
Mindelo, 17 Abr (Inforpress) – A investigadora da Uni-CV Celeste Fortes considerou a necessidade de se preparar futuros profissionais de saúde ainda na academia para identificar e lidar com casos de mutilação genital feminina e fazer advogacia no sentido de evitar tal prática.
A investigadora do Centro de Investigação em Género e Família (CIGEF) da Universidade de Cabo Verde (Uni-CV), falava à imprensa propósito de um curso livre sobre mutilação genital feminina, dirigido sobretudo a estudantes de enfermagem.
Segundo explicou, a iniciativa visa dotar os futuros profissionais de ferramentas que lhes permitam reconhecer esta prática e actuar no seu combate, através de uma abordagem informada e pedagógica.
Conforme a mesma fonte, a formação académica desempenha “um papel central” na prevenção, ao permitir que os estudantes compreendam os riscos associados à mutilação genital feminina, que se fazem sentir desde a infância até à idade adulta, incluindo complicações graves durante a gravidez e o parto.
“Uma menina que é submetida à mutilação ainda muito cedo acaba por ter impacto nefasto ainda em criança, mas depois em idade jovem e adulta. Nós conhecemos dados internacionais de morte de mulheres grávidas que foram submetidas à mutilação genital feminina”, explicou.
Segundo Celeste Fortes, apesar de não ser uma prática tradicional em Cabo Verde, já existem registos no país, associados à mobilidade de pessoas provenientes de contextos onde a mutilação genital feminina é culturalmente aceite.
Neste sentido, considerou que os profissionais de saúde devem estar preparados para identificar sinais e actuar de forma adequada.
Relativamente à recente condenação de um grupo de imigrantes por prática de mutilação sexual na ilha do Sal, considerou tratar-se de uma decisão justa, sublinhando a importância de uma resposta firme por parte das autoridades, aliada a uma abordagem pedagógica junto das comunidades.
Por seu lado, Sónia Condé, de nacionalidade guineense e sobrevivente de mutilação genital feminina, partilhou a sua experiência, classificando-a como “traumatizante” e com efeitos duradouros na sua vida.
Actualmente, a activista colabora com o CIGEF em acções de sensibilização dirigidas sobretudo a comunidades imigrantes da África Ocidental.
“Vi a oportunidade de ajudar nas questões de sensibilização e conscientização, sobretudo para a comunidade imigrada e dos meus conterrâneos a não submeterem as filhas a essa prática. Muitas vezes as famílias não têm tanta escolha porque a prática é tão enraizada culturalmente porque a herdaram ou por acreditar que estão a fazer bem às suas filhas”, afirmou,
Conforme a activista por causa da pressão cultural e por acreditarem que estão a agir em benefício das filhas e torna o combate mais complexo e exige uma abordagem cuidadosa, baseada no diálogo e na educação.
Nesse sentido, indicou que a informação e a formação são essenciais para desconstruir crenças e promover mudanças de comportamento, realçando que “nada justifica a mutilação genital feminina”, salvo em “situações estritamente médicas”.
A formação dirigida aos estudantes da enfermagem insere-se na missão do CIGEF de promover os direitos humanos, a igualdade de género e a prevenção da violência nas suas diversas formas.
As formações contam com a parceria da Alta Autoridade para a Imigração (AAI), da Rede Marigual e apoio técnico e financeiro do Fundo das Nações Unidas para a População.
CD/AA
Inforpress/Fim
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