística constitui uma das questões que exigirão maior atenção, defendendo que a tradução deve preservar o sentido dos textos originais e, ao mesmo tempo, recorrer a expressões naturais na língua de chegada.
Por seu lado, o estudioso da língua materna Marciano Moreira, também membro da comissão, considerou que a tradução poderá ter um impacto que ultrapassa a dimensão religiosa, ao contribuir para a consolidação da escrita e para a transmissão da língua às novas gerações, num contexto em que a oralidade continua a desempenhar um papel central na sua preservação.
Na sua óptica, a padronização não deve significar a eliminação das variantes regionais, mas antes a procura de uma forma de expressão compreensível para o maior número de falantes, admitindo o recurso a notas explicativas e sinónimos para esclarecer diferenças de vocabulário entre as ilhas.
O projecto visa traduzir integralmente a Bíblia diretamente das línguas originais (grego, hebraico e aramaico) para a língua cabo-verdiana (crioulo) e conta com uma equipa multidisciplinar que incluiu teólogos, linguistas e especialistas em grego bíblico e crioulo.
ET/AA
Inforpress/Fim
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