
*** Por Letícia Neves, da Agência Inforpress***
Mindelo, 27 Ago (Inforpress) - O cheiro de produtos frescos que antes preenchia a banca de Betinha, no Mercado de Verduras, na Praça Estrela, desapareceu, substituído pelo odor da lama e pelo desespero, mas mesmo diante da devastação a esperança é reerguer-se.
Betinha, 70 anos, natural da ilha do Fogo, vive há vários anos em São Vicente, onde construiu sua vida em torno do Mercado de Verduras, infra-estrutura completamente destruída pela tempestade do dia 11 de Agosto, em São Vicente.
As enxurradas não pouparam seu negócio, nem a esperança de um futuro mais tranquilo.
A catástrofe aconteceu um dia após Betinha ter abastecido a banca com hortaliças e verduras frescas para as vendas do Festival Baía das Gatas, e também com produtos que chegaram da sua terra natal, na sexta-feira anterior.
"Consegui a encomenda no sábado e, devido ao muito movimento que havia, decidi que só colocaria à venda na segunda-feira. Abri o saco e só tirei um quilo de café do Fogo, o restante ficou", contou Betinha.
O cenário no Mercado de Verduras após as chuvas é de completa devastação, com várias bancas destruídas.
No entanto, a vendedora até hoje não teve coragem de ver com os próprios olhos, já que foi o filho quem lhe deu a notícia de que nem a balança restou.
"Desde aquele dia não fui ao mercado, porque é uma tristeza ver todas as tuas coisas levadas pelas águas e não conseguir recuperar nada", lamentou Betinha, com a voz embargada, ao se lembrar do espaço que um dia foi seu sustento.
Ela agora duvida do seu futuro, pois, devido a problemas de saúde, como artrose nas mãos e pernas, não consegue vender nas ruas.
Além disso, é a única provedora da família e usa o lucro para cuidar dos filhos, incluindo o custeio dos estudos da filha que está em Portugal.
Apesar do golpe, a resiliência de Betinha é um fio de esperança, ela que se apega à reconstrução do mercado e que espera que a ajuda de 30 mil escudos, prometida pelo Governo por três meses, seja entregue “o mais rápido possível”.
Pois, a intenção, conforme revelou à Inforpress, é começar a reerguer seu negócio quando juntar os 90 contos, valor que “já dará para fazer alguma coisa”.
Betinha garante que continuará sua luta, não apenas para recuperar a banca, mas também a dignidade e o futuro de sua família, um futuro que, apesar das enxurradas, ela se recusa a ver naufragar.
Assim como Betinha, várias famílias dependem da reconstrução urgente do mercado, que é um dos pontos centrais do movimento comercial e cultural do Mindelo e que se espera que volte a pulsar.
Aliás, a Praça Estrela, local central do comércio informal da ilha, onde se localiza o Mercado de Verduras, foi uma das zonas mais afectadas, com barracas inundadas e perdas totais do recheio, viaturas trazidas pelas enxurradas, que galgaram o passeio e posicionaram-se ao lado das barracas, pavimento e corrimão de protecção levantados e detritos espalhados.
LN/AA
Inforpress/Fim
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